A cidade de Fez, que para muitos visitantes é sinónimo da medina histórica e dos curtumes de couro, passa a ser palco de um artesanato bem diferente: eletrónica ferroviária de alta precisão para a Alstom, um dos maiores fabricantes de transporte do mundo.
Fez conquista um feito inédito na Alstom
A Alstom definiu a sua unidade de Fez, em Marrocos, como sede da primeira linha de produção global do grupo dedicada integralmente às mesas de condução de comboios. O aporte chega a cerca de 100 milhões de dirhams marroquinos, algo em torno de 9 milhões de euros, e transforma uma fábrica antes de alcance regional num ponto central do mapa industrial da empresa.
A mesa de condução está longe de ser apenas um painel sofisticado cheio de ecrãs. Trata-se do “cérebro” operacional do comboio, onde se encontram travagem, tração, sinalização, gestão de energia, climatização e sistemas digitais. Qualquer ação do maquinista percorre esse conjunto compacto de eletrónica, software e mecânica de elevada precisão.
As mesas de condução fabricadas em Fez vão equipar frotas da Alstom em vários continentes, de linhas de alta velocidade a redes de metro.
Ao concentrar num único polo mundial um componente tão estratégico, a mensagem é inequívoca. A Alstom está a atribuir ao sítio marroquino a responsabilidade por uma tecnologia diretamente ligada à segurança, à fiabilidade e aos padrões exigidos por clientes em diversos países - cada um com as suas próprias regras e homologações.
De fábrica de componentes a polo estratégico
Fez avança na cadeia de valor
A unidade de Fez não parte do zero. Desde 2020, já fabrica transformadores ferroviários Mitrac™, que ajustam a tensão entre as linhas aéreas e os sistemas a bordo. Esses equipamentos já alimentam dezenas de locomotivas Prima, centenas de elétricos Citadis em Rabat e Casablanca e os comboios de alta velocidade Avelia Euroduplex na ligação Tânger–Casablanca.
Com a nova linha de mesas de condução, a Alstom também vai duplicar a capacidade de transformadores e instalar um escritório local de engenharia. A nova equipa será responsável por desenvolver soluções à medida, adaptar produtos a normas regionais e apoiar a maturação de projetos para a região AMECA da Alstom (África, Médio Oriente, Ásia Central).
Fez deixa de ser um local de produção simples e passa a ser uma base técnica que reúne conceção, fabrico, testes e suporte.
Essa mudança tem peso para o perfil industrial de Marrocos. Em vez de se limitar a montar conjuntos importados, as equipas de Fez vão participar em atividades de especificação, integração de software e procedimentos de validação - tarefas que, muitas vezes, ficam restritas a centros europeus históricos.
Empregos, competências e presença de longo prazo
A Alstom estima que a expansão vai gerar mais de 200 empregos diretos em Fez, em áreas como:
- engenharia eletrónica e mecânica
- montagem de precisão e cablagem
- testes de qualidade e certificação
- suporte técnico e métodos industriais
No país, o grupo já conta com cerca de 1,400 colaboradores. Desde 2020, os investimentos acumulados aproximam-se de 200 milhões de dirhams, e Fez passa a ser tratada internamente como um sítio de importância estratégica comparável à de algumas unidades europeias que, durante muito tempo, concentraram atividades centrais da Alstom.
Segundo executivos, o modelo representa uma espécie de soberania industrial partilhada: a empresa mantém sob controlo componentes críticos, enquanto Marrocos ganha conhecimento, empregos de maior valor acrescentado e um papel mais relevante na cadeia global de fornecimento.
A viragem industrial mais ampla de Marrocos
Um íman para grandes grupos
A escolha da Alstom encaixa-se numa transformação mais ampla da economia marroquina. Na última década, o país consolidou-se como plataforma industrial entre a Europa e a África, apoiada por melhorias de infraestrutura, acordos comerciais e políticas industriais direcionadas.
Anúncios recentes reforçam a imagem de diversificação contínua:
- O grupo chinês BYD prepara uma gigafábrica de baterias na zona de Tanger Med, com mais de 12 mil milhões de dirhams previstos para abastecer a Europa com baterias para veículos elétricos.
- A STMicroelectronics está a ampliar a unidade de Bouskoura, perto de Casablanca, para produzir semicondutores de potência para carros elétricos e híbridos, com um orçamento estimado em 3 mil milhões de dirhams.
- A gigante dos fosfatos OCP está a investir mais de 130 mil milhões de dirhams em energia renovável, hidrogénio verde e fertilizantes de baixo carbono até 2027.
- O polo aeroespacial marroquino em Nouaceur acelera a produção de peças compósitas, componentes de motor e chicotes elétricos para grupos como Safran, Boeing e Collins Aerospace.
- O megaprojeto energético Xlinks–Aman pretende enviar eletricidade verde de Marrocos para o Reino Unido por um cabo submarino de 3,800 km, com custo total superior a 230 mil milhões de dirhams.
Nesse contexto, o equipamento ferroviário torna-se mais uma alavanca. A combinação de automóvel, aeroespacial, eletrónica, química e agora sistemas ferroviários cria sinergias entre setores: maquinagem de precisão, software embarcado, eletrónica de potência e capacidades de teste podem servir várias indústrias em paralelo.
Da linha de montagem à plataforma de inovação
Durante anos, muitos fabricantes globais usaram Marrocos sobretudo como base de montagem, tirando partido de custos de mão de obra mais baixos e da proximidade geográfica com a Europa. Esse desenho está a mudar. Projetos como o da Alstom em Fez passam a incorporar funções de engenharia, trabalho com protótipos e I&D conjunta com universidades e institutos técnicos locais.
O efeito pode ser significativo no funil de talentos. Jovens engenheiros marroquinos que antes se viam obrigados a sair para Paris, Montreal ou o Golfo passam a encontrar oportunidades mais robustas no próprio país, com carreiras internacionais a partir de Casablanca, Rabat ou Fez. Em paralelo, a exigência de clientes rigorosos empurra fornecedores locais a elevar padrões de qualidade e de certificação.
A estratégia global da Alstom e o novo papel de Fez
Carteira forte, presença diversificada
A expansão em Fez acontece num momento em que a Alstom surfa uma vaga de encomendas no mundo. Entre os contratos recentes estão comboios de metro para Chicago, carruagens RER NG para a região de Paris, novos elétricos para Melbourne, a extensão do metro automatizado de Riade e comboios regionais Coradia para os Países Baixos, além de contratos de locomotivas para os Caminhos de Ferro Ucranianos.
A carteira de encomendas supera 90 mil milhões de euros, impulsionada por governos que migram de estrada e avião para o comboio como parte de planos de descarbonização. Depois da aquisição da Bombardier Transportation, a Alstom passou a operar fábricas relevantes em quase todos os continentes, muitas vezes com especializações bem definidas.
| País | Cidade | Foco principal | Quadro estimado |
|---|---|---|---|
| França | La Rochelle | Comboios de alta velocidade, elétricos Citadis | ~1,200 |
| Alemanha | Kassel | Locomotivas elétricas e híbridas Traxx | ~1,000 |
| Índia | Sricity | Metros para o mercado interno e exportação | ~900 |
| Estados Unidos | Hornell (NY) | Comboios de alta velocidade, remodelações | ~900 |
| Marrocos | Fez | Transformadores Mitrac™, mesas de condução, engenharia | ~500 (growing) |
Dentro desta rede, Fez deverá tornar-se em breve a referência para mesas de condução, fornecendo equipamento a outras fábricas da Alstom que fazem a montagem final de comboios completos. Esse arranjo reduz redundâncias, concentra conhecimento e pode encurtar ciclos de desenvolvimento de novos modelos.
Por que centralizar um componente tão crítico em Marrocos?
À primeira vista, centralizar num único local um subsistema ligado à segurança pode parecer uma aposta arriscada. Para a Alstom, porém, a decisão combina eficiência de custos, lógica logística e disponibilidade de talento.
Marrocos apresenta custos estruturais inferiores aos da Europa Ocidental, mas o racional não se limita a salários. Os portos do país, em especial Tanger Med, facilitam exportações para a Europa, o Médio Oriente e as Américas. Ligações de fibra ótica e o fuso horário também tornam mais simples a coordenação com escritórios europeus de conceção. Além disso, escolas de engenharia locais formam profissionais habituados a ambientes multilingues, capazes de trabalhar com documentação em francês e inglês e de navegar normas internacionais.
Fez está num cruzamento em que geografia, competências e política industrial se alinham com a necessidade da Alstom por um polo fiável e escalável.
Para reduzir vulnerabilidades, o grupo pode manter o conhecimento crítico replicado noutras unidades e espelhar repositórios de software em várias regiões. Ainda assim, a produção física e os testes finais das mesas de condução vão passar por Fez, inserindo Marrocos de forma mais firme no coração do negócio da Alstom, e não apenas nas margens.
O que isso significa para a tecnologia ferroviária e os ecossistemas locais
Aproximar tecnologia de ponta de mercados emergentes
Ao concentrar componentes ferroviários avançados no Norte de África, a balança muda para mercados emergentes. Países da África Ocidental e Central, ou da região AMECA em sentido amplo, podem relacionar-se com um polo mais próximo, em vez de depender exclusivamente de fábricas europeias ou asiáticas. Essa proximidade tende a acelerar o suporte pós-venda e pode incentivar alguma padronização regional com o tempo.
A fábrica de Fez também terá de acompanhar tecnologias em rápida evolução: sinalização digital como ETCS Nível 2 e superiores, registo de dados, funções de manutenção preditiva e camadas de cibersegurança. As mesas de condução incorporam cada vez mais software, e cada cliente pede configurações específicas de layout, idiomas e ergonomia para os maquinistas.
Para se manterem alinhadas a essas mudanças, as equipas marroquinas vão precisar de capacitação contínua. Isso pode abrir espaço para centros de formação conjuntos, programas de certificação e laboratórios especializados em testes de vibração, calor, compatibilidade eletromagnética e segurança.
Riscos, oportunidades e efeitos em cadeia
A estratégia também envolve riscos claros. Uma dependência elevada de um único local para um subsistema central expõe a Alstom a tensões políticas, ruturas de fornecimento ou problemas de infraestrutura local. Para atenuar isso, o grupo provavelmente vai manter fornecedores alternativos para certos componentes e planos detalhados de continuidade para cenários de crise.
Para Marrocos, o principal desafio é não cair numa armadilha de rendimento médio, em que o país fornece mão de obra qualificada sem criar os seus próprios campeões. Um caminho possível é fomentar PMEs locais que forneçam peças, módulos de software ou serviços de teste à Alstom e, mais tarde, expandam para outros setores.
O caso de Fez também coloca uma questão mais ampla para decisores políticos na Europa, no Reino Unido e na América do Norte: como manter competitivas as indústrias ferroviárias e de mobilidade limpa num cenário em que a produção se dispersa para parceiros eficientes em custos como Marrocos. Alguns defenderão exigências de localização mais rigorosas em contratos públicos. Outros verão esses polos como parte de uma cadeia de fornecimento resiliente e diversificada, ainda dentro de um espaço político considerado amistoso.
Por ora, o que se constrói dentro da unidade de Fez não vai apenas influenciar a indústria marroquina. Também vai afetar como futuros maquinistas - de Chicago a Riade - interagem com as suas cabines, e como passageiros percebem a fiabilidade em linhas promovidas como a espinha dorsal do transporte de baixo carbono.
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