Camundongos geneticamente programados para desenvolver Alzheimer tiveram os sinais da doença apagados depois de um tratamento experimental. Estamos diante de um primeiro sopro de esperança para os milhões de pacientes que convivem com essa patologia grave?
Por décadas, o entendimento médico em torno da doença de Alzheimer - desde que ela foi descrita no início do século XX - seguiu uma lógica de via única: quando o diagnóstico se confirmava, o paciente estaria condenado a uma deterioração cerebral progressiva. Embora a detecção tenha avançado muito, ainda não sabemos como restaurar as funções cognitivas de pessoas afetadas.
Ainda assim, um acontecimento notável acaba de ser relatado. Pesquisadores norte-americanos da Case Western Reserve University anunciaram que conseguiram “curar” camundongos com doença de Alzheimer em estágio avançado. O trabalho, publicado em 22 de dezembro na revista Cell Reports Medicine, aponta que um cérebro danificado pela doença poderia, em determinadas condições, se reparar e voltar a funcionar normalmente. Raramente essa área de pesquisa esteve tão perto de sustentar a possibilidade de que a doença possa ser reversível algum dia.
NAD+: a “bateria” elétrica dos neurônios como caminho de cura
Durante cerca de 20 anos, boa parte da investigação científica tentou resolver o problema “varrendo” o que seria o lixo do cérebro: as placas de proteína amiloide que se acumulam em pacientes com Alzheimer. Esses depósitos tóxicos se concentram entre neurônios, acabam por sufocá-los e interrompem a comunicação cerebral. A hipótese era simples: ao eliminar esses detritos, a memória e outras capacidades voltariam - mas removê-los nunca conseguiu recriar conexões sinápticas que já tinham sido perdidas.
Por que atacar as placas amiloides não reverte o dano
Mesmo sendo a melhor alternativa terapêutica disponível por muito tempo, havia um impasse: tratava-se mais do efeito visível do que da raiz do processo. A equipe responsável por esse avanço decidiu inverter o raciocínio. Se os resíduos se acumulam, talvez seja porque os neurônios já não tenham energia suficiente para fazer a limpeza. Em vez de continuar mirando os “detritos”, eles passaram a focar a “central elétrica” das células: uma molécula chamada NAD+.
O NAD+ funciona como um combustível universal, um coenzima essencial para reações vitais em praticamente todas as células. Em pessoas com Alzheimer, esse reservatório energético despenca: sem esse motor, neurônios ficam sem “fôlego” para manter seus circuitos, controlar a inflamação e eliminar as próprias toxinas. É esse apagão de energia que, aos poucos, leva à morte das células cerebrais.
NAD+ e P7C3-A20: como o composto foi usado no estudo
Ao administrar nos camundongos um composto chamado P7C3-A20 (um agente neuroprotetor que favorece a neurogênese), os pesquisadores conseguiram “encher o tanque” de NAD+ no cérebro dos animais - mesmo quando eles já estavam severamente comprometidos pela doença. Apesar de algumas apresentarem lesões importantes, os neurônios voltaram a responder, e os camundongos recuperaram integralmente suas capacidades cognitivas.
O ser humano na mira?
Com o resultado em roedores sendo tão expressivo, surge a pergunta inevitável: algo assim poderia funcionar em humanos? Para os pesquisadores, é pouco provável que exista uma pílula única que sirva para todos. Como o Alzheimer pode começar por gatilhos muito distintos, se tratamentos vierem a existir, tendem a ser personalizados. A ideia seria que cada paciente recebesse uma combinação de medicamentos, com doses específicas para reparar o próprio cérebro.
O entusiasmo em torno da reposição de NAD+ é tão grande que até especialistas normalmente cautelosos demonstram otimismo. A professora Tara Spires-Jones (Universidade de Edimburgo) considera que poderíamos ter tratamentos capazes de devolver aos pacientes uma “vida normal” dentro de cinco a dez anos.
Outro motivo para a confiança é o fato de o P7C3-A20 ter protegido dois tipos de neurônios submetidos a agressões completamente diferentes. Ele preservou células sufocadas por placas amiloides (a forma amiloide da doença de Alzheimer) e também recuperou aquelas cujas fibras internas foram quebradas pela proteína tau (outro eixo patológico central da doença). Independentemente de como a doença estava destruindo os neurônios nos camundongos, restaurar os níveis de NAD+ pareceu dar a eles força para sobreviver e voltar a funcionar.
Limites e próximos passos antes de falar em tratamento para pessoas
Apesar do impacto dos achados, é preciso cautela: o cérebro humano é muito mais complexo do que o de um roedor, e não há garantia de que o tratamento mantenha a mesma potência quando aplicado em pacientes. Os próprios autores ressaltam que esses resultados não antecipam, por si só, o sucesso de futuros testes em pessoas, que precisarão medir não apenas a eficácia, mas também a segurança de uma administração prolongada do P7C3-A20.
Em nenhum momento os pesquisadores afirmam ter encontrado uma solução universal. Ainda assim, pela primeira vez, torna-se plausível encarar a doença de Alzheimer por uma via que não seja a de um processo necessariamente irreversível. Para os autores, isso já é motivo suficiente para defender a abertura de ensaios clínicos rigorosamente controlados em seres humanos.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário