O Governo está prestes a mexer na legislação que ampara o ensino de português no exterior e, sem surpresa, a intenção parece ser deixar ainda mais frágil o estatuto de quem vive na diáspora - pessoas que exercem um papel de valor incalculável para a cultura e para as economias nacionais.
Portugal segue presente em muitos países por meio de organismos representativos, com atribuições bastante diferentes entre si. Entre elas, talvez a mais sensível seja a que oferece a estrangeiros a possibilidade de aprender nossa língua e se aproximar de nossa cultura. Ao longo da vida, conheci muita gente que se encanta por aquilo que somos - às vezes por ouvir Amália, às vezes por desejar ler, no original, a poesia de Pessoa. Existem fadistas croatas, fadistas japoneses; no Canadá, encontrei um turco que recitava os nomes dos nossos rios, exatamente como éramos obrigados a decorar na escola primária.
Na Eslováquia, há um pequeno núcleo de professores e tradutores que levam o português à língua local. E, por coincidência, são pessoas bem-humoradas, que vêm a Portugal para comprar mais livros, assistir a um show da Carminho e comer pastéis de Belém. Quando passam a conversar entre si em eslovaco, a sensação é de que se afastam para planetas nunca vistos. Mas, se de repente mudam para o português, parece que um código milagroso é decifrado: o marciano vira vizinho, alguém que podemos receber - e a quem também podemos pertencer.
Língua, cultura e o milagre da tradução
Cruzar línguas e culturas é um modo profundo de nos tornarmos mais humanos. Traduzir é, de fato, o milagre da aproximação. Tradutores deveriam todos ser banhados a ouro e viver felizes.
Ensino de português no exterior e a diáspora
O Governo está prestes a rever a legislação que sustenta o ensino de português no exterior e, como já virou rotina, quer tornar ainda mais vulnerável o estatuto de quem vive na diáspora, apesar do papel inestimável que essas pessoas desempenham para a cultura e para as economias nacionais. Quase todos os anos, em alguma viagem que consigo fazer por sorte, encontro pelo menos um leitor do Instituto Camões. E nunca conheci ninguém que não tivesse a vida pessoal revirada para dar conta de um trabalho solitário, esmagado pela saudade.
Para que Portugal se torne mais maduro no mundo, é indispensável fortalecer esses profissionais e as instituições equivalentes. Um país não se constrói apenas com suas fronteiras: constrói-se com sua cultura. As fronteiras - por mais necessárias que sejam - talvez consigam guardar apenas galinhas ou sobreiros. A cultura, ao contrário, protege e liberta. É pela cultura que, mesmo do outro lado do mundo, e mesmo que nos levem para Marte, continuaremos a ser portugueses - e Portugal continuará a existir.
Não quero aceitar a ideia de que se ponham em risco os profissionais da língua e da cultura que temos um pouco por toda parte. Seria como apagar o país um pouco por toda parte. Seria triste. Um suicídio.
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