CAPE CANAVERAL, Flórida (AP) – Os astronautas da Artemis II, missão que reacendeu o renascimento lunar, disseram na quinta-feira que a nave se saiu muito bem - com elogios especiais ao escudo térmico - pelo desempenho durante a reentrada.
Na primeira coletiva de imprensa desde que voltaram à Terra, três norte-americanos e um canadense afirmaram que o sobrevoo da Lua coloca a NASA numa posição bem mais favorável para realizar um pouso tripulado em dois anos e, mais adiante, construir uma base lunar.
Eles falaram a partir do Johnson Space Center, da NASA, em Houston, que funciona como a base da equipe.
O retorno e a avaliação do escudo térmico da cápsula Orion
O comandante Reid Wiseman disse depois à Associated Press que, desde que retornou, a agenda ficou tão cheia que ele ainda não teve tempo de olhar para o céu e observar a Lua - muito menos o Cratera Carroll, nome sugerido pela tripulação para uma cratera lunar brilhante em homenagem à sua falecida esposa.
O casal teve duas filhas; as preocupações e os medos delas com a jornada do pai terminaram com a amerissagem segura no fim da semana passada.
"Estar a cerca de 405.600 km de casa foi a coisa mais majestosa e mais bonita que os olhos humanos vão testemunhar", disse ele em entrevista à AP.
Mas, ao voltar e atravessar a atmosfera a 39 vezes a velocidade do som, "isso assusta e isso é arriscado".
Foi por esse motivo que, no meio do voo, ele passou a desejar estar de volta. "Você só quer abraçar seus filhos e quer que eles saibam que você está seguro."
Wiseman afirmou que ele e o piloto Victor Glover "talvez tenham visto dois momentos" de um leve desprendimento do material carbonizado do escudo térmico quando a Integrity cruzou o trecho mais rápido e mais quente da reentrada.
Já a bordo do navio de recuperação, os astronautas tentaram enxergar o fundo da cápsula o melhor possível, inclinando-se para verificar se havia algum sinal de dano.
Eles notaram uma pequena perda de material carbonizado na “região do ombro”, onde o escudo térmico se encontra com a cápsula.
"Para quatro humanos apenas olhando o escudo térmico, ele pareceu maravilhoso. Pareceu ótimo, e aquela descida foi realmente incrível", disse Wiseman.
Ele ressaltou, porém, que ainda é necessário fazer análises detalhadas. "Vamos passar um pente-fino em cada coisa - nem só em cada molécula, provavelmente em cada átomo deste escudo térmico", afirmou.
No primeiro voo de teste da Artemis, em 2022 - sem ninguém a bordo - o escudo térmico voltou tão marcado e com tantos sulcos que a Artemis II acabou adiada por meses, se não por anos.
Em vez de refazer o componente, a NASA optou por alterar a trajetória de entrada da cápsula para reduzir o aquecimento. As próximas cápsulas terão um novo desenho.
O voo ao redor da Lua e o retorno ao Pacífico
Wiseman, Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen partiram rumo à Lua a partir da Flórida em 1º de abril, compondo a primeira tripulação lunar da NASA em mais de um século - e, de longe, a mais diversa.
Eles também se tornaram os viajantes mais distantes da história, superando o recorde da Apollo 13, ao contornarem a face oculta da Lua, com iluminação suficiente para revelar formações que jamais haviam sido vistas pelo olho humano.
Para aumentar ainda mais o impacto da experiência, eles observaram um eclipse lunar total.
A cápsula Orion, batizada pela tripulação de Integrity, desceu com paraquedas e amarou no Oceano Pacífico na sexta-feira, encerrando uma viagem de quase 10 dias.
A recepção em Houston no dia seguinte coincidiu com o 56º aniversário do lançamento da Apollo 13.
Glover contou que, quando os paraquedas foram liberados pouco antes da amerissagem, a sensação foi de queda livre - como se estivesse mergulhando de costas de um arranha-céu.
"Foi isso que pareceu por cinco segundos", disse ele, acrescentando que, quando o movimento ficou mais suave: "Foi glorioso."
Próximos passos do programa Artemis, treinos e riscos
Desde o retorno, os quatro astronautas passaram por uma bateria de exames médicos, repetidos várias vezes, para avaliar equilíbrio, visão, força muscular e coordenação, além do estado geral de saúde.
Eles também vestiram trajes de caminhada espacial para exercícios em condições que simulam a gravidade lunar, equivalente a um sexto da gravidade da Terra, a fim de medir quanta resistência e destreza futuros caminhantes na Lua poderão ter ao tocar o solo lunar.
Enquanto isso, a NASA já avança no trabalho da Artemis III, o próximo passo dentro dos planos mais amplos de construção de uma base na Lua.
A plataforma de onde o foguete é lançado retornou na quinta-feira ao Kennedy Space Center, ao Edifício de Montagem de Veículos, onde será preparada para o lançamento da próxima Artemis no ano que vem.
Ainda sem tripulação definida, a Artemis III permanecerá em órbita da Terra enquanto astronautas treinam a acoplagem da cápsula Orion a um ou dois módulos de pouso lunar em desenvolvimento pela SpaceX, de Elon Musk, e pela Blue Origin, de Jeff Bezos.
Pelo cronograma mais recente da NASA, a Artemis IV virá na sequência em 2028, com dois astronautas pousando perto do polo sul lunar.
A meta, desta vez, é estabelecer uma presença sustentável na Lua.
Na era das missões Apollo, os astronautas faziam visitas curtas. Doze astronautas exploraram a superfície lunar, começando com Neil Armstrong e Buzz Aldrin, da Apollo 11, em 1969, e terminando com Gene Cernan e Harrison Schmitt, da Apollo 17, em 1972.
Koch disse que, desde o retorno, ela e os colegas estão "ainda mais empolgados e prontos para encarar isso como agência".
"Nós fizemos acontecer", acrescentou.
Hansen observou que, para alcançar tudo isso, todos precisarão aceitar um risco extra e confiar que eventuais problemas poderão ser resolvidos em tempo real.
"Não vamos conseguir deixar tudo perfeito antes de ir. Vamos ter que confiar uns nos outros", afirmou.
E, embora tudo tenha transcorrido bem para eles, "também ficou muito claro para nós que pode ficar bem turbulento", disse. Tripulações futuras terão de "entender que pode ficar muito turbulento muito rápido".
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