O uso de redes sociais cada vez mais cedo tem efeitos que, segundo relatos de professores e psicólogos, são difíceis de reverter no desenvolvimento cognitivo e socioemocional de crianças. Sinais desses impactos aparecem tanto na escola quanto nos consultórios, o que reforça o apelo por mais regulação - tema que ganha destaque nesta terça-feira, quando se celebra o Dia Mundial das Redes Sociais.
Em fevereiro, a Assembleia da República aprovou, na generalidade, um projeto de lei do PSD que propõe regular o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, caminho que vem sendo debatido em diferentes países diante dos riscos para crianças e adolescentes.
Há duas semanas, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou que o Reino Unido se juntaria à Austrália para proibir o acesso de menores de 16 anos às principais aplicações de redes sociais. Na ocasião, a professora Rita Mendes comemorou a medida em um vídeo publicado no TikTok.
Acesso precoce às redes sociais visto na sala de aula
"Uma das primeiras coisas que noto é a capacidade de reter a atenção por um período consistente, que dê para aprender alguma coisa, para reter conhecimento", relata Rita Mendes.
Professora de Música, ela mesma é bastante ativa nas redes sociais e reúne dezenas de milhares de seguidores. Ainda assim, mantém uma visão crítica sobre a presença de menores nessas plataformas: para ela, isso não deveria acontecer.
Trabalhando com estudantes da educação infantil ao 9º ano, Rita Mendes afirma que consegue perceber com facilidade quais alunos têm acesso às redes sociais e quais não têm.
Além da dificuldade de concentração, ela observa, entre os mais “digitais”, lacunas de vocabulário e mais dificuldade para se expressar - seja ao falar de sentimentos, seja ao explicar algum conflito que tenha surgido durante o recreio.
"Nas redes sociais existe uma constante assimilação de conteúdos, mas não há apropriação de nada, porque o cérebro não tem tempo para reter", argumenta, contrapondo com a leitura, quando "o cérebro tem tempo para se apropriar do texto e para o processar".
O que os psicólogos observam: linguagem, emoções e habilidades
O psicólogo Júlio França também aponta prejuízos do acesso precoce para o desenvolvimento da linguagem e explica que a causa se liga, sobretudo, à falta de um contexto adequado para que essas competências se formem.
"Seja no convívio com os pais, com os amigos ou no jardim-de-infância, há todo um conjunto de comportamentos que são comportamentos-modelo e que facilitam o desenvolvimento da linguagem", afirma. Ele acrescenta que, quando o ambiente não favorece esse aprendizado, "a linguagem pode desenvolver-se, mas com erros".
Entre as crianças menores, Júlio França - integrante do Conselho de Especialidade de Psicologia da Educação da Ordem dos Psicólogos Portugueses - menciona ainda efeitos sobre a regulação das emoções e sobre o desenvolvimento da motricidade. Já entre os mais velhos, ele ressalta que também existem riscos ligados à exposição às telas, principalmente quando o tempo de uso é excessivo.
"Se falarmos de crianças mais velhas, as redes sociais podem trazer outro tipo de consequências, associadas à exposição a conteúdos que não são apropriados para aquela fase de desenvolvimento", destaca, citando como exemplos conteúdos violentos, de incitação ao ódio ou de caráter sexual.
Quando as interações sociais ficam em segundo plano, por outro lado, isso prejudica a construção de competências socioemocionais. Nesse contexto, o psicólogo relembra o impacto do isolamento durante a pandemia de covid-19 e chama atenção para o potencial de dependência das plataformas digitais.
"Noto isso também com algumas crianças com quem trabalho. Parece que o tempo nunca é suficiente, é preciso sempre mais", descreve.
Regulação, proibição e o papel das famílias
Tanto Júlio França quanto Rita Mendes reconhecem que "nem tudo é mau" nas redes sociais. Ainda assim, eles concordam que, ao pesar prós e contras, os efeitos negativos acabam sendo muito mais relevantes do que benefícios possíveis.
Ao comentar a alternativa de proibir o acesso de menores às redes sociais, a professora avalia que esse seria o cenário ideal, mas admite que alcançar esse objetivo é difícil, já que muitas vezes as crianças dominam novas tecnologias mais do que os adultos.
"Existem alguns pais que deixam os filhos usar redes sociais, mas fazem um policiamento muito ativo sobre o que é consumido e sobre o tempo que os filhos passam no telemóvel", diz, apontando esse comportamento como um exemplo positivo. Ela ressalva, no entanto, "que a maioria dos pais não tem essa disponibilidade".
"Não existindo regulação, os perigos são vários", reforça, por sua vez, Júlio França, alertando que muitas dessas consequências "podem depois ser muito difíceis de resolver".
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