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Primeiras pegadas de lagartos do Jurássico na Europa são confirmadas nas Astúrias

Pessoa limpando fósseis em uma rocha na praia com pincel, bloco de anotações ao lado e mar ao fundo.

Pesquisadores registraram as primeiras pegadas confirmadas de lagartos do Jurássico já encontradas na Europa, na forma de trilhas de pegadas. Elas ficaram preservadas em rochas formadas há cerca de 152 milhões de anos.

A descoberta transforma o deslocamento rápido de um pequeno réptil sobre lama antiga na evidência física mais clara até agora de como esses animais se locomoviam por paisagens europeias na era dos dinossauros.

Trilhas de lagartos no arenito

Em paredões costeiros nas Astúrias, no norte da Espanha, as duas trilhas aparecem na face inferior de uma camada de arenito com aproximadamente 152 milhões de anos.

A partir das marcas, a geóloga Laura Piñuela, do Museu do Jurássico das Astúrias (MUJA), comparou o padrão de passos com a anatomia típica de um lagarto.

O comprimento dos dedos, as impressões de garras e a alternância esquerda-direita indicaram que as pegadas pertenciam a lagartos, e não a outro tipo de pequeno réptil.

Essa atribuição é importante porque trilhas de lagartos do Jurássico quase nunca se conservam. Por isso, paleontólogos vinham lidando mais com indícios esparsos do que com trajetos completos.

Interpretando pegadas fossilizadas

A trilha T1 guarda sete impressões - quatro das mãos e três dos pés - feitas por um animal com menos de 50 centímetros de comprimento.

Ao lado, a trilha T2 mantém seis impressões e aponta para um lagarto menor, com cerca de 31 centímetros do focinho à ponta da cauda.

A rocha registrou cada passo como um molde em relevo, permitindo comparar com precisão dedos, espaçamento entre as passadas e pontas das garras.

Como as duas trilhas preservaram juntas as marcas de mãos e pés, esses fósseis sugerem um plano corporal mais completo do que pegadas isoladas conseguiriam oferecer.

Evidência de movimento da cauda

Um detalhe torna a T1 especialmente informativa: um sulco largo e quase contínuo acompanha as pegadas por grande parte do trajeto.

Os pesquisadores interpretaram esse sulco como uma marca de cauda, indicando que o animal, por um momento, manteve parte do peso mais perto do chão.

O espaçamento entre mãos e pés também varia de um passo para outro, sugerindo que o lagarto fez uma curva acentuada, em vez de seguir em linha reta.

Esse padrão incomum abriu a etapa seguinte do estudo, porque apenas os fósseis não permitem distinguir com certeza se o animal escorregou ou se girou sobre o próprio corpo.

Testando lagartos vivos

Para avaliar esse tipo de movimento, a equipe comparou as trilhas com observações de lagartos atuais em Jiangsu, no leste da China.

Usando lagartos-ocelados e dragões-barbudos, os pesquisadores acompanharam como a saída da imobilidade alterava a posição da cauda e o espaçamento dos passos.

Indivíduos jovens frequentemente executaram viradas bruscas, e essas viradas reproduziram o mesmo deslocamento lateral da cauda e o ritmo irregular que ficaram preservados na T1.

Em vez de tratar o registro como algo deformado, os experimentos indicaram que a trilha capturou uma manobra real no meio do deslocamento.

Por que essas pegadas sobreviveram

Esses animais atravessaram lama semi-firme em uma planície deltaica que desembocava em um mar interior abrigado ao longo das antigas Astúrias.

Ondas fracas e quase nenhuma influência de maré fizeram com que as marcas recentes não fossem apagadas rapidamente. Pouco depois, novos sedimentos selaram as impressões - e foi assim que uma caminhada breve virou evidência durável na pedra.

Esse contexto ajuda a entender por que trilhas de répteis pequenos são tão raras: o soterramento calmo necessário para preservá-las dificilmente coincide de forma tão favorável.

Raridade ao longo do tempo

Fora alguns achados isolados, pegadas de lagartos do Jurássico são tão incomuns que a Europa não tinha, até agora, nenhuma trilha confirmada.

Um fóssil da mesma formação asturiana já havia sugerido uma pegada semelhante à de lagarto, mas era apenas um passo único, não um caminho.

Há trilhas mais recentes, incluindo um grande conjunto do Cretáceo na Coreia do Sul, o que faz a lacuna jurássica se destacar ainda mais.

O estudo preenche uma falha no registro europeu de trilhas de lagartos do Jurássico: nessa camada, antes só se conheciam pegadas isoladas, e nenhuma trilha completa havia sido documentada.

O que o nome significa

O formato das pegadas coloca as trilhas das Astúrias em Rhynchosauroides, uma categoria de icnofósseis usada quando as pegadas são mais claras do que os ossos.

A maioria dos registros dessa categoria vem do Pérmico e do Triássico, o que torna sua ocorrência aqui uma aparição incomumente tardia.

Essas novas trilhas representam as únicas trilhas de lagartos bem documentadas do Jurássico Superior”, observaram os autores.

Isso faz do material espanhol, ao mesmo tempo, uma estreia europeia e o registro mais recente conhecido desse tipo de pegada em qualquer lugar.

Um acervo de museu mais robusto

O MUJA já possuía a única pegada de lagarto do Jurássico conhecida no mundo, e as novas trilhas ampliam aquela pista para um registro mais consistente.

Agora, os dois fósseis integram a coleção permanente do museu, onde visitantes podem ver o mesmo material analisado pelos pesquisadores.

Essa exposição ao público é relevante porque icnofósseis podem parecer abstratos no papel, enquanto uma trilha real torna o comportamento visível.

Para as Astúrias - um litoral já rico em evidências de dinossauros -, a descoberta acrescenta répteis menores à narrativa paleontológica local.

Limites dos fósseis de pegadas

Mesmo trilhas muito bem preservadas não permitem dizer com exatidão qual espécie de lagarto as produziu, porque os pés tendem a permanecer no registro geológico por mais tempo do que os corpos.

A lama macia pode alongar ou borrar um passo, e as estimativas de comprimento corporal vêm de comparações, não de um esqueleto.

Ainda assim, duas trilhas separadas com características coincidentes têm mais força interpretativa do que uma única pegada encontrada fora de contexto.

Esse equilíbrio entre segurança e incerteza abre espaço para descobertas futuras sem diminuir o que este sítio já estabeleceu.

Nova visão da história dos répteis

Em poucos centímetros de rocha, as trilhas das Astúrias conectam anatomia, movimento e ambiente de um modo que fósseis de pequenos répteis raramente conseguem.

Caminhos mais completos ou fósseis corporais correspondentes podem refinar a interpretação, mas essas pegadas já reajustam a linha do tempo dos répteis jurássicos na Europa.

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