Quase mil anos antes de os Incas dominarem boa parte da América do Sul, outro povo já ocupava as grandes altitudes andinas. Um grupo de arqueólogos localizou vestígios dessa sociedade no fundo do lago navegável mais alto do mundo, no mesmo cenário onde, séculos depois, os futuros senhores dos Andes fariam oferendas aos seus deuses.
O império inca e a expansão pelos Andes
Quando Francisco Pizarro - o conquistador espanhol que havia mandado executar o imperador Atahualpa no ano anterior - tomou Cuzco, em 1533, ele pôs fim a um império com pouco mais de um século. O Tahuantinsuyu (literalmente, “o império das quatro regiões”) desmoronou com uma rapidez comparável à de sua construção. Tratava-se de uma civilização que, desde 1430, se estendeu por cerca de 4 000 quilômetros de cordilheira, da atual Colômbia até o centro do Chile, incorporando o Peru, a Bolívia, o Equador e o noroeste da Argentina.
Esse avanço foi fulminante, sustentado por 40 000 quilômetros de estradas e por uma proposta “diplomática” apresentada aos povos andinos: entrar em seus domínios por vontade própria - ou pela força. Diante de recusas, aldeias eram saqueadas, senhorios eram eliminados, sobreviventes eram deportados a mil quilômetros de suas terras e sua mão de obra era requisitada para erguer a infraestrutura do reino. Em menos de cem anos, os Incas montaram o maior império que a América pré-colombiana já conheceu, erguido sobre o sangue dos povos andinos.
Titicaca antes dos Incas: santuário tiwanaku
Na prática, um dos lugares mais sagrados dos Incas - o lago Titicaca - já era um centro religioso importante quinhentos anos antes da chegada deles, organizado por uma sociedade sobre a qual sabemos muito pouco: os Tiwanaku. Essa cultura se desenvolveu entre 500 e 1100 de nossa era e, no auge, reuniu entre 10 000 e 20 000 pessoas. Em abril de 2019, um artigo publicado na revista PNAS devolveu parte dessa história ao público, com base em uma campanha de escavações subaquáticas no fundo do famoso lago.
Tiwanaku: esquecidos sob as águas
O sítio fica no recife de Khoa, uma plataforma rochosa submersa nas águas do lago, a pouca distância da Isla del Sol, uma pequena ilha do lado boliviano. A equipe, liderada por José Capriles, antropólogo da Universidade Estadual da Pensilvânia, trabalhou ali por dezenove dias: primeiro mapeou o fundo com sonar e fotogrametria 3D subaquática e, em seguida, dragou os sedimentos. O resultado foi um achado excepcional: queimadores de incenso esculpidos em forma de puma, fragmentos de carvão e ornamentos de ouro, concha e pedra.
O conjunto foi datado entre os séculos VIII e X (período equivalente à Alta Idade Média na Europa), portanto meio milênio antes de o primeiro Inca pisar nas margens do lago. Todos os artefatos foram lançados ali de maneira deliberada: depositados a partir de embarcações, afundavam até o leito. Ainda assim, a equipe não conseguiu esclarecer o significado do ritual, já que os Tiwanaku não deixaram registros escritos.
Entre os Incas, aparece uma prática semelhante: oferendas entregues às águas do Titicaca, no mesmo setor do lago. Nada permite afirmar, porém, que exista ligação entre os dois costumes; é um enigma que, provavelmente, jamais será decifrado.
Durante as escavações, quatro carcaças de lhamas jovens também foram retiradas, animais abatidos no próprio local ou nas proximidades. O sacrifício de animais era um dos principais gestos rituais no mundo andino e, entre os Incas, as lhamas simbolizavam a oferta mais valiosa que um ser humano podia devolver às potências celestes.
Ainda assim, tudo o que se conhece sobre o significado simbólico das lhamas vem de textos espanhóis descrevendo os Incas, escritos muito depois dos fatos: transportar essa interpretação para os Tiwanaku seria um atalho metodológico arriscado, já que as duas sociedades existiram em épocas e contextos espirituais profundamente distintos.
O que os achados Tiwanaku sugerem sobre sua expansão
Embora o que sabemos sobre os Tiwanaku ainda seja, por ora, bastante limitado, para os autores do estudo a natureza dos objetos recuperados e o lugar em que foram encontrados constituem dois indícios de que a sociedade estava em fase de expansão. Mesmo sem compreendermos seu sentido, as cerimônias mostram que eles tinham recursos para realizá-las. As lhamas eram animais de carga valiosos, sem equivalentes nos Andes; as conchas vieram do Oceano Pacífico e certamente viajaram por meses ao fim de uma travessia difícil pelas montanhas; os queimadores de incenso e os adornos exigiam artesãos afastados do trabalho agrícola e, portanto, sustentados pelo esforço produtivo de outras pessoas. Além disso, como o recife de Khoa é invisível a partir das margens, alcançá-lo demandava embarcações e homens capazes de localizá-lo.
Assim, mesmo com uma população incomparavelmente menor do que a do império que viria depois, os Tiwanaku tinham capacidade de agir como uma pequena potência sem ter gente em número; eles desapareceram por volta do ano 1100, e até hoje ninguém sabe por quê.
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