Durante décadas, cientistas acreditaram ter uma resposta clara para um padrão comum: em muitas espécies de primatas, os machos costumam ser bem maiores do que as fêmeas. A explicação parecia direta - dentro de um mesmo grupo social, machos competem entre si, e um corpo maior aumentaria as chances de vencer disputas e, assim, conseguir acesso a parceiras.
Só que um estudo recente sustenta que esse foco pode ter sido estreito demais.
Segundo os autores, a pressão constante exercida por grupos vizinhos - que disputam território, recursos e oportunidades de acasalamento - pode ter um peso muito maior do que se supunha.
“"O que realmente mais me surpreendeu foi que havia, de fato, um efeito tão forte da competição entre grupos"”, afirmou o autor principal do estudo, Cyril Grueter, biólogo evolutivo da Universidade de Oxford.
“"Viver em uma paisagem de pressão crónica pode ser uma força seletiva forte para o dimorfismo de tamanho corporal"”, isto é, para as diferenças de tamanho entre machos e fêmeas.
Competição fora do grupo
Em entrevista, Grueter explicou que, quando primatólogos acompanham primatas no campo, normalmente conseguem observar apenas um grupo.
Com isso, a atenção recai sobre o comportamento e as dinâmicas sociais dentro desse grupo, e “"é mais fácil estudar a competição dentro dos grupos"”.
Essa limitação ajudou a consolidar estruturas teóricas tradicionais que priorizam a competição entre machos no interior do mesmo bando.
Em vez de voltar a testar a ideia já consagrada, Grueter e os colegas, segundo ele, “"tentaram levar essa pergunta numa direção diferente"”. “"Tentamos dar mais ênfase à competição entre grupos".”
Comparando estilos de vida de primatas
Para avaliar se a competição entre grupos distintos poderia explicar o dimorfismo de tamanho em primatas não humanos, a equipa reuniu dados comportamentais e morfológicos de 146 espécies de primatas.
O conjunto de dados abrangeu tanto primatas antropoides quanto estrepsirrinos - macacos, grandes símios, lêmures e lóris.
Para separar com mais clareza o que acontece dentro dos grupos do que ocorre entre grupos, os investigadores excluíram primatas solitários. Também retiraram informações de populações com forte oferta de alimento por humanos e de espécies que vivem fora de habitats nativos, para representar melhor condições ambientais naturais.
Os investigadores calcularam a sobreposição de área de vida (home range), definida como a percentagem do território total de um grupo que é partilhada com grupos vizinhos.
Além disso, registaram as taxas diárias de encontros entre grupos, os sistemas de acasalamento e a proporção de encontros que envolviam confrontos físicos. Em seguida, testaram o quanto cada um desses fatores conseguia prever as diferenças de tamanho corporal entre espécies.
Pressão de vizinhos molda o tamanho dos primatas
Os resultados indicaram que o sistema de acasalamento - se uma espécie é monogâmica, poligínica ou poliginândrica - não prevê o dimorfismo sexual de tamanho quando a história evolutiva dos primatas é considerada.
Já a sobreposição de área de vida e as taxas diárias de encontros entre grupos apresentaram relações positivas e claras com um dimorfismo de tamanho enviesado para machos.
Em termos práticos, espécies cujos grupos partilham uma parcela maior do território com vizinhos tendem a ter machos proporcionalmente maiores do que fêmeas. O mesmo padrão apareceu em grupos que se encontram com mais frequência ao longo do dia.
Grueter disse que, quando há mais sobreposição territorial e mais encontros, os machos ficam sob maior pressão para aumentar de tamanho.
Machos maiores conseguem dissuadir rivais com mais eficiência, monopolizar fêmeas, proteger recursos alimentares e impedir que indivíduos de fora se acasalem com membros do seu próprio grupo.
Em alguns casos, um macho dominante chega a acasalar com fêmeas de grupos vizinhos, e um macho mais forte - ou simplesmente maior - tem maior probabilidade de ter sucesso nessas disputas.
“"O dimorfismo provavelmente evoluiu como resposta a essa pressão constante que os indivíduos enfrentam por parte de competidores fora de seus grupos"”, disse Grueter.
Competição entre primatas sem combate
Mesmo quando há maior sobreposição territorial e encontros mais frequentes com grupos rivais, isso não significa que primatas necessariamente lutem mais. Alguns encontros, de facto, tornam-se agressivos e envolvem perseguições ou confrontos físicos.
No entanto, ao testar esse fator em diferentes subconjuntos de espécies, os investigadores encontraram “"nenhuma correlação entre a frequência de antagonismo nos encontros entre grupos e o dimorfismo"”, segundo Grueter.
Isso indica que a violência em si não é o motor das diferenças de tamanho corporal. Em vez disso, os autores defendem que a pressão evolutiva favorece machos maiores porque o tamanho ajuda a defender recursos e a garantir acesso a fêmeas em territórios sobrepostos.
Com o tempo, essas características físicas passam a funcionar como dissuasores. Um macho grande sinaliza competitividade, reduzindo a probabilidade de grupos rivais elevarem o encontro ao nível de conflito físico.
Para Grueter, a força central por trás do dimorfismo parece ser a pressão competitiva crónica de viver cercado por grupos vizinhos.
Essa pressão inclui vigiar o ambiente de forma constante, acompanhar competidores e grupos próximos e impedir que rivais entrem no território.
Vizinhos podem moldar a evolução?
Os achados também podem ajudar a compreender o dimorfismo em outros animais, sobretudo em espécies que vivem em grupo, como leões e aves com reprodução cooperativa.
A proposta é que a competição entre grupos vizinhos - sem necessariamente envolver lutas diretas - possa influenciar diferenças de tamanho corporal de maneiras que investigadores podem ter subestimado.
Ainda assim, os autores ressaltam que a explicação não deve valer para todos os casos. Em espécies como as hienas, nas quais as fêmeas são maiores do que os machos, outros fatores podem estar envolvidos.
“"Não sabemos se isso ocorre por competição dentro dos grupos ou entre grupos, ou talvez haja alguns fatores ecológicos em jogo"”, disse Grueter.
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