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Review do Amazon Kindle Scribe Colorsoft: caderno a cores muito caro

Pessoa usando caneta digital para fazer anotações coloridas em um tablet em mesa de madeira clara.

Levaram-se seis meses para o Kindle Scribe Colorsoft, da Amazon, cruzar o Atlântico. Apresentado nos Estados Unidos antes do Natal, o primeiro bloco de notas com tinta eletrónica a cores do gigante do comércio eletrónico chegou a França no início de junho. E dá para dizer sem rodeios: é caro - 650 euros na versão de 32 GB e 700 euros na de 64 GB.

O Kindle Scribe Colorsoft mira diretamente a reMarkable Paper Pro, que até aqui quase reinava sozinha no segmento de cadernos digitais premium a cores. Mais fino, mais leve e com IA a bordo: no papel (sem trocadilho), a promessa é tentadora.

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Fica a pergunta que incomoda a este nível de preço: ter cor na tinta eletrónica é mesmo um “a mais” relevante ou apenas um extra cobrado a peso de ouro? E, sobretudo, aquilo que a ficha técnica promete entrega mesmo quando o aparelho é ligado em França?

Ecrã grande e espessura mínima

A primeira boa impressão vem logo ao abrir a caixa: o aparelho tem presença, e a cor Figue do meu modelo de teste ajuda bastante - um roxo profundo e elegante, bem diferente do habitual cinzento antracite (chamado aqui de Graphite).

Os números querem impressionar - e conseguem: 5,4 mm de espessura, 400 g na balança e um ecrã de 11”, quando a geração anterior ficava nos 10,3. É confortável na mão e o minimalismo chama a atenção. Afinal, além do botão de ligar, de um indicador e da porta USB‑C, não há nada a sobrar.

A caneta vem incluída de origem, e isso conta pontos. Ao contrário de alguns rivais, não é preciso somar mais algumas dezenas de euros a uma conta já bem pesada.

A caneta é magnética e prende-se na lateral do tablet. Vêm também um cabo de carregamento e pontas de reposição. Só falta uma capa de proteção para ficar perfeito. Mas, no universo Amazon, esse acessório é opcional - e bem salgado (a partir de 120 euros se for da marca Kindle, 40 euros numa versão compatível).

Cor correta, sobretudo no modo Vívido

Para esta “lê-se e escreve-se” de luxo, a Amazon preparou um painel sob medida, baseado em óxido, que apresenta como uma tecnologia de alto contraste. As cores foram pensadas para serem suaves, de modo a não cansar em sessões longas de trabalho.

Na prática, as tonalidades são decentes, mas vale muito a pena ativar o modo Vívido, que dá mais força ao resultado. Claro que carreguei banda desenhada assim que pude: neste formato grande, ler uma prancha faz todo o sentido. Já não preciso de recorrer à lupa para ler as legendas e deixei de notar aquela grelha amarelada que estragava os primeiros e-readers a cores.

Por outro lado, é preciso aceitar uma limitação clara: a definição é de 150 ppi em cor, contra 300 ppi nos modelos a preto e branco. A própria Amazon avisa que o filtro de cor pode introduzir pequenas diferenças de textura ou luminosidade face à Scribe monocromática. O texto continua nítido; a cor, por sua vez, ajuda mais a organizar do que a “brilhar”. Ainda assim, 150 ppi são mais do que suficientes para aproveitar uma BD, ver gráficos num livro ou anotar PDFs.

Caneta excelente, ferramentas ainda aquém

Como utilizador da reMarkable Paper Pro, eu estava curioso para ver a abordagem da Amazon às notas a cores. No que realmente importa, o resultado é bom. A sensação ao escrever lembra bastante papel e lápis, muito por causa do vidro texturizado. A iluminação frontal é simplesmente excelente e a caneta é rápida o suficiente para não haver uma latência irritante quando se toma notas.

Dá mesmo para escrever ou desenhar em dez cores (cinco para marca-texto). O reconhecimento de escrita é impressionante: a minha letra (bem “rabiscada”) é interpretada sem dificuldade e convertida em texto limpo. Posso guardar o resultado no documento manuscrito e ainda ajustar a aparência (tipo de letra, tamanho e espaçamento entre linhas).

as ferramentas de escrita e desenho parecem-me simples demais face à concorrência. Para quem quer compor, sobrepor e estruturar um esboço, a reMarkable - com as suas camadas - continua um passo à frente. A falta mais sentida aqui é justamente a gestão de camadas. Utilizadores criativos mais exigentes podem ficar frustrados.

Em contrapartida, há um acerto claro com a função Active Canvas. Ao anotar um livro ou um ficheiro Word, o texto impresso afasta-se automaticamente para abrir espaço.

Um caderno “inteligente”, mas não em todo o lado.

A Amazon aposta na simplicidade e na IA para entregar um caderno esperto. “Resumir” condensa até 15 páginas de notas em pontos-chave e “Aprimorar a escrita” transforma até 10 páginas de rabiscos numa caligrafia bem apresentada. A pesquisa em linguagem natural consegue vasculhar os meus cadernos e extrair respostas, inclusive a partir de notas manuscritas.

Mais convencional, mas sempre útil, a integração com as nuvens do Google e da Microsoft facilita importar e editar documentos. Agora também posso ligar ao OneNote para exportar as minhas notas. Outra forma de enviar documentos para o aparelho é por e-mail, via Send to Kindle.

Até ao momento, todas as funções de IA estão disponíveis no nosso idioma, com uma exceção relevante: “send to Alexa”.

Essa função permitiria enviar os cadernos de notas para a IA da Amazon, que assumiria o processo para um tratamento mais avançado. Entre as possibilidades, está converter notas brutas em listas de tarefas, criar lembretes e gerar eventos diretamente no meu calendário.

Autonomia e ecossistema: o ponto forte (com um asterisco)

A autonomia continua a ser um dos grandes trunfos do leitor. Uma carga a 100% permitiu aguentar um pouco mais de três semanas em uso real. Ou seja: uso diário com notas, leitura de livros, PDFs e BD. Usei as funções de IA de forma menos constante, exceto o reconhecimento de escrita manuscrita, que acionei pelo menos quatro vezes por semana.

A Amazon promete até oito semanas em leitura pura e 2 semanas em escrita, e uma carga completa leva menos de 2 h 30 com um carregador USB‑C de 20 W. O resultado é mais do que aceitável, mas rapidamente se percebe que a cor tem um custo energético importante. A versão monocromática da mesma linha anuncia entre 12 e 16 semanas de autonomia em leitura, contra 8 para a Colorsoft.

Como era de esperar, a Amazon faz de tudo para destacar a compra de livros na sua loja. E funciona: fica muito fácil (até fácil demais?) comprar um livro por impulso (história real). Dá para descarregar amostras gratuitas, o que dá acesso às primeiras páginas de uma obra - como folhear na FNAC, só que sem sair de casa. Mesmo no estrangeiro, continua a ser possível comprar na loja francesa da Amazon, o que é uma vantagem relevante em viagem.

Audible no Kindle: o silêncio em França

A ficha técnica da Colorsoft menciona suporte a audiolivros Audible, também da Amazon. Em teoria, basta ir ao separador “Audible” na loja, comprar um título e ouvi-lo depois de emparelhar uma coluna ou auscultadores Bluetooth. Simples, certo?

Sim - e não. Na prática, nenhum Kindle mostra o separador Audible em França, o que torna impossível ouvir audiolivros Audible por ali. Não é uma limitação de hardware: o Bluetooth está ativo e funciona sem problemas para apoio à leitura. O que existe, ao que tudo indica, é um bloqueio por software.

Por quê? Perguntámos à Amazon França e não obtivemos resposta. Restam hipóteses. A mais direta (e banal): a Amazon ativou o Audible nos Kindles nos Estados Unidos e nunca se deu ao trabalho de desbloquear a função nos firmwares franceses. Não seria estratégia; seria pura inércia. Isso explicaria por que nenhum Kindle - e não apenas a Scribe - alguma vez recebeu esse separador por aqui. Mas admitamos que haja intenção.

Primeiro, entra em cena a forte regulação do mercado do livro em França. As regras de preço único do e-book e as taxas específicas de IVA complicam a integração de bundles (pacotes texto + áudio) que a Amazon oferece noutros mercados e tornam a venda direta a partir do tablet mais complexa. Ainda assim, o argumento tem limites: o Audible funciona perfeitamente em França via aplicação. Ou seja, a regulação atrapalha sobretudo a venda em pacotes, não a presença de um simples separador.

Depois, há escolhas estratégicas discutíveis. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, os ecossistemas Kindle e Audible estão totalmente integrados. Em França, a Amazon optou por manter o Audible como uma plataforma e uma aplicação bem separadas do catálogo Kindle tradicional. Por quê? Mistério.

Por fim, talvez a Amazon França insista na ideia de que a famosa “exceção cultural francesa” exige que o Audible continue a ser consumido no smartphone. Um tablet a mostrar um livro não deveria “descer” ao papel de leitor de áudio, função reservada ao telemóvel.

A minha opinião sobre o Kindle Scribe Colorsoft

O Kindle Scribe Colorsoft é um excelente e-reader com funções de caderno ao qual a Amazon acrescentou uma camada de cor. É elegante, tem uma iluminação frontal irrepreensível e uma das canetas mais agradáveis do mercado. Passa de três semanas de autonomia em uso misto e apoia-se num ecossistema maduro. A cor - boa e mais vistosa no modo Vívido - brilha em banda desenhada e em anotações. Alguns vão criticar a definição de apenas 150 ppi; não é o meu caso, porque a leitura continua a ser excelente, mesmo a cores.

Ficam, porém, duas ressalvas de peso. As ferramentas de escrita e desenho, um pouco básicas, deixam a reMarkable e as suas camadas na frente para usos criativos mais exigentes. E o preço altíssimo do Scribe Colorsoft (a partir de 650 euros, ainda por cima) representa mais 130 euros do que a versão monocromática, que entrega a mesma caneta, mais autonomia e um texto igualmente nítido.

A pergunta central, portanto, não é “ele é bom?” - porque é. A questão é “você precisa mesmo de cor e aceita abrir mão das funções que ainda não existem em França?”. Se sim, este é hoje o melhor Kindle caderno a cores da Amazon. Se não, poupe os 130 euros.

Kindle Colorsoft ao melhor preço
Preço de base: 299 €

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Amazon Kindle Colorsoft Scribe

a partir de 650 €

Nota global: 8.1

Critério Nota
Ecrã e reprodução de cor 8.0/10
Escrita e caneta 8.5/10
Interface e IA 8.0/10
Autonomia 8.5/10
Relação qualidade/preço 7.5/10

Gostamos

  • Design bem conseguido
  • Qualidade do ecrã
  • Caneta reativa
  • Boa autonomia

Gostamos menos

  • Ferramentas de escrita com margem para evoluir
  • Ainda sem Audible
  • Preço muito elevado

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