Ver uma preguiça em plena floresta densa é, por si só, um exercício de paciência: ela se desloca tão devagar que quase parece imóvel. Essa mesma característica, que a torna tão querida, também a mantém difícil de investigar - escondida no alto das árvores e com movimentos mínimos.
Para contornar esse desafio, cientistas encontraram um novo lugar para buscar respostas: o próprio genoma do bicho-preguiça. O que apareceu ali ajuda a entender por que ele tem o metabolismo mais lento entre todos os mamíferos.
As preguiças revelam um segredo genético
Pela primeira vez, um grupo liderado pelo Wellcome Sanger Institute, pelo Leibniz Institute for Zoo and Wildlife Research (IZW), em Berlim, e pelo Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, sequenciou o genoma de uma preguiça-de-dois-dedos.
A leitura desses dados apontou para um conjunto de genes que pode estar no centro da biologia fora do comum do animal.
“Evolution has already run billions of experiments. By studying unusual animals like sloths, we sometimes uncover biological solutions that humans never evolved”, disse a Dra. Marcela Uliano-Silva, coautora líder no Wellcome Sanger Institute.
Dois genomas de alta qualidade
Além da preguiça-de-dois-dedos, os pesquisadores também montaram genomas em nível de cromossomo para outro animal: o tamanduá-mirim.
Os dois fazem parte de Xenarthra, um grupo antigo de mamíferos placentários que surgiu pela primeira vez na América do Sul.
E não se tratou de um rascunho genético. As montagens foram detalhadas e de alta qualidade - um ponto crucial, porque permitiu acessar trechos do genoma que sequências mais antigas, incompletas e fragmentadas simplesmente não conseguiam mostrar.
Cópias de genes que continuam se multiplicando
Os genomas contêm segmentos de DNA capazes de se copiar e mudar de posição, muitas vezes chamados de genes saltadores.
A engrenagem molecular por trás desses genes saltadores também pode “capturar” um gene funcional, copiá-lo e colar essa cópia em outro local do genoma.
Essas cópias coladas recebem o nome de retrocópias. Na maioria das vezes, começam como excesso genético sem utilidade, mas algumas são preservadas, passam a ser ativadas e, com o tempo, ganham funções reais.
Quando a equipe comparou a quantidade de retrocópias em várias espécies, a preguiça se destacou imediatamente. A preguiça-de-dois-dedos apresentava 15,898 retrocópias - o maior número já relatado até agora para qualquer mamífero, ou mesmo para qualquer animal.
Outras preguiças, o tamanduá e um tatu também ficaram entre os mais altos do ranking. Em contraste, a maior parte dos mamíferos costuma ter algo entre 2,000 e 8,000.
As preguiças mantêm suas cópias “jovens”
A quantidade, porém, não era toda a história. No tamanduá e no tatu, a maioria dessas cópias era antiga e já degradada pelo tempo - sobras de picos de atividade ocorridos há muito.
Com as preguiças, o cenário foi diferente. Um grande conjunto compartilhado remonta ao ancestral comum de todas as preguiças, de cerca de 30 milhões de anos atrás, e muitas cópias ainda parecem recentes, sugerindo atividade mais nova ou até em andamento.
Muitas cópias apontam para o metabolismo
O padrão mais marcante apareceu quando os cientistas olharam para quais genes deram origem a essas cópias.
Nas três espécies de preguiça analisadas, as retrocópias vieram, de forma desproporcional, de genes relacionados às mitocôndrias - as estruturas minúsculas dentro das células responsáveis por produzir energia.
Uliano-Silva destacou que esses genes específicos das preguiças se conectam a mitocôndrias e a vias metabólicas, e podem estar ligados à evolução do metabolismo extremamente lento do animal.
Somente na preguiça-de-dois-dedos, 38 dessas cópias exibiram sinais fortes de terem sido mantidas por algum motivo funcional.
Uma possível rede de segurança para as mitocôndrias
As preguiças têm o metabolismo mais baixo de qualquer mamífero, muitas vezes ficando abaixo da metade do que seria esperado para o tamanho do corpo.
A taxa metabólica basal fica de 69 a 79 por cento abaixo do previsto, e elas permitem que a temperatura corporal oscile conforme o ar ao redor.
É aqui que entra a hipótese de uma “rede de segurança” genética. O grupo propõe que algumas dessas cópias preservadas possam atuar como amortecedores, ajudando células frágeis e com economia de energia a manter a química essencial funcionando.
“Sloths have the slowest metabolism of any mammal, yet they remain healthy. Understanding how they achieve this may reveal new insights into how cells manage energy efficiently”, disse a Dra. Camila Mazzoni, coautora líder e chefe de genômica evolutiva e de conservação no IZW.
“Our findings suggest that sloths might have evolved genetic ‘backup systems’ that help compensate for their ‘relaxed mitochondria’ and support their unique lifestyle.”
Por que isso importa para humanos
A relação entre energia e saúde é profunda e vai muito além das preguiças. Defeitos nas mitocôndrias estão por trás de uma longa lista de condições humanas - e isso ajuda a explicar por que um animal tão lento, mas saudável, merece ser estudado de perto.
“Many human conditions – including diabetes, aging-related disorders, neurodegeneration, and muscle wasting – involve problems with energy production and mitochondrial function”, disse o Dr. Pedro Galante, coautor líder no Hospital Sírio Libanês.
“While further research is needed, sloth cell lines may offer a natural model for understanding how organisms cope with low-energy states, and what goes wrong in disease.
“In the long term, this could inform research into tissue preservation, critical care medicine, aging, metabolic disease, and even long-duration space travel.”
Os próximos passos
Por enquanto, a ideia da rede de segurança segue como hipótese e ainda precisa ser testada com rigor no laboratório.
O plano dos pesquisadores é investigar esses genes em linhagens celulares de preguiça, observando como se comportam e o que, de fato, fazem dentro de uma célula viva.
Há também um ganho mais amplo nesse trabalho: ao “voltar no tempo” por meio do genoma, a equipe mostrou como o mesmo DNA inquieto que pode causar danos em pessoas talvez tenha contribuído para moldar um modo de vida famoso por sua delicadeza.
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