Quando imaginamos o Pacífico em mar aberto, costuma vir à cabeça um azul sem fim e pouca coisa além disso. Para quem estuda o oceano, porém, o cenário já é outro: em áreas como a Grande Mancha de Lixo do Pacífico, o acúmulo de plástico formou uma espécie de “linha de costa” artificial, muito longe de qualquer continente.
No Giro Subtropical do Pacífico Norte, o enorme sistema de correntes giratórias entre a Califórnia e o Havaí, objetos flutuantes tendem a ficar presos no giro, em vez de se dispersarem.
É nesse contexto que aparece o que se popularizou como Grande Mancha de Lixo do Pacífico: uma região que hoje reúne dezenas de milhares de toneladas de fragmentos de plástico resistentes o suficiente para continuar circulando no mar por anos.
Ideias antigas sobre a vida longe da costa
Durante muito tempo, a biologia marinha tratou as águas costeiras e o oceano aberto como dois “bairros” separados. A expectativa era que espécies costeiras permanecessem em rochas, píeres e faixas litorâneas, enquanto as espécies pelágicas seriam as únicas realmente adaptadas à vida afastada da terra.
Sabia-se que tempestades podem soltar troncos ou jangadas de algas e levar organismos costeiros para longe do litoral, mas a suposição mais comum era que esses “passageiros” acabariam morrendo, porque as condições do mar aberto seriam severas demais.
Um indício importante de que essa visão não estava completa surgiu após o Grande Tsunami do Leste do Japão. As ondas arrancaram docas, barcos e muitos objetos de plástico, colocando tudo à deriva no Pacífico.
Nos anos seguintes, partes desses detritos foram parar em praias da América do Norte e do Havaí. Ao examinarem os materiais, cientistas descobriram que várias espécies costeiras japonesas tinham permanecido vivas neles por pelo menos seis anos durante a travessia oceânica.
A constatação trouxe uma pergunta nova: essas espécies costeiras estavam apenas “de passagem” pelo oceano aberto ou começavam a estabelecer comunidades mais duradouras ali?
Estudando a Grande Mancha de Lixo do Pacífico
Para investigar essa questão, pesquisadores participaram de cruzeiros científicos no lado leste do giro. A bordo, integrantes da tripulação observavam a superfície do mar e separavam itens de plástico com pelo menos 15 centímetros de comprimento.
Ao final, foram levados para o navio 105 pedaços de plástico flutuante, incluindo garrafas, boias, caixas, redes, cordas e baldes, além de um grupo “coringa” de objetos especialmente cobertos por organismos.
Cada item foi identificado, fotografado e marcado com a posição de coleta antes de ser reservado para análises detalhadas no laboratório.
De volta ao laboratório, taxonomistas examinaram cada peça em busca de invertebrados - animais sem coluna vertebral.
A triagem revelou uma grande variedade de organismos, como cracas, caranguejos, anfípodes, briozoários, hidroides e anêmonas-do-mar.
No total, foram reconhecidos 46 tipos diferentes de invertebrados distribuídos em seis grandes grupos animais. Desses 46, 37 eram espécies costeiras e 9 eram pelágicas - ou seja, aproximadamente 80% da diversidade registrada nos detritos vinha de organismos costeiros.
Vida na Grande Mancha de Lixo do Pacífico
Ao conferirem os plásticos coletados, os pesquisadores notaram que quase tudo carregava vida, principalmente invertebrados.
Invertebrados estavam presentes em 98% dos objetos. Espécies pelágicas apareceram em mais de 94% das peças, e espécies costeiras em pouco mais de 70%.
Muitos itens reuniam, ao mesmo tempo, espécies costeiras e pelágicas - o que significa que organismos com hábitos bem distintos estavam compartilhando as mesmas “ilhas” flutuantes no meio do oceano.
Em média, cada item de plástico abrigava cerca de quatro a cinco tipos de organismos, com uma leve predominância de espécies costeiras em comparação às pelágicas.
Redes e cordas, em particular, costumavam sustentar comunidades mais densas, provavelmente porque seus muitos filamentos e pequenas frestas oferecem diversos pontos de fixação e abrigo.
Ciclos de vida no plástico
Uma das maiores dúvidas era se os organismos costeiros estavam apenas aproveitando o plástico como transporte temporário ou se conseguiam completar ali todo o ciclo de vida.
Para buscar sinais de crescimento e reprodução, a equipe procurou fêmeas incubando - fêmeas carregando ovos ou filhotes - em vários grupos de crustáceos, como anfípodes e caranguejos, e de fato as encontrou. Também foram observadas estruturas reprodutivas em hidroides.
Os cientistas ainda mediram indivíduos e registraram a variação de tamanhos encontrada em cada pedaço de detrito.
Em algumas espécies de anêmonas-do-mar e de anfípodes, apareciam lado a lado juvenis minúsculos, indivíduos de tamanho intermediário e adultos plenamente desenvolvidos na mesma superfície de plástico.
Esse padrão indica que novas gerações estavam se desenvolvendo sobre essas “jangadas”, em vez de todos terem chegado juntos a partir do litoral.
Por que certas formas de vida prosperam no plástico
Para entender por que algumas espécies lidam melhor com esse modo de vida, os pesquisadores avaliaram características que poderiam ser vantajosas sobre uma jangada de plástico.
Eles registraram se os adultos permaneciam fixos (sésseis) ou se conseguiam se deslocar e também como cada espécie se alimentava - por exemplo, filtrando partículas da água, raspando superfícies, caçando presas ou combinando mais de um desses métodos.
Muitas espécies costeiras presentes no plástico conseguiam se reproduzir de forma assexuada, essencialmente clonando a si mesmas. Além disso, suas larvas não precisavam passar muito tempo à deriva na água.
Assim, os jovens podiam crescer na mesma superfície onde os adultos já estavam. Um ciclo de vida desse tipo combina bem com uma jangada pequena e isolada de plástico, que circula lentamente dentro do giro.
Tipo de lixo e momento da coleta
Um resultado curioso foi que as comunidades pelágicas estavam fortemente associadas ao tipo de objeto plástico, enquanto as comunidades costeiras se relacionavam mais com o momento em que os detritos foram coletados durante os cruzeiros.
Em seguida, os pesquisadores compararam essas comunidades do giro com trabalhos anteriores sobre detritos do tsunami de 2011.
Muitas espécies costeiras encontradas nos plásticos do giro também haviam sido registradas em detritos do tsunami japonês que mais tarde encalharam na América do Norte e no Havaí.
Mesmo assim, os grupos mais diversos não eram exatamente os mesmos, e alguns conjuntos costeiros, como os moluscos, eram muito menos frequentes no giro.
No geral, os detritos do giro sustentaram menos espécies do que os detritos do tsunami, e as análises sugeriram que provavelmente ainda existem espécies costeiras vivendo em plásticos no giro que a ciência não registrou até agora.
Lições da Grande Mancha de Lixo do Pacífico
Em conjunto, os resultados apontam para o surgimento de uma comunidade “neopelágica” no oceano aberto - em que “neo” significa novo e “pelágico” se refere à vida em mar aberto.
Essa comunidade neopelágica inclui tanto os organismos pelágicos que já costumam viajar em objetos flutuantes quanto espécies costeiras que agora conseguem sobreviver longe da terra porque itens de plástico funcionam como moradias duráveis.
No passado, um motivo importante para espécies costeiras permanecerem perto do litoral era a falta, no oceano aberto, de superfícies rígidas flutuantes que durassem muito tempo.
Os plásticos produzidos por humanos mudaram esse cenário ao acrescentar incontáveis novas “ilhas” flutuantes para a vida costeira em águas que antes eram quase totalmente dominadas por formas de vida pelágicas.
Por isso, a poluição por plástico não é apenas um problema de lixo ou algo desagradável de ver; ela também altera onde a vida marinha consegue se estabelecer e permite que organismos costeiros sobrevivam, se reproduzam e se espalhem por distâncias enormes.
Essa descoberta pode transformar ecossistemas marinhos e a distribuição de espécies ao redor do planeta.
O estudo completo foi publicado na revista Nature Ecologia e Evolução.
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