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O tear de Cabezo Redondo da Idade do Bronze preservado há 3.500 anos

Jovem examina e alinha vasos de cerâmica em sítio arqueológico ao ar livre com caderno e ferramentas.

Um incêndio repentino pode arrasar um povoado inteiro - mas, em situações raras, também consegue proteger o passado. Foi o que aconteceu há cerca de 3.500 anos, quando um assentamento da Idade do Bronze chamado Cabezo Redondo, na atual Espanha, enfrentou um fogo desse tipo.

Enquanto casas e oficinas eram consumidas pelas chamas, o mesmo episódio acabou conservando um objeto incomum, feito em grande parte de madeira: um tear. A descoberta oferece uma visão nítida de como os têxteis eram produzidos na Antiguidade.

Uma equipa de investigação da Universidade de Granada e de institutos parceiros analisou o tear preservado, considerado um dos exemplares mais completos da Idade do Bronze já identificados na Europa.

Como o fogo protegeu o tear

Madeira e fibras vegetais tendem a degradar-se com o tempo, o que torna os teares antigos especialmente difíceis de examinar. Neste caso, porém, o incêndio gerou um ambiente “selado”. O telhado cedeu e, ao desabar, cobriu rapidamente o tear e os materiais ao redor.

“A queda do teto foi crucial, resultando num espaço selado em que a área foi destruída de forma súbita e imediatamente soterrada, permitindo a sua preservação”, explicou o coautor do estudo, o professor Gabriel García Atiénzar.

A madeira carbonizada, os pesos de barro e as fibras permaneceram presos sob os escombros. O fogo ocorreu por volta de 1450 a.C., quando o tear ainda estava em uso. Assim, o achado revela uma montagem real de trabalho, e não apenas vestígios dispersos.

Encontrando o tear no povoado

Os arqueólogos localizaram o tear sobre uma plataforma elevada ligada a várias casas. Nesse mesmo espaço havia também ferramentas, recipientes e outros itens ligados ao quotidiano. Um agrupamento denso de pesos de argila foi decisivo para reconhecer o equipamento.

“Embora o tear tenha sido recuperado numa área colapsada e algumas peças estivessem em falta, o conjunto compacto de 44 pesos cilíndricos com perfuração central é característico de um tear vertical de urdidura com pesos”, observou o coautor Ricardo Basso.

No total, foram identificados 49 pesos de tear, sendo que a maioria pesava cerca de 200 gramas (aprox. 7 onças). Esses pesos tinham uma função essencial: manter os fios esticados durante a tecelagem.

Como o tear foi construído

O conjunto incluía vigas de madeira, pesos de argila e fibras vegetais. As peças de madeira estavam dispostas de forma organizada: elementos mais grossos provavelmente compunham a armação vertical, enquanto os mais finos funcionavam como apoios.

As vigas apareceram deitadas paralelamente a uma parede, um detalhe que ajuda a reconstituir como o tear ficava montado. Algumas partes, inclusive, encaixavam-se em ângulos, sugerindo com mais clareza o modo de montagem da estrutura.

Também foram encontradas fibras de esparto amarradas à madeira e introduzidas nos orifícios dos pesos. É provável que essas fibras servissem para prender fios ao tear.

“A preservação dos elementos orgânicos deveu-se ao incêndio que carbonizou os restos… Paradoxalmente, o fogo destruiu e preservou o sítio ao mesmo tempo”, disse a coautora Yolanda Carrión Marco, da Universidade de Valência.

Que tipo de tecido ele produzia

O tear tinha capacidade para fabricar diferentes tipos de tecido. O peso e as dimensões dos pesos do tear regulavam a tensão dos fios e o espaçamento entre eles.

Com duas fileiras de pesos, seria possível fazer uma tecelagem simples em trama lisa (tafetá), mais leve e ligeiramente aberta. Já com quatro fileiras, o equipamento conseguiria produzir uma sarja mais fechada e trabalhada.

Essa versatilidade indica que os habitantes de Cabezo Redondo dominavam bem a tecelagem e eram capazes de obter vários tipos de têxteis.

A revolução têxtil da Idade do Bronze

Este tear integra um processo mais amplo, conhecido como revolução têxtil. Durante a Idade do Bronze, houve aperfeiçoamento das ferramentas de tecelagem e aumento da produção de tecidos.

Ricardo Basso explicou que a revolução têxtil resultou da combinação de diferentes processos, incluindo a expansão da criação de animais para produção de lã, inovações técnicas e transformações sociais.

Os investigadores também observaram uma tendência para pesos de tear mais leves em comparação com períodos anteriores. Isso sugere que se passou a fabricar tecidos mais finos, possivelmente com uso mais frequente de lã.

Essa mudança representou um passo importante no desenvolvimento do vestuário e do comércio.

Uma atividade social partilhada

A posição do tear ajuda a entender a vida diária no assentamento. Ele estava num espaço externo partilhado, ligado às casas próximas. Isso aponta para a tecelagem como uma atividade feita em grupo.

“Isto indica que diferentes grupos domésticos podem ter colaborado em atividades como fiar, tecer e moer”, apontou a coautora Paula Martín de la Sierra, da Universidade de Alicante.

Pesos de tear encontrados em diversas casas do sítio reforçam que a produção têxtil era comum e fazia parte das tarefas do dia a dia.

Restos humanos do local acrescentam mais pistas. Dentes de esqueletos femininos exibem padrões associados ao trabalho têxtil. É provável que as mulheres usassem os dentes para segurar fibras ou cortar fios.

O conjunto dessas evidências indica que as mulheres desempenhavam um papel central na tecelagem. A produção de têxteis não era apenas uma tarefa doméstica, mas também uma atividade económica relevante.

Por que Cabezo Redondo é importante

Cabezo Redondo era um grande assentamento, com ligações comerciais robustas. Objetos como ouro, marfim e contas de vidro mostram que o povoado participava de amplas redes de troca.

Os investigadores descrevem o sítio como “um laboratório excecional para estudar a evolução técnica e social dos têxteis no segundo milénio a.C.”.

Como este tear preserva, em conjunto, madeira, fibras e pesos, ele permite analisar a tecelagem antiga com um nível de detalhe muito maior.

Direções para pesquisas futuras

O achado abre novas frentes de investigação. Cientistas podem examinar fibras, animais e ferramentas para compreender melhor a produção têxtil e as matérias-primas utilizadas.

O tear de Cabezo Redondo destaca-se como um dos exemplos mais completos da tecnologia têxtil antiga. Ele mostra de que forma habilidade, conhecimento de materiais e trabalho coletivo moldavam o quotidiano de há milhares de anos.

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