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MV Reijin: o "Titanic dos Automóveis" e o naufrágio de 26 de abril de 1988

Carro esportivo azul metálico exibido em ambiente moderno com vista para o mar ao pôr do sol.

Na madrugada de 26 de abril de 1988 - ainda na “ressaca” de mais uma celebração do «dia da liberdade» -, ao largo da praia da Madalena, aconteceu o que viria a ser lembrado como o maior naufrágio da história naval portuguesa. O protagonista era o navio MV Reijin, então o maior «porta-automóveis» do mundo.

Imobilizado nas proximidades daquela praia em Vila Nova de Gaia, o navio - com 200 m de comprimento, 58 mil toneladas e mais de 5400 automóveis a bordo - transformou o local não apenas em um «local de procissão», mas também em um acontecimento que até hoje ocupa o imaginário coletivo de muitos portugueses.

As comparações com o naufrágio do Titanic surgiram de imediato. Afinal, o MV Reijin, assim como o infortunado transatlântico britânico, era considerado o navio mais avançado do seu tempo e também afundou na viagem inaugural. Felizmente, o paralelo não se repetiu no número de vítimas: neste naufrágio, lamenta-se a morte de dois tripulantes.

O que se passou no dia 26 de abril de 1988?

Conhecido como o «Titanic dos Automóveis», o MV Reijin que naufragaria em Portugal - o país dos marinheiros - contava com uma tripulação de 22 homens, navegava sob bandeira do Panamá e, naquela primavera de 1988, realizava sua primeira grande travessia, pouco mais de um ano depois de ter deixado a doca seca e começado a operar.

A missão era direta: transportar do Japão para a Europa milhares de automóveis. Esse trabalho já o havia levado a fazer escala no Porto de Leixões, tanto para abastecer quanto para descarregar 250 automóveis em Portugal. E foi justamente depois dessa parada que ocorreu o desastre.

Segundo os relatos, o navio já “não saiu bem” do porto do Norte. Para alguns, o MV Reijin teria seguido com a carga mal acondicionada; para outros, o problema seria “de raíz”, ligado a alguma falha na própria construção.

Qual versão era a verdadeira segue sem confirmação até hoje. O que se sabe é que, pouco depois de deixar o Porto de Leixões - em uma noite em que o mar agitado não teria facilitado o trabalho da tripulação -, o MV Reijin já navegava adornado e, em vez de apontar para o mar aberto, acabou descrevendo uma rota paralela à costa de Vila Nova de Gaia.

Às 00h35, o desfecho se impôs: o navio, que deveria seguir rumo à Irlanda, terminou a viagem nas rochas ao largo da praia da Madalena, encalhado e com uma enorme fenda no casco. Do acidente resultaram um morto e um ferido (ambos tripulantes); o restante do grupo foi resgatado com apoio dos bombeiros e do ISN (Instituto de Socorros a Náufragos).

Portugal nas primeiras páginas

A repercussão veio na hora. As autoridades afirmavam que a situação estava sob controle, que não existia risco de poluição - apesar de o MV Reijin ter sido abastecido com mais de 300 toneladas de nafta, cujo vazamento poderia provocar uma maré negra - e lembravam que não houve qualquer pedido de socorro antes do encalhe.

Ainda assim, o que mais prendia a atenção era o valor gigantesco envolvido e o porte do navio. Imediatamente batizado de «Titanic dos automóveis», o caso foi descrito como “o maior naufrágio de sempre nas costas portuguesas, em termos de carga e o maior do mundo no que respeita a porta-automóveis”. É um tipo de marca que nenhuma embarcação deseja - e que, até hoje, continua associada ao MV Reijin.

Estimava-se que estivessem ali, no total, mais de dez milhões de contos (aproximadamente 50 milhões de euros na moeda atual, sem contar com a inflação). Ao mesmo tempo, avançou rapidamente uma investigação para entender como o mais sofisticado e moderno navio de carga para transporte marítimo de automóveis havia naufragado diante de uma praia do Norte tão frequentada.

Otimismo a toda a prova

Enquanto a apuração corria, começou quase ao mesmo tempo a tentativa de remover e salvar o MV Reijin e sua carga. No primeiro ponto, o fato de hoje não haver um navio daquele tamanho ao largo da praia da Madalena confirma que a remoção foi bem-sucedida. Já salvar o navio, propriamente, não foi algo que se conseguisse cumprir.

O governo fixou um prazo de apenas 90 dias para tirar a embarcação dali (até 26 de julho não poderia haver mais MV Reijin encalhado no local). Por isso, várias empresas especializadas foram até a praia da Madalena para analisar cenários e estimar custos de remoção ou desencalhe daquele gigante.

A retirada da nafta - a tarefa mais urgente - começou em 10 de maio de 1988 e foi descrita como um “trabalho de equipa”, reunindo autoridades portuguesas, técnicos vindos do Japão e um batelão cisterna de uma empresa espanhola. Já a operação com o Reijin, cujo custo cabia à proprietária, foi entregue a uma empresa holandesa que logo demonstrou confiança.

Na avaliação deles, a chance de recuperar o porta-automóveis chegaria a 90%, algo especialmente importante por se tratar de um navio novo. Só que o tempo mostraria que a estimativa era otimista demais. Mesmo com o verão se aproximando, o mar não deu trégua, as dificuldades técnicas se acumularam e o prazo originalmente definido precisou ser estendido.

Em poucas semanas, a missão de resgate do MV Reijin transformou-se numa missão de desmantelamento. O «Titanic dos Automóveis» não tinha salvação possível.

Um processo longo e cheio de peripécias

Com o passar dos meses, o Reijin virou um ex-libris. Já em plena temporada de praia, em 9 de agosto, teve início o desmantelamento do navio japonês. Algumas partes seguiram para a sucata; outras foram parar no fundo do mar, onde permanecem até hoje.

Em um período em que o mundo caminhava, pouco a pouco, para a globalização, o incômodo com a ideia de afundar parte da embarcação atravessou fronteiras e oceanos. Um exemplo disso foi uma matéria em que o jornal norte-americano LA Times dava conta das críticas de ambientalistas nacionais ao plano de remoção do «gigante asiático».

Uma dessas associações era a então pouco conhecida Quercus, que, “à boleia” da polêmica, começou a ganhar visibilidade e realizou diversas ações - entre elas, a ocupação do navio.

Mesmo assim, e apesar das críticas, o MV Reijin acabou desmantelado. Em 11 de agosto, o risco das operações levou à interdição da praia da Madalena. A decisão se mostrou acertada: quatro dias depois, no dia 15, os maçaricos usados no corte das chapas provocaram um incêndio.

Durante meses, foram dando à costa peças de automóveis e artefactos do MV Reijin. Alguns deles transformados em recordações ainda hoje preservadas pelos habitantes da zona.

As reviravoltas foram constantes ao longo do processo, como o episódio curioso de setembro de 1989, quando uma barcaça-pontão usada na operação se soltou das amarras e “imitou” o Reijin, indo encalhar na praia de Valadares.

Ao final, parte do navio foi afundada a 150 milhas (240 km) de distância; outra parte foi enviada para a sucata; e alguns automóveis transportados pelo MV Reijin terminaram a 2000 m de profundidade e a 40 milhas (64 km) da costa - a atuação das autoridades e de associações ambientalistas impediu que esse fosse o destino de todos os carros a bordo.

Na época, o custo total do naufrágio foi estimado em 14 milhões de contos - oito milhões pela perda do barco e seis correspondentes às viaturas perdidas -, o equivalente a quase 70 milhões de euros. Já os custos ambientais não chegaram a ser apurados.

O que se perdeu em valor acabou se convertendo em memória coletiva. Até hoje, o nome «Reijin» desperta emoções e lembranças. “Vamos ver o barco” era a frase mais repetida entre os jovens da praia da Madalena quando o convite, na prática, era para encontros em que olhares indiscretos não eram «bem vindos». Os mais ousados também se lembram das visitas ilegais ao interior do navio, em desafio às autoridades marítimas.

No mar, permaneceram pedaços de metal retorcido encaixados entre as rochas, ainda visíveis na maré baixa, como prova concreta de um desastre de mais de trinta anos. Chamavam-se MV Reijin, o «Titanic dos Automóveis».

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