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Como a usina eólica WindFloat Atlantic em Portugal virou um santuário marinho

Mergulhador observa polvo agarrado a estrutura submersa próxima a turbinas eólicas no mar ao pôr do sol.

A corrida por fontes de energia limpa trouxe um achado inesperado no Atlântico europeu: em Portugal, uma usina eólica offshore passou a funcionar, na prática, como um santuário marinho. O caso reforça que a geração de eletricidade sustentável pode coexistir com a preservação da biodiversidade no ambiente subaquático.

Como o projeto WindFloat Atlantic funciona?

Operando nas proximidades de Viana do Castelo, o WindFloat Atlantic se apoia em três plataformas flutuantes de nova geração instaladas em mar aberto e em águas profundas. Com essa solução pioneira, o projeto entrega energia elétrica renovável para milhares de lares em território português. Por serem flutuantes, as estruturas viabilizam a instalação em áreas antes consideradas fora de alcance para turbinas presas diretamente ao solo do oceano.

Ao longo dos anos em operação, a usina soma uma produção expressiva. Paralelamente, um acompanhamento ambiental minucioso trouxe resultados surpreendentes sobre a vida marinha do entorno. A seguir, estão reunidos dados centrais da capacidade técnica e dos resultados ecológicos observados nesse empreendimento.

  • Capacidade total: o parque eólico opera com potência instalada de 25 megawatts.
  • Abastecimento público: a energia gerada supre aproximadamente 25 mil residências na região portuguesa.
  • Energia acumulada: o site oficial indica produção acumulada superior a 430 gigawatt-hora.
  • Localização profunda: as estruturas ficam em águas com cerca de 101 m de profundidade (330 pés).
  • Carbono evitado: a operação de baixa emissão evita 32,7 mil toneladas métricas por ano (equivalentes a 36 mil toneladas americanas) de poluição.

Quais espécies encontraram refúgio na usina?

Estudos científicos conduzidos por oito anos registraram uma diversidade notável ao redor das turbinas. No total, os pesquisadores identificaram mais de 270 espécies utilizando a área. O mapeamento indica que a fauna local passou a contar com um habitat favorável, com menos interferência humana direta.

Entre os animais catalogados aparecem tubarões, raias e diferentes peixes distribuídos pela coluna d’água. A fauna aérea também foi acompanhada: aves e morcegos usam o espaço ao redor sem que tenham sido registradas colisões. O monitoramento contemplou desde organismos planctônicos até grandes mamíferos em deslocamento pela região.

Por que os polvos adotaram a estrutura?

A presença de polvos está associada ao chamado efeito recifal, formado pelas partes submersas do parque eólico. Elementos rígidos colocados sobre fundos arenosos viram pontos de fixação para organismos menores. Essa “base” biológica atrai predadores e converte as plataformas em áreas privilegiadas de alimentação e abrigo.

Refúgio biológico

O efeito reserva

Como a navegação e a pesca ficam limitadas no entorno das três turbinas flutuantes, a área acaba atuando como uma zona de proteção involuntária para as espécies locais.

Com menos pressão humana imediata, populações de polvos e peixes tendem a crescer, com abundância superior à observada em áreas vizinhas onde não há esse tipo de restrição.

Nessas estruturas de engenharia contemporânea, os polvos encontram condições especialmente adequadas para prosperar. A configuração submersa corresponde bem às necessidades comportamentais desses caçadores inteligentes. Entre os fatores que ajudam a explicar por que as plataformas flutuantes viraram um ambiente tão favorável para esses moluscos, destacam-se:

  • Fendas e cavidades na estrutura que funcionam como tocas seguras.
  • Grande disponibilidade de pequenos organismos, garantindo oferta contínua de alimento.
  • Ausência de pesca direta, reduzindo de forma acentuada a mortalidade.

Como os pescadores locais reagiram ao projeto?

Mesmo com os ganhos biológicos apontados por pesquisadores, o projeto também alimenta discussões com a comunidade pesqueira local. Parte dos trabalhadores relata efeitos negativos sobre a rotina e a viabilidade comercial. Segundo eles, algumas espécies teriam ficado mais difíceis de capturar nas proximidades das novas estruturas.

As queixas evidenciam o componente social da expansão das renováveis. Ainda que os desembarques totais permaneçam estáveis, pescadores dizem lidar com obstáculos ligados à área disponível para pesca. A lista abaixo reúne as reclamações mais frequentes desses profissionais, diretamente impactados pela nova restrição espacial:

  • Perda de acesso a pontos tradicionais de captura no entorno da usina.
  • Relatos de sumiço de peixes em um raio de cerca de 1,6 km (uma milha) das turbinas.
  • Preocupação com os efeitos de projetos futuros, maiores, sobre comunidades costeiras.

O que essa iniciativa ensina para o futuro?

A discussão em torno do parque português espelha desafios globais da transição energética. Para a ciência, os efeitos ecológicos de longo prazo ainda trazem muitas incertezas. Revisões indicam que uma parcela relevante dos impactos potenciais nos ecossistemas marinhos continua desconhecida para autoridades globais e órgãos responsáveis.

Levar adiante a expansão de usinas limpas demanda diálogo permanente e fiscalização ambiental rigorosa, caso a caso. Nesse sentido, o WindFloat Atlantic se consolida como um “laboratório vivo”, expondo avanços concretos e conflitos reais. O setor depende desse equilíbrio para sustentar o fornecimento de energia sem comprometer a riqueza da vida subaquática.

Referências: Ocean Winds apresenta o relatório “Energia eólica offshore flutuante e coexistência com a biodiversidade: um relatório orientado por dados do WindFloat Atlantic” no evento anual WindEurope 2026 – Ocean Winds

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