A correção dos exames nacionais do ensino médio tem esbarrado em provas digitais que chegam incompletas, vazias, ilegíveis e até com grafias distintas na mesma avaliação. E, no sábado, ainda havia docentes sem acesso aos exames na plataforma do Ministério da Educação. Diante desse "caos", os classificadores apostam que haverá uma "avalancha" de pedidos de reapreciação e defendem que a segunda fase seja empurrada para setembro - inclusive porque as provas de 24 de julho coincidem com feriados municipais. O nó mais difícil será conciliar com as férias.
A conversão para o formato digital das 307.270 provas feitas em papel foi concentrada em Lisboa. No entanto, no ano passado a tarefa ficou com os agrupamentos de exames e, neste ano - com esses agrupamentos reduzidos à metade - a disciplina escolhida para testar o sistema foi Filosofia, e as equipes relataram inúmeros obstáculos. "Não é só digitalizar as folhas. É preciso confirmar que estão legíveis, verificar que não falta nada, antes de as carregar na plataforma", explica um professor de um dos agrupamentos extintos.
Favorável a realizar os exames da segunda fase em setembro, desde que os classificadores consigam tirar férias e que o calendário de acesso ao Ensino Superior seja adiado, ele também chama a atenção para o fato de 24 de julho ser feriado em Condeixa-a-Nova e Pedrógão Grande. "Não podem mandar os alunos fazer as provas no concelho ao lado. Como é que vão resolver esse problema?", questiona. "Andar a dizer que os alunos não serão prejudicados é conversa fiada. Isto pode originar uma calamidade se o aluno tiver uma péssima nota e não entrar no Ensino Superior", avisa.
"Em agosto, um aluno pediu-me para o ajudar a fazer o pedido de reapreciação, pois tinha tido 17 valores a Matemática e achava que merecia mais. Passou para mais de 19 e entrou em Medicina por causa disso", assegura um professor do distrito de Santarém, que só teve acesso aos 149 itens de Matemática A três dias depois do prazo. Se o "cansaço" dos classificadores já gerava erros, ele afirma que, em 2026, a situação tende a piorar. "Vai haver uma chuva de pedidos de reapreciação e, supondo que o calendário se mantém, muitos desses pedidos e as classificações dos exames da segunda fase devem cair em agosto, quando estamos de férias", alerta. "Vão ter de adiar o prazo para setembro, porque o problema vai muito além de um agrafo mal posto. Este processo deixou de inspirar confiança."
"Não somos máquinas"
Uma outra professora, do distrito de Braga, que corrige dois itens dos exames de Português e só conseguiu acessá-los seis dias depois, diz que o procedimento "não haver o mínimo de fiabilidade". "Como é possível o ministro da Educação não ter a humildade de dizer: alto e para o baile, vamos lá ver o que está a passar", observa. "A segunda fase tem de passar para setembro, e mandem-nos as provas em papel para despacharmos a primeira", sugere. "Adiar apenas dois dias úteis não resolve nada. Sinto-me exausta e mereço descansar ao fim de semana", argumenta. Professora do ensino profissional, terminou as aulas em 22 de junho e, três dias depois, já estava na vigilância do exame de Matemática e aplicando testes de recuperação aos alunos.
"Recebi 35 provas para classificar, cujos itens são um comentário sem limite de palavras, e uma composição até 350 palavras. Só que as composições não estavam lá", garante a professora. "Corrigi os comentários no dia seguinte, e ontem [na sexta-feira] recebi mais provas, num total de 130, e não tenho registadas as 35 já corrigidas, mas 40. Não me posso responsabilizar por provas que não classifiquei", sublinha. Ela também relata outros casos, como um mesmo texto duplicado com dois códigos diferentes. "Isto vai ser dramático, porque quase todos vamos iniciar as férias a 3 de agosto, e não somos máquinas."
Calendário
17 de julho
Os professores têm até 14 de julho para classificar as provas da 1.ª fase. Os resultados são publicados em 17 de julho.
20 de julho
A 2.ª fase dos exames nacionais, que deveria começar em 16 de julho, passa a iniciar em 20, exatamente no dia em que começam as candidaturas ao concurso de acesso ao Ensino Superior.
7 de agosto
Os resultados das provas da 2.ª fase serão divulgados em 7 de agosto, data em que também saem os resultados do processo de reapreciação da 1.ª fase. A 1.ª fase de acesso ao Superior termina no dia 6.
28 de agosto
As decisões dos pedidos de reapreciação dos exames da 2.ª fase serão conhecidas em 28 de agosto.
Docentes do Ensino Básico a corrigir exames do 12.º ano
"Foram chamados professores do Ensino Básico para classificar exames, há um mês, que entraram em pânico, porque nunca deram Matemática A", denuncia uma professora do distrito de Leiria. "Com esta confusão toda, estão a ser chamados também todos os professores do Secundário, entre os quais contratados que estão na escola há 15 dias, sem experiência, conhecimentos e competência para fazer corretamente o trabalho", acrescenta.
A professora de Matemática A diz ainda ter conversado com uma colega classificadora que recebeu novos exames misturados com avaliações que ela já havia corrigido. "Um dia, chegou à plataforma, os itens tinham desaparecido e tinha aparecido outro leque. E no meio daqueles estavam provas que corrigiu e outras que não tinha corrigido já classificadas", relata.
Digitalizadores parados
Ela também questiona quanto custou todo o processo: a digitalização em si, a polícia transportando as provas de um lado para outro e se esse investimento ficará restrito à rede pública. O professor que participou de um dos agrupamentos de exames por três anos afirma ao JN que, no ano letivo anterior, foram comprados "digitalizadores especiais, cada um com um preço aproximado de três mil euros, para todos os agrupamentos".
Na escola dele, os dois equipamentos adquiridos permanecem sem uso desde então.
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