O clima extremo deixou de parecer exceção. Ondas de calor duram mais, tempestades chegam com mais força, e secas se estendem por regiões inteiras.
Essas mudanças estão a remodelar ecossistemas de formas que ainda estão a acontecer - muitas vezes por caminhos inesperados.
A maior parte das conversas sobre mudança climática concentra-se em perdas e em como sobreviver. Isso é compreensível.
Só que existe um outro lado, menos comentado: algumas partes da natureza não apenas suportam a perturbação. Elas reagem de um jeito que pode até aumentar o seu desempenho.
Num estudo recente, cientistas investigaram se determinadas espécies e ecossistemas poderiam tirar proveito das oscilações ambientais, em vez de apenas voltar ao que eram antes.
Um clima em transformação, uma lente diferente
Com o aquecimento do planeta, eventos climáticos extremos tornaram-se mais frequentes e mais intensos. Nos últimos 20 anos, grandes inundações mais do que duplicaram, e tempestades severas aumentaram 40%.
Há anos, investigadores reconhecem que sistemas resilientes conseguem absorver choques e retornar ao normal. Mas a resiliência tem um limite: ela sugere sobrevivência, não melhoria.
Foi esse o ponto que um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Michigan (MSU) quis ultrapassar.
Em vez de perguntar como os ecossistemas “se recuperam”, eles inverteram a lógica: será que alguns sistemas podem, de facto, melhorar por causa da instabilidade?
Vida microscópica do oceano com enorme influência
Para testar essa ideia, a equipa voltou-se para o fitoplâncton. Esses organismos microscópicos flutuam nos oceanos e, tal como as plantas em terra, usam luz solar e dióxido de carbono para produzir energia. Apesar do tamanho, têm um papel desproporcional no equilíbrio do planeta.
O fitoplâncton sustenta a base da cadeia alimentar marinha, alimentando desde pequenos krills até baleias gigantes. Além disso, ajuda a regular o clima ao retirar dióxido de carbono da atmosfera.
Na prática, o fitoplâncton remove quatro vezes mais dióxido de carbono do que a floresta Amazónica - o equivalente a quase um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa a cada ano.
Quando o caos ajuda a natureza a prosperar
Os investigadores usaram modelos matemáticos para simular como o fitoplâncton reage a variações de temperatura. O que apareceu nos resultados foi surpreendente.
À medida que as oscilações térmicas se tornavam mais extremas, algumas espécies individuais passavam por dificuldades. A biomassa - uma medida de crescimento e funcionamento - diminuía.
No entanto, o quadro mudava quando se olhava para a comunidade como um todo.
No conjunto, a produtividade aumentava. Enquanto algumas espécies caíam, outras disparavam. Em combinação, elas aproveitavam melhor as condições em mudança. O sistema não apenas se mantinha: passava a render mais.
Esse tipo de resposta contraria a suposição comum de que, para a vida, a estabilidade é sempre a melhor opção.
Força na diversidade
Outro conjunto de modelos avaliou espécies hipotéticas com características diferentes. Alguns indivíduos estavam mais bem adaptados a certas condições do que outros.
Quando o ambiente começava a oscilar, esses grupos mistos levavam vantagem. A diversidade funcionava como um amortecedor: independentemente das condições que surgissem, sempre existiam membros prontos para prosperar.
Já espécies mais uniformes não se saíam tão bem. Sem variação, tinham mais dificuldade para se ajustar quando o ambiente mudava.
O padrão aponta para uma ideia simples: a variação dentro de uma espécie pode transformar incerteza em oportunidade.
Um conceito chamado antifragilidade
Os autores descrevem essas respostas com o conceito de antifragilidade. O termo foi apresentado pela primeira vez em 2012 e refere-se a sistemas que se beneficiam da volatilidade, em vez de apenas resistirem a ela.
“É um fenómeno que atravessa tantos contextos e disciplinas diferentes”, disse a coautora do estudo, Elena Litchman.
Há exemplos na própria natureza. Alguns campos e áreas de bosque voltam após distúrbios como incêndios florestais ou pastoreio com maior diversidade.
A perturbação reorganiza o sistema de maneiras que podem melhorar a sua saúde a longo prazo.
Nem todos os benefícios são iguais
A antifragilidade não se aplica a tudo - e tampouco garante resultados positivos em todos os aspetos.
O autor principal do estudo, Jonas Wickman, destacou que os pormenores fazem diferença. No caso do fitoplâncton, a produtividade só melhora dependendo do que está a limitar o crescimento populacional. Pressões diferentes podem levar a desfechos distintos.
A pesquisa também indicou que uma medida de sucesso pode aumentar enquanto outra piora. Uma espécie pode crescer mais depressa sob stresse, mas tornar-se menos estável de outras formas.
Essas trocas tornam difícil classificar qualquer sistema como completamente antifrágil.
O que isto significa para o futuro
Compreender como ecossistemas reagem à variabilidade pode influenciar a forma como cientistas pensam conservação e restauração.
Em vez de tentar manter sistemas num estado fixo, pode haver valor em permitir que flutuações naturais tenham espaço.
Um certo nível de mudança pode ajudar ecossistemas a reorganizar-se e a fortalecer-se ao longo do tempo.
Agora, a equipa da MSU está a examinar como o aquecimento afeta a capacidade do fitoplâncton de capturar dióxido de carbono. Se esse processo mostrar mesmo uma pequena resposta antifrágil, isso pode influenciar a rapidez com que o planeta aquece.
A natureza nem sempre obedece a regras simples. Num mundo marcado por extremos crescentes, alguns sistemas podem encontrar maneiras de usar a instabilidade a seu favor.
A pesquisa foi publicada na revista O Naturalista Americano.
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