Braga passou a ter, com o MUZEU, algo que vai além de um museu: uma declaração de que a cultura pode ser feita de visão, liberdade e futuro. Em um país onde tantas vezes a cultura é tratada como gasto, o gesto do dstgroup recoloca o tema no lugar certo: cultura também é investimento, ambição e responsabilidade cívica.
O Muzeu e o dstgroup: arte contemporânea como futuro
Voltado ao Pensamento e à Arte Contemporânea, o projeto envolve um investimento privado de 40 milhões de euros, marca a chegada do primeiro museu de arte contemporânea da cidade e deixa claro que a iniciativa empresarial pode, igualmente, funcionar como força propulsora cultural.
José Teixeira, Helena Mendes Pereira e uma curadoria exigente
O MUZEU nasce da visão de José Teixeira, presidente do Grupo dst, que há anos defende uma cultura corporativa em que a arte não é enfeite: é parte constitutiva da vida da organização e da sociedade. Há diversos exemplos de como a cultura entra na política da empresa - seja nos benefícios oferecidos aos trabalhadores, seja na criação de um ambiente que fortalece, no plano cívico, quem ali trabalha - além do apoio às artes, como no caso da CTB - Companhia de Teatro de Braga.
Talvez por isso seja mais fácil entender por que estamos diante de um empresário que, ao comentar o novo Código do Trabalho, afirma: "deixem os trabalhadores em paz". A competitividade não se constrói enfraquecendo vínculos trabalhistas, e sim por meio da capacitação e da valorização das pessoas, combinadas com a transparência do conhecimento e da pesquisa colocados a serviço do tecido produtivo.
A nomeação de Helena Mendes Pereira como diretora e curadora - responsável também pela zet gallery e pela direção artística da Bienal de Cerveira - reforça a intenção de dar ao projeto um rumo curatorial sólido, rigoroso e aberto ao debate contemporâneo. O percurso cultural e cívico de Helena Mendes Pereira também indica que o Muzeu pode ser mais do que um centro de arte contemporânea: um espaço de pensamento, reflexão e resistência.
Mecenato cultural, Estado e a revisão proposta pelo PS
Assim, o Muzeu se apresenta como um exemplo que merece reconhecimento e que pode inspirar novas iniciativas. Mas é preciso dizer com toda a clareza: investimento privado em cultura não substitui o papel do Estado. A Constituição é explícita ao assegurar o direito de todos à fruição e à criação cultural e ao atribuir ao Estado a tarefa de promover a democratização do acesso e de apoiar a criação cultural. Investimento público e investimento privado obedecem a lógicas diferentes, mas os dois são indispensáveis.
O mecenato cultural não toma o lugar do investimento público - nem é superior a ele quando o assunto é liberdade cultural. Cada centavo aplicado, seja por via pública, seja por via privada, precisa se traduzir em mais liberdade artística e criativa, sem servir a qualquer agenda que não seja ampliar oferta, acesso, criação e projeção nacional e internacional da cultura. O mecenato amplia as ferramentas disponíveis para tornar a cultura mais acessível, mais plural e mais sustentável.
É nessa direção que o PS apresentou sua proposta de revisão do regime do mecenato cultural: abertura para artistas individuais, simplificação de procedimentos, reforço de incentivos fiscais, mais transparência e a criação de mecanismos como financiamento coletivo (crowdfunding) e matchfunding. Ao mesmo tempo, o projeto dá valor à aquisição de obras de artistas vivos com fruição pública, fortalecendo o vínculo entre apoio privado e acesso coletivo à cultura.
Vivemos um ponto de virada. As propostas do PS, da IL e do Governo foram aprovadas na generalidade, e o trabalho na especialidade é a oportunidade de construir uma lei mais eficiente, mais atrativa e mais capaz de mobilizar empresas a seguirem exemplos como o da DST. O que está em jogo não é apenas aprimorar um regime fiscal; é criar condições melhores para que mais iniciativas culturais ganhem escala, continuidade e impacto.
O Muzeu evidencia o que pode acontecer quando visão empresarial e curadoria consistente se encontram. Uma boa lei de mecenato pode ampliar esse efeito, estimulando mais investimento, mais diversidade e maior circulação cultural. Que o exemplo de José Teixeira possa se multiplicar, com um regime mais convidativo e um país mais aberto à criação.
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