Como transformar uma esfera (a Terra) em um retângulo (um mapa) sem criar uma confusão monumental? A verdade é que não dá - e a Groenlândia tira proveito disso há mais de 400 anos.
A Groenlândia vive um verdadeiro “complexo” de quem quer parecer maior do que é. No Google Maps, ela desfila com pose de continente e chega a aparentar quase o tamanho de toda a África. Só que isso é um truque geométrico gigantesco, sustentado desde 1569.
Com 2,1 milhões de km², a ilha é, sim, a maior do planeta (fora os continentes). Ainda assim, na prática, ela é 14 vezes menor do que o continente africano. Se esse “engano” cartográfico ainda resiste hoje, a culpa (ou o mérito - depende do ponto de vista) recai sobre um dos maiores cartógrafos e geógrafos da História: Gerardus Mercator. A seguir, a explicação.
Groenlândia: o erro 404 da cartografia mundial
Da esfera ao retângulo: o problema que Mercator tentou resolver
O “culpado” dessa falha visual é um flamengo genial do século XVI que tinha um objetivo bem pragmático: ajudar marinheiros a não terminarem no fundo do oceano Atlântico durante suas viagens. No caminho, Gerardus Mercator se deparou com um dilema espinhoso: como colocar a Terra numa superfície plana, se ela é (quase) esférica?
Os navegadores precisavam de um mapa fácil de manusear - muito mais prático do que uma esfera grande, difícil de apoiar e de usar numa mesa de navegação.
Para visualizar, pense em tentar achatar a casca de uma laranja: ela inevitavelmente rasga. Para evitar esses “rasgos” e manter um retângulo limpo, Mercator precisou trapacear. A solução foi esticar o mapa na horizontal, fazendo com que os meridianos (que normalmente convergem nos polos) virassem linhas paralelas.
O que a projeção conforme preserva (e o que ela destrói)
Só que, para que os continentes não parecessem esmagados, foi necessário aplicar também um esticamento vertical proporcional. Esse método é chamado de projeção conforme: ela mantém ângulos e o desenho das costas, mas abandona por completo as áreas reais. Daí o nome que carrega até hoje: projeção de Mercator.
E não existe saída “perfeita”. Como estabelece o teorema notável de Gauss (Theorema egregium), é matematicamente impossível representar a Terra sem distorção. Na projeção de Mercator, quanto mais longe do Equador, mais o fator de esticamento cresce de forma exponencial. Perto dos polos, a distorção praticamente tende ao infinito: a Groenlândia fica inflada como se estivesse “no anabolizante”, enquanto a África - assentada no Equador - permanece próxima do seu tamanho real.
Por que esse bug virou uma norma mundial?
A pergunta vale ouro: por que continuamos usando, no smartphone hiperconectado, um mapa pensado para galeões à vela da Renascença? Por simples conforto visual.
A projeção de Mercator se tornou o padrão dominante no século XIX porque preserva bem o formato dos países; acabamos acostumados a enxergar o mundo desse jeito. Só que alternativas não faltam. A projeção de Gall-Peters, por exemplo, respeita rigorosamente as áreas (logo, a África aparece enorme), mas estica os continentes para cima e para baixo, deixando tudo com um aspecto meio “escorrendo” (como costuma aparecer nas comparações).
Outras projeções: Gall-Peters, Robinson e Equal Earth
Há também a projeção de Robinson, um meio-termo usado pela National Geographic, e ainda a Equal Earth, queridinha recente de geógrafos que defendem “descolonizar” os mapas. Na prática, existem centenas de outras opções (não vamos listar todas, para não transformar este texto num catálogo), mas hoje estamos bastante presos ao modelo de Mercator.
Ainda assim, como lembra Fritz Kessler, professor de geografia da Universidade Estadual da Pensilvânia e especialista em projeções, escolher um mapa nunca deveria ser um reflexo automático. A cartografia moderna surgiu de demandas militares e, mesmo agora, um mapa continua sendo um instrumento nada neutro. “Ele serve para medir distâncias? Ângulos? Áreas? Ou para mostrar a distribuição de dados temáticos como a população?”, questiona Kessler.
Para cada finalidade existe uma projeção mais adequada. Ao insistirmos na de Mercator, aceitamos enxergar o mundo por um filtro deformante criado por um navegador da Renascença, para quem a área real da República Democrática do Congo ou do Brasil não tinha qualquer relevância.
O mapa perfeito não existe, e nem a tecnologia mais poderosa do planeta consegue consertar isso. Toda representação 2D da Terra é um ato político: privilegia um ponto de vista e rebaixa outro. Não dá para achatar uma esfera sem “trapacear” contra a realidade física - é o pecado original da cartografia. Se hoje a projeção de Mercator é criticada em alguns meios, principalmente por seu eurocentrismo, também dá para rebater dizendo que é uma acusação fácil: sem Mercator, talvez os continentes nem tivessem sido conectados entre si da mesma forma. Mesmo sem perfeição possível, é justo dar a Mercator o que é de Mercator: sua projeção ainda é a mais prática e agradável para a mente humana. Então, sim, a Groenlândia aparece grande demais no planisfério - mas, pelo menos, não vira uma panqueca achatada nem fica pendurada como uma meia molhada.
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