Muitos adultos associam diversão a regras, aprendizagem ou a “comportar-se bem”. Para as crianças, porém, a brincadeira costuma ser percebida por outro ângulo.
Um estudo recente da Universidade de Aarhus e da Faculdade Universitária VIA indica que uma boa brincadeira não depende de fazer tudo “do jeito certo”. O que pesa mesmo é como a criança se sente naquele instante.
Grande parte das pesquisas anteriores se concentrou em como os adultos imaginam que a brincadeira deveria ser. Aqui, a lógica foi diferente.
Em vez de observar as crianças apenas de fora, os investigadores partiram da ideia de que elas são especialistas nas próprias vivências - e perguntaram diretamente sobre momentos reais de brincar.
As crianças relataram lembranças positivas e negativas. Esses relatos deixaram claro que brincar não é algo simples ou fixo: varia conforme emoções, companhias e circunstâncias.
Ver a brincadeira por outra perspetiva
Os investigadores também concluíram que a brincadeira é multifacetada e pode reunir vários elementos ao mesmo tempo.
“Perhaps we have made the first steps to describing the magic and intangible thing we call play in a very new way,” disse o doutor Andreas Lieberoth, da Universidade de Aarhus, autor principal do estudo.
“Isso pode ajudar educadores e cuidadores a incentivar diferentes tipos de brincadeira, mesmo quando não são ‘feitos direito’, ‘educativos’ ou sequer ‘agradáveis’ de acordo com os padrões dos adultos.”
Estudar como as crianças brincam
Primeiro, a equipa conversou com 104 crianças e recolheu histórias concretas sobre brincadeiras. Depois, transformou essas histórias em afirmações curtas que descreviam diferentes situações de brincar.
Em seguida, centenas de outras crianças avaliaram essas ideias com base nas próprias experiências. Com esse procedimento, foi possível identificar padrões que se repetiam em muitos participantes.
Em vez de analisar uma criança de cada vez, o estudo procurou experiências partilhadas. Os resultados sugerem que crianças de escolas e faixas etárias diferentes costumam descrever a brincadeira de maneiras semelhantes.
Os investigadores também criaram uma ferramenta chamada Inventário de Qualidades da Brincadeira. Ela serve para medir o quão boa ou ruim uma experiência de brincar parece do ponto de vista da criança.
Elementos-chave de uma boa brincadeira
O estudo apontou sete fatores principais que moldam a brincadeira: sensação de brincadeira, inclusão, imaginação, brincadeiras agitadas e empolgantes, ter algo para fazer, acessibilidade e tontice ou quebra de regras.
Entre todos, a sensação de brincadeira foi o fator mais importante. Ela envolve emoções como alegria, entusiasmo ou tédio.
As crianças descreveram as boas brincadeiras como momentos em que riem, sorriem e se sentem felizes. Já as más brincadeiras são vividas como algo entediante, irritante ou até triste por dentro.
“If you have ever felt it, you know what it means,” disse Lieberoth.
“You know it when you see it, like love, evil, or fun. In the words of kids, it’s an experience where you feel that’s ‘just totally perfect’, and maybe you ‘just laugh’ or ‘get a smile on your mouth.'”
“When the feeling is not there, play is ‘annoying’, ‘boring’, or maybe you ‘think the rules should be different’.”
Por que sentimentos e inclusão importam
De acordo com o estudo, uma boa brincadeira muitas vezes depende de pontos básicos: a criança precisa sentir que faz parte e precisa ter algo para fazer. Também ajuda quando entrar na atividade parece fácil e natural.
Quando uma criança se percebe excluída, a brincadeira degrada rapidamente. A pesquisa descreve isso como desarmonia social - quando alguém não consegue participar, é ignorado ou se sente desconectado do grupo.
Outro aspeto central é a acessibilidade. Uma boa brincadeira abre espaço para que todos entrem e experimentem. As crianças tendem a gostar de atividades em que se sentem capazes e percebem que podem melhorar com o tempo.
O papel da imaginação e das brincadeiras agitadas
Brincar nem sempre é calmo ou silencioso. Muitas crianças preferem brincadeiras imaginativas e cheias de energia. O estudo mostra que a imaginação permite explorar ideias fora da vida real. Por exemplo, a criança pode fingir que está num mundo de zombies ou encenar histórias de fantasia.
As brincadeiras agitadas e físicas também têm um papel importante. Correr, gritar e fazer jogos corporais pode ser empolgante. Ao mesmo tempo, esse tipo de brincar pode ficar desconfortável quando passa do ponto e se torna brusco demais.
Curiosamente, para algumas crianças, quebrar regras ou ser um pouco travesso aumenta a diversão. O estudo chama isso de tontice e transgressão. Para uns, essa liberdade é divertida; para outros, pode dar medo ou causar desconforto.
“In many cases, good play will have no transgression,” disse Lieberoth. “But in some cases, what really makes play fun and special is the ability to go nuts, tease each other, and generally flout the norms of society – or the playground.”
Quando a brincadeira fica ruim
O estudo detalha com clareza o que estraga a brincadeira. Os maiores problemas são não ter o que fazer e sentir-se de fora. Esses dois fatores aparecem fortemente ligados a experiências negativas.
Outra fonte de frustração surge quando os adultos controlam demais. Com frequência, as crianças sentem que atividades guiadas por adultos não são brincadeira de verdade - parecem tarefa de escola.
“Some of the factors we discovered showed the anti-play kryptonite many of us can recognize from childhood or painfully awkward team-building exercises,” disse Lieberoth.
“The absence of alignment is highest on my personal list. I have seen many well-intentioned adults try to interject a hapless kid into someone else’s game, basically ruining the shared alignment.”
“Sometimes an adult is needed to scaffold, initiate, inspire, and support, but sometimes they should shut up and go away.”
Crianças diferentes, brincadeiras diferentes
Nem toda criança gosta do mesmo tipo de brincadeira. Algumas preferem atividades tranquilas e criativas; outras gostam de jogos barulhentos e físicos. Um único modelo de brincar não serve para todos.
“Adults should stop explaining to children how they ought to play, and put faith in children’s ability to work things out,” disse a coautora doutora Hanne Hede Jørgensen, da Faculdade Universitária VIA.
“We don’t make space for either good or bad play – and we must make space for both, because good play to one child might be bad to another.”
Um novo jeito de pensar a brincadeira
Esta pesquisa muda a forma de compreender a brincadeira. Ela sugere que a boa brincadeira não gira em torno de regras ou metas de aprendizagem, e sim de sentimentos, liberdade e ligação com os outros.
Alguns elementos parecem comuns a muitas crianças - como sentir-se feliz e incluída. Outros, por sua vez, dependem de quem está a brincar e do contexto.
No fim, as crianças não precisam de jogos perfeitos. Elas precisam de espaço para explorar, escolher e viver o momento. Quando riem, se sentem incluídas e permanecem envolvidas, a brincadeira ganha significado. É isso que realmente torna a brincadeira boa.
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