E se as florestas estiverem a fazer muito mais pelo clima do que imaginávamos? Um novo estudo indica que certas florestas conseguem guardar, de forma silenciosa, enormes quantidades de carbono - bem acima do que a ciência considerava até há pouco.
Essa descoberta muda a forma como entendemos as mudanças climáticas e o papel que as florestas desempenham no combate ao aquecimento global.
Florestas de crescimento antigo guardam carbono “invisível”
Um amplo estudo publicado na revista Science mostra que florestas de crescimento antigo na Suécia armazenam muito mais carbono do que florestas manejadas.
Cientistas da Universidade de Lund e da Universidade de Stanford observaram que, por serem pouco ou nada perturbadas, essas florestas acumulam entre 78% e 89% mais carbono. Esse carbono está distribuído entre árvores vivas, madeira morta e, sobretudo, camadas profundas do solo.
“O resultado mais surpreendente é a grande quantidade de carbono armazenada no solo de florestas de crescimento antigo. É o mesmo montante que todo o carbono das florestas manejadas - árvores, madeira morta e solo, juntos”, disse Anders Ahlström, da Universidade de Lund.
Na prática, o trabalho reforça que o valor climático real de uma floresta vai muito além do que é possível ver acima do chão.
Quase uma década de pesquisa
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores dedicaram quase dez anos à coleta e à organização de dados. O primeiro obstáculo foi localizar florestas de crescimento antigo em todo o território sueco, já que não existia um mapa nacional que as identificasse. O critério era encontrar áreas com pouca ou nenhuma interferência humana.
Depois dessa etapa de mapeamento, a equipa realizou trabalho de campo em várias regiões do país. Foram escavados quase 220 poços no solo, cada um com 1 metro de profundidade, para medir quanto carbono estava guardado abaixo da superfície.
Além disso, os cientistas analisaram mais de 200 parcelas florestais e integraram essas informações com registos nacionais de florestas e modelos avançados.
Com esse conjunto de dados, o estudo montou um dos retratos mais completos já produzidos sobre armazenamento de carbono em florestas.
O solo guarda mais carbono do que as árvores
É comum pensar que a maior parte do carbono de uma floresta fica nas árvores. A pesquisa mostra que essa visão é incompleta: nas florestas de crescimento antigo, uma fatia enorme do carbono está no solo.
“Há muito mais carbono no solo do que nas árvores nessas florestas boreais de crescimento antigo”, observou Rob Jackson, da Stanford Doerr School of Sustainability.
Em algumas áreas, o solo concentra cerca de 64% do carbono total. As árvores respondem por aproximadamente 30%, e a madeira morta fica com o restante.
Isso também significa que qualquer dano ao solo florestal pode libertar grandes quantidades de carbono para a atmosfera.
Florestas manejadas ficam aquém
Em muitos casos, florestas de crescimento antigo acabam substituídas por florestas manejadas, frequentemente com uma única espécie e conduzidas com foco em produção de madeira. Embora essas áreas também armazenem carbono, a quantidade é consideravelmente menor.
O estudo aponta que, mesmo quando se contabiliza o carbono presente em produtos de madeira - como papel e bioenergia -, as florestas manejadas ainda ficam muito atrás das florestas de crescimento antigo.
“O carbono armazenado em produtos de madeira de florestas exploradas é relativamente pequeno e nem sequer compensa a diferença na madeira morta, quanto mais as diferenças em árvores vivas e solo”, afirmou Didac Pascual, da Universidade de Lund.
Grande parte desses produtos tem vida útil curta. No caso do papel e da bioenergia, o carbono regressa ao ar rapidamente.
Um impacto climático muito maior
A distância entre o carbono armazenado por florestas de crescimento antigo e por florestas manejadas revelou-se bem maior do que estimativas anteriores sugeriam. Segundo os autores, essa diferença é de 3 a 8 vezes superior ao que se acreditava.
Os investigadores calculam que o “déficit” equivalente corresponde a cerca de 211 anos das atuais emissões suecas de dióxido de carbono fóssil. Em termos simples, as florestas de crescimento antigo guardam um volume de carbono que levaria séculos de emissões para ser igualado.
Se a Suécia restaurasse florestas manejadas até níveis comparáveis aos de florestas de crescimento antigo, quase 8 bilhões de toneladas de dióxido de carbono poderiam deixar de ir para a atmosfera. O dado ilustra o potencial das florestas para desacelerar as mudanças climáticas.
A perda de florestas é rápida
Apesar desse valor, as florestas de crescimento antigo continuam a desaparecer. Na Suécia, a taxa de perda foi de 1.4% ao ano entre 2003 e 2019 - um ritmo superior ao observado para florestas primárias em partes da Amazónia.
Monitorizar essa perda no norte é um desafio: vistas do espaço, florestas manejadas e florestas naturais podem parecer muito semelhantes, já que frequentemente incluem as mesmas espécies, como abetos e pinheiros.
“Infelizmente, o corte de florestas primárias na Suécia continua”, disse Anders Ahlström. Essa redução constante limita a capacidade do planeta de armazenar carbono.
Por que florestas antigas importam
As florestas de crescimento antigo funcionam como uma referência natural, por mostrarem como os ecossistemas se comportam sem interferência humana. Ao compará-las com florestas manejadas, os cientistas conseguem medir com mais clareza como mudanças no uso da terra alteram o armazenamento de carbono.
“Comparar o armazenamento de carbono em florestas de crescimento antigo e florestas manejadas é crucial, porque medições contemporâneas de absorção de carbono podem não captar grandes perdas históricas de carbono”, disse Ahlström.
Essa perspetiva de longo prazo ajuda a dimensionar o impacto total da ação humana sobre as florestas e o clima.
Proteger florestas para o futuro
O estudo deixa um recado relevante para a ação climática: proteger florestas de crescimento antigo pode trazer benefícios para o clima maiores do que se imaginava. Além disso, permitir que florestas degradadas se regenerem também aumenta, ao longo do tempo, a capacidade de armazenamento de carbono.
“Converter florestas de crescimento antigo reduz o armazenamento de carbono da paisagem mais do que se acreditava. Proteger as florestas de crescimento antigo remanescentes e permitir que florestas não manejadas se recuperem pode fornecer benefícios climáticos substancialmente maiores do que estudos anteriores mostraram”, disse Didac Pascual.
Agora, os cientistas investigam o que torna essas florestas tão eficientes. Uma das hipóteses envolve micróbios do solo que ajudam a manter o carbono armazenado. Compreender esse mecanismo pode, no futuro, orientar melhorias em florestas manejadas.
No fim, a mensagem é clara: florestas não são apenas árvores. Elas formam sistemas poderosos de armazenamento de carbono - e protegê-las pode ser uma das formas mais eficazes de enfrentar as mudanças climáticas.
Crédito do vídeo: Universidade de Lund
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