Pela primeira vez, cientistas sequenciaram o DNA de todo o genoma de uma pessoa que viveu no antigo Egito há até 4.800 anos – exatamente na época em que as primeiras pirâmides estavam sendo erguidas.
O genoma antigo pertence a um homem mais velho que provavelmente fazia parte de uma classe social de elite e que, de acordo com sua ancestralidade, possivelmente tinha cabelo castanho, olhos castanhos e pele escura.
Cerca de 80 por cento do genoma desse homem está associado a linhagens do norte da África, enquanto os 20 por cento restantes se relacionam a linhagens da Ásia Ocidental.
Os resultados indicam que os primeiros egípcios viviam em um verdadeiro caldeirão cultural, com migrantes e comerciantes chegando de outras regiões da África e da Mesopotâmia – uma área antiga que hoje abrange partes do Iraque, da Turquia e do Irã.
Evidências arqueológicas anteriores já apontavam conexões comerciais e culturais entre o Egito e outras áreas do Crescente Fértil, principalmente por meio da troca de plantas e animais domesticados, sistemas de escrita e tecnologias como a roda de oleiro.
Mas o DNA humano real não se preserva com facilidade em uma região tão quente e seca. Esta nova descoberta representa o DNA mais antigo já recuperado do antigo Egito, e os cientistas afirmam que os restos oferecem "evidência direta de ancestralidade genética" vinda da Mesopotâmia.
"Os registros escritos e arqueológicos do antigo Egito são extraordinários, mas as dificuldades de preservação do DNA fizeram com que não houvesse até agora nenhum registro genômico de ancestralidade no Egito antigo para comparação", diz o geneticista Pontus Skoglund, fundador do primeiro laboratório de DNA antigo de alto rendimento do Reino Unido, no Instituto Francis Crick.
"Com base nessas pesquisas anteriores, novas e poderosas técnicas genéticas nos permitiram superar essas barreiras técnicas e descartar DNA contaminante, fornecendo a primeira evidência genética de possíveis movimentos de pessoas no Egito nesse período."
Os restos desse homem antigo foram encontrados em uma necrópole na antiga cidade de Nuwayrat, 265 quilômetros ao sul do Cairo, onde ele havia sido enterrado em um grande vaso de cerâmica dentro de uma tumba escavada na rocha. Ele morreu em algum momento entre 2855 e 2570 a.C.
Em vida, o indivíduo media cerca de 160 centímetros de altura e, a julgar pelo forte desgaste dos dentes e pela artrite severa, provavelmente tinha entre 44 e 64 anos – uma idade avançada para a época.
O tipo de sepultamento sugere que ele ocupava uma posição social elevada, mas, de forma inesperada, seu corpo apresenta sinais de trabalho físico rotineiro.
"Seus ísquios são alargados, os braços mostram evidências de movimento repetitivo para frente e para trás, e há artrite considerável apenas no pé direito. Embora sejam indícios circunstanciais, essas pistas apontam para a atividade com cerâmica, incluindo o uso de uma roda de oleiro", sugere o bioarqueólogo Joel Irish, da Liverpool John Moores University.
"Dito isso, um enterro de classe alta não é o esperado para um oleiro, que normalmente não receberia esse tipo de tratamento. Talvez ele fosse excepcionalmente habilidoso ou bem-sucedido a ponto de ascender socialmente."
Ao analisar a composição isotópica do segundo molar do homem antigo, os cientistas encontraram evidências de que ele cresceu no quente e seco vale do Nilo, alimentando-se de proteína animal e de plantas como trigo e cevada. Esse padrão era típico dos primeiros egípcios.
"Este indivíduo passou por uma jornada extraordinária. Viveu e morreu durante um período crítico de transformação no antigo Egito, e seu esqueleto foi escavado em 1902 e doado ao World Museum Liverpool, onde depois sobreviveu aos bombardeios da Blitz que destruíram a maior parte dos restos humanos da coleção", diz o arqueogeneticista Linus Girdland Flink, da University of Aberdeen.
"Agora conseguimos contar parte da história desse indivíduo."
A história de uma única pessoa não pode revelar tudo o que gostaríamos de saber sobre o antigo Egito, mas os achados representam um começo bastante instigante.
Os pesquisadores esperam que sua técnica permita, no futuro, uma "compreensão mais detalhada e sutil da civilização egípcia antiga e de seus habitantes".
O estudo foi publicado na Nature.
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