O biochar vem sendo encarado há anos como uma solução climática promissora que, na prática, encontra dificuldade para ganhar escala. A lógica é direta: transformar biomassa vegetal numa forma estável e rica em carbono e incorporá-la ao solo, onde esse carbono pode ficar retido por décadas ou até séculos.
O entrave, historicamente, tem sido a oferta. Com frequência, não há biomassa residual suficiente - e nos locais certos - para sustentar o biochar em grande escala.
Pesquisas recentes indicam que a China pode contornar essa limitação ao cultivar culturas de bioenergia em terras agrícolas abandonadas e convertê-las em biochar. Se a estratégia se confirmar, o biochar pode se tornar escalável e muito mais barato do que diversas alternativas de remoção de carbono.
"Nosso trabalho mostra que integrar culturas de bioenergia ao sistema pode expandir significativamente seu potencial, mantendo os custos baixos", afirmou o autor correspondente Wei Li, da Universidade Tsinghua.
Principais vantagens de carbono do biochar
Muitas propostas de remoção de carbono acabam sendo caras, complexas - ou as duas coisas ao mesmo tempo. Há abordagens que dependem de grandes plantas industriais, consumo elevado de eletricidade, armazenamento subterrâneo de longo prazo ou sistemas de monitoramento que dificultam uma expansão rápida.
Com o biochar, a dinâmica é outra. Durante o crescimento, as plantas retiram CO2 da atmosfera. Em seguida, a pirólise converte parte do carbono da biomassa numa forma mais resistente e estável. Em vez de voltar ao ar, esse carbono é colocado e mantido no solo.
Além disso, existem benefícios paralelos que ajudam a sustentar o argumento para além do clima. O biochar pode aumentar o carbono orgânico do solo, melhorar a retenção de nutrientes e, em alguns casos, reduzir emissões de gases de efeito estufa como o óxido nitroso.
Na prática, o investimento não se limita à remoção de carbono: ele também pode reforçar o desempenho agrícola e diminuir a poluição associada à atividade no campo.
O grande problema de oferta do biochar
Atualmente, a maior parte do biochar é produzida a partir de resíduos agrícolas e florestais. É uma fonte conveniente, porque a biomassa já existe, mas esse modelo estabelece um teto para o quanto a tecnologia consegue crescer.
Outro ponto é que esses resíduos estão espalhados por extensas áreas, e o transporte de material vegetal volumoso por longas distâncias rapidamente encarece a operação.
O estudo levanta uma pergunta central: e se o biochar não dependesse apenas de sobras? E se fosse possível criar um fornecimento previsível de biomassa ao cultivar culturas energéticas voltadas para esse fim, sem competir com a produção de alimentos? É aí que entram as terras agrícolas abandonadas.
Testando o biochar em escala
Para avaliar esse sistema baseado em cultivo + biochar, a equipe trabalhou com restrições do mundo real. Entre elas estavam a localização de usinas de energia a biomassa na China, as redes de transporte e condições realistas de cadeia de suprimentos.
A estimativa aponta que o uso de culturas de bioenergia cultivadas em terras agrícolas abandonadas poderia viabilizar cerca de 25.8 million tons de remoção de CO2 por ano via biochar.
Não é um valor desprezível. Ele também é, em termos gerais, semelhante ao que o biochar consegue entregar quando utiliza resíduos agrícolas e florestais - tradicionalmente a principal matéria-prima.
A proposta não é substituir os resíduos, e sim criar uma segunda fonte de suprimento, para que o biochar deixe de ficar limitado pela disponibilidade de matéria-prima.
Abrindo a conta dos custos
Um resultado chama atenção. Segundo o estudo, produzir biochar por meio dessa abordagem integrada custa em torno de $9.6 por tonelada de CO2 removido.
Os autores comparam esse número ao BECCS (bioenergia com captura e armazenamento de carbono), uma rota de remoção de carbono mais dependente de infraestrutura.
Na análise, o BECCS fica em aproximadamente $90.9 por tonelada. Em alguns arranjos, ele pode remover um pouco mais de carbono, porém exige equipamentos de captura caros, além de transporte e capacidade de armazenamento. Esse pacote de custo e complexidade tende a ser um obstáculo quando a prioridade é crescer rapidamente.
"Custo é um fator crítico para a implantação em larga escala", escreveram os autores.
"O biochar se destaca porque entrega uma remoção de carbono relevante por uma fração do custo de tecnologias alternativas."
Para estratégias nacionais de remoção de carbono, essa diferença de preço é decisiva. Ela separa um projeto-piloto de uma solução que poderia ser adotada amplamente."
Até onde o biochar poderia chegar
O trabalho também examina o que ocorreria se o sistema fosse otimizado e ampliado. Isso envolveria plantar mais culturas energéticas, elevar a oferta de biomassa e construir unidades adicionais de pirólise onde fizer sentido.
Nesse cenário de limite superior, os pesquisadores estimam que o biochar na China poderia, em tese, alcançar até 1.88 billion tons de remoção de CO2 por ano.
É evidente que isso não é uma realidade de curto prazo - depende de disponibilidade de terra, expansão de infraestrutura e apoio contínuo de políticas públicas. Ainda assim, serve para demonstrar que o biochar não precisa permanecer pequeno.
Se cadeia de suprimentos e investimentos se alinharem, ele pode se tornar uma alavanca importante, e não apenas um complemento de nicho.
O papel das terras agrícolas abandonadas
O estudo destaca o leste e o nordeste da China como regiões com potencial especialmente alto, em grande parte por combinarem recursos de biomassa com infraestrutura já existente. Isso é crucial, porque custos de transporte, muitas vezes subestimados, podem definir o sucesso ou o fracasso da economia do biochar.
A escolha por terras agrícolas abandonadas também é intencional. Projetos de bioenergia podem gerar controvérsia quando competem com a produção de alimentos.
Ao direcionar o cultivo de culturas energéticas para áreas subutilizadas, a proposta busca reduzir esse conflito e tornar a expansão mais viável do ponto de vista político.
Não é uma solução perfeita - áreas "abandonadas" podem manter valor ecológico ou usos locais -, mas é um ponto de partida mais realista do que converter terras produtivas.
Barreiras para escalar o biochar
Os pesquisadores estão otimistas, mas reconhecem que isso não é algo que simplesmente se conecta e funciona. Para escalar o biochar, seria necessário investir em infraestrutura de pirólise, integrar melhor a prática aos sistemas de energia e agricultura já existentes e assegurar cadeias de suprimento de biomassa confiáveis.
Incentivos de política pública e de mercados de carbono também teriam peso relevante, ao criar razões para agricultores e empresas adotarem e manterem a prática.
"Nossas conclusões sugerem que o biochar, especialmente quando combinado com culturas de bioenergia, pode se tornar uma pedra angular de estratégias de mitigação climática", disseram os pesquisadores.
"Com as políticas e os investimentos adequados, ele tem potencial para oferecer benefícios ambientais e econômicos."
Perspectivas para o biochar
Este estudo reposiciona o biochar: de uma ideia atraente, mas difícil de escalar, para uma alternativa que pode crescer consideravelmente se o fornecimento de biomassa for tratado como o desafio central.
O cultivo de culturas de bioenergia em terras agrícolas abandonadas poderia ampliar muito o biochar, mantendo os custos relativamente baixos - pelo menos no papel.
Como o biochar também favorece a saúde do solo, ele não funciona como uma ferramenta climática de finalidade única. Em vez disso, oferece uma estratégia de remoção de carbono que pode caminhar junto com ganhos para a agricultura.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário