Existe uma estratégia ideal para ganhar várias rodadas de pedra, papel e tesoura: agir do jeito mais aleatório e imprevisível possível. Em outras palavras, o melhor é não se prender ao que aconteceu na rodada anterior.
Na prática, porém, isso é bem mais difícil do que parece.
Para entender como o cérebro toma decisões em um cenário competitivo, pedimos que voluntários jogassem 15,000 partidas de pedra, papel e tesoura enquanto registrávamos a atividade cerebral.
Os resultados, publicados agora em Neurociência Social, Cognitiva e Afetiva, indicaram que quem deixava a rodada anterior influenciar a escolha seguinte realmente tendia a perder com mais frequência.
Também mostramos que as pessoas têm dificuldade em ser genuinamente aleatórias - e que é possível identificar diferentes vieses e padrões de comportamento na atividade cerebral no momento em que elas decidem durante uma competição.
O que aprendemos com um jogo simples de pedra, papel e tesoura
A neurociência social, em grande parte, concentrou-se em estudar o cérebro de pessoas individualmente. Só que, para enxergar como o cérebro decide quando interagimos uns com os outros, precisamos recorrer a um método conhecido como hiperescaneamento.
Com essa abordagem, pesquisadores conseguem registrar ao mesmo tempo a atividade cerebral de duas ou mais pessoas enquanto elas interagem, o que oferece uma medida mais próxima da vida real sobre o comportamento social.
Até aqui, a maior parte dos estudos que usou esse método investigou situações de cooperação. Ao cooperar com outra pessoa, ser o mais previsível possível pode ser útil, porque facilita antecipar as ações e as intenções de cada um.
Nós, por outro lado, queríamos examinar a tomada de decisão em um contexto de competição, em que a imprevisibilidade pode virar uma vantagem - como acontece ao jogar pedra, papel e tesoura.
Como o cérebro decide? E ele acompanha as ações anteriores, tanto as nossas quanto as do adversário?
Para responder a isso, registramos simultaneamente a atividade cerebral de duplas de participantes enquanto eles jogavam 480 rodadas de pedra, papel e tesoura entre si no computador.
A partir do total de 15,000 rodadas somadas entre todas as duplas, constatamos que os jogadores não eram bons em manter a imprevisibilidade ao escolher qual opção usar na rodada seguinte.
Mesmo com a aleatoriedade sendo a melhor estratégia, a maioria apresentava um viés claro: repetia em excesso uma das opções. Mais da metade dos participantes mostrou preferência por "pedra", seguida por "papel", enquanto "tesoura" foi a opção menos escolhida.
Além disso, as pessoas tendiam a evitar repetir a própria jogada: elas trocavam de opção na rodada seguinte mais vezes do que seria esperado por puro acaso.
Decisões em tempo real
Conseguimos prever, a partir dos dados cerebrais, se um jogador escolheria "pedra", "papel" ou "tesoura" antes mesmo de ele dar a resposta. Isso quer dizer que foi possível acompanhar a tomada de decisão no cérebro enquanto ela se desenrolava, em tempo real.
E não encontramos no cérebro apenas sinais ligados à decisão que estava por vir. Durante a fase de decisão, também apareciam informações sobre o que tinha ocorrido na partida anterior. Havia registros neurais tanto da resposta anterior do participante quanto da jogada anterior do oponente.
Isso indica que, ao decidir, usamos o que acabou de acontecer para orientar o próximo passo: "eles jogaram pedra da última vez, então qual é a minha jogada?"
Não conseguimos evitar a tentativa de adivinhar o que vem a seguir olhando para trás.
O ponto crucial é que, quando o objetivo é ser imprevisível, apoiar-se nos resultados passados não ajuda. Apenas os cérebros de quem perdeu apresentavam informação sobre a rodada anterior - os cérebros de quem ganhou, não. Isso sugere que depender demais do que aconteceu antes realmente atrapalha a estratégia.
Por que isso importa?
Quem nunca quis saber qual será a próxima jogada do adversário? De jogos simples à política global, uma boa estratégia pode trazer uma vantagem decisiva.
Nossa pesquisa reforça que o cérebro humano não funciona como um computador: quase sempre tentamos antecipar o que vai acontecer e usamos resultados anteriores para influenciar decisões futuras - mesmo quando isso pode ser contraproducente.
Naturalmente, pedra, papel e tesoura está entre os jogos mais simples que poderíamos usar, o que o tornou um ótimo ponto de partida para este tipo de investigação. O próximo passo seria levar esse trabalho para cenários competitivos em que acompanhar decisões anteriores seja, de fato, mais estratégico.
O nosso cérebro não é bom em ser imprevisível. Na maioria das situações sociais, isso é algo positivo e pode favorecer a cooperação. Porém, em contextos competitivos, essa característica pode nos prejudicar.
Uma lição prática é que quem consegue parar de superanalisar o passado pode ter uma chance melhor de vencer no futuro.
Denise Moerel, Pesquisadora em Neurociência Cognitiva, Universidade de Sydney Ocidental; Manuel Varlet, Professor em Neurociência Cognitiva, Universidade de Sydney Ocidental; e Tijl Grootswagers, Pesquisador Sênior ARC DECRA em Neurociência Cognitiva, Universidade de Sydney Ocidental
Este artigo foi republicado de A Conversa sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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