Numa manhã cinzenta às margens do Lago de Lucerna, o autocarro mergulha em mais um túnel. Num instante, há água, claridade e montanhas tão recortadas que parecem retocadas no computador. No seguinte, surgem paredes de betão, lâmpadas amareladas e o ronco baixo e contínuo do motor, abafado pela rocha. Alguns turistas levantam os telemóveis, frustrados. Vieram atrás das paisagens de cartão-postal da Suíça - não da sua obsessão subterrânea.
Poucos minutos depois, volta o dia. Outro vale, outra aldeia impecável, e mais à frente um novo “portal” escavado na montanha, como uma boca escancarada. O condutor mal reage. Para ele - e para a maioria dos suíços - é apenas uma terça-feira.
O país que se vende como paisagem pura está, discretamente, a enterrar essa paisagem sob asfalto e carris.
Há algo aqui que não encaixa.
A Suíça está a perfurar o próprio mito
Visto de fora, a Suíça parece um santuário natural com comboios a atravessá-lo. Por dentro, o quadro é um pouco mais sombrio. O ambiente político gira em torno de “capacidade”, “gargalos” e “resiliência”. E a resposta - quase por impulso - é sempre a mesma: mais um túnel.
Túnel rodoviário, túnel ferroviário, túnel de base sob os Alpes, uma segunda galeria ao lado de uma galeria antiga. Cada obra é apresentada como avanço, como se o prestígio nacional dependesse da velocidade com que se atravessa o granito.
Isso aparece na conversa do dia a dia. Engarrafamento no Gotardo? “Precisamos de mais faixas.” Atraso de comboio no Ticino? “Precisamos de outro tubo.” A infraestrutura virou uma espécie de reflexo nacional - e uma dependência silenciosa.
Basta olhar para o corredor do Gotardo, a coluna simbólica do país. Primeiro veio o túnel rodoviário histórico, inaugurado em 1980. Depois, o Túnel de Base do Gotardo, o mais longo túnel ferroviário do mundo, aberto em 2016 com fogos de artifício e discursos sobre uma “nova era”. Agora entra em cena o segundo túnel rodoviário do Gotardo, aprovado em referendo, apesar de a Constituição comprometer oficialmente a Suíça com a transferência do tráfego da estrada para o comboio.
Essa nova galeria rodoviária é vendida como melhoria de segurança, não como aumento de capacidade. No papel, o número de faixas permanecerá igual. Na prática, todos sabem o que dois tubos significam alguns anos depois: pressão política para abrir todas as faixas, mais camiões, mais carros, mais tráfego alpino.
O mesmo guião repete-se noutras regiões. O Lötschberg “precisa” de um túnel duplo completo. Zimmerberg. Ceneri. Novas variantes a contornar cidades que tinham sido prometidas tranquilas quando a última variante foi construída. A Suíça está sempre um túnel atrás das próprias promessas.
O que parece planeamento racional começa a parecer compulsão. Cada proposta chega com imagens reluzentes, argumentos de segurança e modelos económicos que se estendem até 2075. Quem se opõe é pintado como nostálgico ou ingénuo. No entanto, cada mil milhões gastos no subsolo são mil milhões que deixam de ir para soluções mais simples e baratas: autocarros regionais melhores, ciclovias protegidas, atravessamentos mais seguros nas aldeias, comboios noturnos em vez de voos de curta distância.
Há ainda uma torção psicológica estranha. Quando um mega-túnel finalmente abre, o debate não sossega - apenas redefine o padrão. De repente, uma viagem de comboio de três horas passa a ser “insuportável”. Um engarrafamento de verão, totalmente previsível, é tratado como emergência nacional.
Quando o progresso é medido apenas em minutos poupados e metros perfurados, o “suficiente” nunca chega.
Quando o progresso vira um hábito de betão
Ao conversar com engenheiros suíços, raramente se ouve jactância. Eles justificam. Esta encosta é instável. Aquele passo é perigoso no inverno. Para eles, o túnel é uma solução prática. A coisa complica no lado político, onde cada ciclo eleitoral traz uma nova promessa: o seu deslocamento, a sua carga, a sua viagem de férias vai fluir melhor - se você aceitar a próxima obra.
Uma forma silenciosa de repensar isso é brutalmente simples. Para cada novo túnel, perguntar: que problema estamos mesmo a resolver, e furar a montanha é a única saída? Isso implica contabilizar ruído, poeira, trânsito de obras e a década de perturbação que os moradores atravessam. Não apenas o dia fotogénico do corte da fita no fim.
Às vezes, o gesto mais radical num país alpino é dizer: “Aqui, convivemos com a lentidão” - e falar sério.
Quem vive na Suíça central conhece esse ciclo de cor. Promete-se alívio a uma aldeia castigada por camiões a tremerem pela rua principal. Aí chega um túnel de desvio, celebrado como libertação. Alguns anos depois, o desenvolvimento espalha-se ao longo da nova ligação, brotam centros logísticos, o tráfego cresce outra vez e a sensação de paz evapora.
O desgaste emocional aparece em detalhes. Crianças continuam a desviar de veículos pesados em estradas secundárias porque a “grande solução” não resolveu atravessamentos básicos. Idosos reclamam de autocarros raros ou com horários mal encaixados. O foco em projetos brilhantes e gigantescos facilmente apaga esses problemas menores e teimosos - justamente os que moldam a vida cotidiana.
Todo mundo já passou por isso: o instante em que se percebe que o plano grandioso não consertou a coisa simples com a qual você lida todos os dias.
Megaprojetos também têm um poder de sedução política. Ficam bem nas fotos. Têm nome, placa, cerimónia. Permitem que ministros usem capacete e falem do futuro. Já um investimento modesto para aumentar a frequência de autocarros no interior não vira manchete. Tapar buracos ou construir uma ciclovia protegida raramente vira “legado”.
Esse desequilíbrio alimenta uma espécie de bolha de túneis. Quando grandes empreiteiras, regiões e sindicatos se alinham por trás de um projeto, a pressão para aprovar torna-se enorme. Quem discorda é alertado sobre “perder empregos”, “ficar para trás na Europa” ou “colocar a segurança em risco”.
Sejamos francos: quase ninguém lê os relatórios de impacto de ponta a ponta antes de votar. Vota-se numa narrativa. E essa narrativa quase sempre é a mesma: mais túneis = progresso.
Como ver a linha entre visão e vaidade
Para quem vive na Suíça - ou para quem a ama - a pergunta não é “túneis são bons ou maus”. A pergunta é: quais túneis, e com que custo para todo o resto. Há um hábito simples que ajuda a cortar o marketing. Quando propuserem um novo mega-túnel, afaste-se das renderizações e faça três perguntas diretas:
Quem ganha tempo? Quem paga a conta? Quem perde paisagem ou sossego?
Esse pequeno checklist não exige especialização nem planilhas. Ele só desloca o foco da máquina para as pessoas ao redor. Um projeto que beneficia sobretudo o tráfego de passagem entre Alemanha e Itália, enquanto os moradores ficam com o ruído e a dívida, começa a parecer menos “progresso nacional” e mais auto-sacrifício estrutural.
Um erro frequente é retratar qualquer dúvida como anti-tecnologia ou anti-modernidade. A maioria dos críticos não é nada disso. Andam de comboio. Usam as estradas. Apenas percebem quando a escala escorrega para a vaidade. Um túnel de emergência extra num passo perigoso pode fazer todo o sentido. Um quarto túnel de base alpino para cortar oito minutos de uma rota corporativa já soa como símbolo de status.
Há também cansaço. Quando os eleitores são chamados, repetidas vezes, a “aprovar só esta última peça do quebra-cabeça”, a confiança se desgasta. As pessoas lembram as promessas do “conserto definitivo” anterior: menos tráfego, mais segurança, vales mais silenciosos. Quando a realidade não acompanha, cresce o cinismo - não apenas com as obras, mas com a política.
Num banco do lado de fora da estação de Erstfeld, onde o Túnel de Base do Gotardo perfura os Alpes, um ferroviário aposentado resumiu tudo numa frase: “Antes, a gente construía túneis porque não tinha escolha. Agora, a gente constrói porque esqueceu que tem escolhas.”
- Olhe primeiro para as alternativas pequenas
Antes de celebrar um túnel de mil milhões de francos, pergunte o que ajustes pontuais - faixas de autocarro, atravessamentos mais seguros, limites de velocidade dinâmicos - poderiam fazer pelo mesmo corredor. - Observe a linguagem das campanhas
Quando todo projeto é vendido como “histórico”, “inevitável” ou “a última ligação que faltava”, isso é um sinal de alerta. Soluções reais suportam nuance e dúvida. - Acompanhe quem lucra no longo prazo
Consórcios de construção, lobbies de carga e corredores de trânsito falam alto. Moradores, caminhantes e hoteleiros do lado silencioso de uma montanha falam baixo. Procure as vozes baixas. - Pergunte quanto custará a manutenção
Túneis envelhecem. Ventilação, iluminação e sistemas de segurança exigem cuidado permanente. A conta não acaba no dia da inauguração - ela só muda de departamento. - Lembre-se de que a lentidão tem valor
Um país sustentado por turismo, paisagens e uma reputação de calma não consegue trocar indefinidamente tempo poupado por beleza perdida e ainda vender o mesmo sonho.
A pergunta real por trás do betão
A febre de túneis na Suíça expõe algo mais profundo do que orgulho de engenharia. Ela revela um país rico e cauteloso que, no fundo, tem medo de ficar parado. Cada curva numa estrada de montanha parece um risco. Cada nevasca, um fracasso. Cada engarrafamento, uma afronta pessoal.
Só que o mundo está a mudar. Suíços mais jovens são menos obcecados por ter carro e mais interessados em clima, silêncio e lugares selvagens que pareçam intocados. Turistas não compram passagem para voar e ficar dentro de um tubo com LED; eles vêm pelo choque do sol na neve fresca e pela visão de um comboio a contornar, de verdade, uma encosta.
Se o país continuar a dobrar a aposta em mega-corredores enterrados, pode acabar com estatísticas de transporte impecáveis e uma sensação de lugar esvaziada. Progresso contado apenas em quilómetros de túnel ignora perguntas vitais: como é viver aqui? Que histórias queremos que as pessoas contem depois de atravessar estas montanhas?
Da próxima vez que aparecer um folheto brilhante de um novo projeto, talvez valha a pena pausar antes do voto - só o tempo suficiente para imaginar uma viagem comum daqui a dez anos. Não o passeio inaugural para VIPs. Uma terça-feira normal. Um autocarro, uma criança com mochila, um trabalhador a olhar pela janela.
Eles estão no escuro ou na luz? E ainda reconhecem o país a passar depressa - ou ele desapareceu, silenciosamente, atrás das paredes?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O boom de túneis na Suíça virou um reflexo | Projetos como o segundo túnel rodoviário do Gotardo são apresentados como segurança e progresso, mesmo quando podem puxar mais tráfego para paisagens frágeis | Ajuda a perceber a diferença entre infraestrutura necessária e um hábito político de passar do ponto |
| Megaprojetos podem ofuscar necessidades do dia a dia | Mil milhões vão para o subsolo enquanto autocarros locais, ciclovias e melhorias de segurança em aldeias ficam sem recursos ou atrasam | Convida a repensar como é, na prática, a infraestrutura de “qualidade de vida” |
| Perguntas simples furam o marketing | Perguntar quem ganha tempo, quem paga e quem perde sossego esclarece se um novo túnel é visão ou vaidade | Oferece uma lente prática para debates futuros sobre grandes obras, na Suíça e noutros lugares |
Perguntas frequentes (FAQ)
- A rede de túneis da Suíça não é essencial para a segurança?
Alguns túneis, sem dúvida, salvam vidas ao evitar zonas de avalanche e passos perigosos. A preocupação não é com melhorias de segurança em si, mas com o uso de “segurança” como argumento universal para justificar aumentos de capacidade e projetos cada vez maiores.- Os túneis não reduzem o impacto ambiental ao concentrar o tráfego?
Eles podem diminuir ruído e impacto visual localmente, mas novas galerias grandes também atraem mais tráfego com o tempo. Esse efeito de retorno pode elevar as emissões totais e o volume de carga nos Alpes, deslocando o problema em vez de resolvê-lo.- Esses projetos não são, pelo menos, bons para a economia suíça?
Empregos na construção e exportações de engenharia beneficiam, sim. O risco surge quando custos de manutenção de longo prazo e perdas ambientais superam os ganhos, ou quando dívida e atenção política empurram para fora soluções de mobilidade menores e mais inteligentes.- A Suíça poderia simplesmente parar de construir túneis novos?
Provavelmente não. Infraestrutura envelhecida, riscos climáticos e gargalos reais ainda exigem atenção. O ponto é recuperar a capacidade de dizer “não” ou “não assim”, em vez de tratar toda nova ideia de perfuração como inevitável.- O que cidadãos podem fazer, realisticamente, contra a inércia dos megaprojetos?
Podem ir além dos slogans de campanha, apoiar grupos que defendem alternativas, cobrar de políticos locais soluções de menor escala e votar com uma noção mais clara das trocas envolvidas. Expectativas culturais mudam devagar, mas mudam.
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