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Golfinhos de Shark Bay usam esponjas marinhas para caçar no fundo do mar

Dois golfinhos nadando perto de um recife de coral com vida marinha colorida em águas claras.

Golfinhos selvagens foram registados em vídeo a colocar esponjas marinhas sobre o focinho, transformando-as em ferramentas para caçar junto ao fundo do mar.

Essa habilidade incomum é transmitida de pais para filhos e, pela complexidade, supera a maioria dos comportamentos observados em outros animais em vida livre.

O curioso é que a esponja altera de forma marcante os sinais acústicos que os golfinhos emitem e recebem, atrapalhando a detecção de presas com o sonar. Então fica a dúvida: por que adotar essa estratégia?

Golfinhos caçando com esponjas

Em Shark Bay, no oeste da Austrália, alguns golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops aduncus) foram filmados a apanhar esponjas marinhas e a encaixá-las sobre o bico.

O estudo foi liderado por Ellen Rose Jacobs, Ph.D., da Universidade de Aarhus, onde investiga comportamento e acústica de golfinhos.

Jacobs trabalhou em parceria com o Projeto de Pesquisa com Golfinhos de Shark Bay, da Universidade Georgetown, que acompanha esses animais desde 1984.

Ao rastrear as esponjas do fundo marinho até o focinho, os investigadores procuraram entender tanto os ganhos desse uso de ferramentas quanto os custos desse comportamento fora do comum.

Proteção contra rochas e ferroadas

Durante a caça, a esponja funciona como uma barreira, protegendo a pele sensível do focinho contra rochas cortantes e contra animais urticantes que frequentemente se escondem na areia.

Ao mesmo tempo, ela desvia os sons de “clique” usados na ecolocalização - a técnica de localizar presas ao ouvir os ecos - fazendo com que o sinal chegue deformado.

Num relatório detalhado, Jacobs descreveu a esponja como um fator que modifica as pistas sonoras enquanto o golfinho procura peixe.

“Tudo parece um pouco estranho, mas ainda dá para aprender a compensar”, disse a líder da equipa durante o trabalho de campo em Shark Bay.

Cliques, ecos e ossos da mandíbula

Os cliques usados na “linguagem” dos golfinhos passam primeiro pelo melão, um órgão rico em gordura que concentra o som para a frente, antes de ele se espalhar pela água.

Os ecos regressam pelo maxilar inferior, onde tecidos cheios de gordura conduzem as vibrações em direção ao ouvido médio e ao ouvido interno.

Quando uma esponja cobre o focinho, parte do feixe emitido e parte do eco recebido tem de atravessar o tecido da esponja duas vezes.

Essa camada adicional pode dispersar energia e borrar o tempo do sinal, obrigando o cérebro a trabalhar mais antes mesmo de a perseguição começar.

Analisando o comportamento de “esponjagem” nos golfinhos

Para verificar se os golfinhos continuavam a emitir cliques com a esponja colocada, Jacobs ouviu debaixo d’água enquanto eles vasculhavam os fundos dos canais.

As gravações de Jacobs indicaram cliques ativos, e a equipa da Universidade de Aarhus (AU) aplicou uma análise computacional baseada em física para acompanhar essas alterações no som.

Ao digitalizar esponjas reais e reconstruir as suas formas em modelos digitais, o grupo seguiu um clique desde a emissão inicial até ao eco de retorno.

Os resultados apontaram variação constante, porque cada esponja tem um formato próprio; assim, quem está a aprender enfrenta desafios novos a cada hora.

A forma importa mais do que o tamanho

Esponjas com formatos diferentes geraram assinaturas acústicas distintas, mesmo quando os golfinhos repetiam movimentos de caça semelhantes no mesmo habitat.

Esponjas em forma de cone, como Echinodictyum mesenterinum, tendiam a direcionar o clique emitido para um trajeto mais reto, enquanto esponjas do tipo “cesto”, como as do género Ircinia, espalhavam a assinatura do clique por uma área mais ampla.

Nas simulações, esse feixe mais aberto também chegava à mandíbula do golfinho com menos intensidade, o que fazia o eco regressar mais fraco e mais prolongado.

Como os golfinhos frequentemente recolhem esponjas novas, pequenas diferenças de formato podem determinar se o animal sente que a ferramenta se ajusta ao que ele precisa.

Aprender leva anos, não dias

Apenas cerca de 5% dos golfinhos observados nessa população continuaram a usar esponjas, apesar de muitos vizinhos verem as caçadas.

Os jovens permaneciam junto das mães por aproximadamente três a quatro anos, e esse período longo de ensino ajudava a consolidar uma forte memória muscular.

Como os filhotes observavam a mesma técnica milhares de vezes, grande parte da aprendizagem acontecia dentro desses laços familiares, e não em grupos mais amplos.

O acesso limitado à prática impediu a maioria dos golfinhos de treinar o suficiente para superar a confusão sensorial provocada por usar esponjas no focinho.

Por que o benefício continua elevado

Depois de dominar o movimento, a esponja permitia ao golfinho explorar canais arenosos e desalojar peixes escondidos sob detritos e pedras.

Os golfinhos empurravam o bico coberto ao longo do fundo marinho, levantando a perca-da-areia listrada, e então soltavam a esponja para perseguir a presa. As esponjas encontradas na natureza variavam do tamanho de uma bola de softball ao de um melão cantalupo, por isso a ferramenta também precisava combinar com o tipo de caça.

Como a recompensa era obter alimento que outros golfinhos não tinham conseguido, alguns poucos especialistas ainda aceitavam investir tempo para aprender essa técnica mais difícil.

Cultura com limites rígidos

O uso de ferramentas pode espalhar-se rapidamente entre animais quando acrescenta vantagem sem prejudicar outras capacidades, mas a “esponjagem” impõe uma penalização aos golfinhos que recorrem a ela.

Embora as ferramentas muitas vezes ajudem os animais a obter comida ou a evitar danos, os cientistas dedicaram bem menos atenção às dificuldades menos óbvias que podem impedir que essas ferramentas se disseminem por toda uma população.

A equipa associou a penalização de usar esponjas como ferramenta a uma curva de aprendizagem lenta, mesmo quando o retorno na caça se mantinha alto.

Esse tipo de compensação ajuda a explicar por que outras famílias de golfinhos, vivendo lado a lado com esse grupo que usa esponjas, não copiaram o comportamento, apesar do contacto frequente.

Golfinhos, esponjas e transmissão cultural

Em água turva, golfinhos caçam disparando cliques rápidos e escutando os ecos que voltam. É um sistema notável - e o comportamento de “esponjagem” mostra como ele pode ser facilmente comprometido.

Quando motores de barcos fazem o mar vibrar e a atividade humana aumenta, o ruído de fundo encobre os retornos fracos de que os golfinhos dependem.

Se, além disso, houver uma esponja sobre o focinho, o sinal torna-se ainda mais confuso. Qualquer ruído extra no ambiente pode empurrar uma caçada já difícil para além do ponto em que deixa de funcionar.

Por isso, áreas de alimentação com pouco ruído são tão importantes. Para golfinhos que, na prática, se orientam e se alimentam pelo som, o que conseguem ouvir é o que conseguem comer.

A própria esponja revela uma história maior. Uma ferramenta única, apanhada por um golfinho e transmitida adiante, acaba por definir como um grupo familiar inteiro vive. Ela influencia o que aprendem, onde caçam e como interpretam o mundo à sua volta.

Muitas perguntas continuam sem resposta. Por que alguns golfinhos escolhem certas esponjas e não outras? E, à medida que o oceano fica mais barulhento ano após ano, quais caçadores continuarão a ter sucesso e quais ficarão para trás?

São essas as linhas de investigação que os pesquisadores devem explorar a seguir.

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