A Sony decidiu colocar um ponto final na venda de jogos físicos - e, diante da comoção entre jogadores, a classe política já começou a tentar capitalizar o assunto.
Em 1º de julho, a Sony fez um anúncio que pegou muita gente de surpresa: a partir de janeiro de 2028, nenhum novo jogo de PS5 será vendido em disco. A empresa pretende oferecer todos os lançamentos apenas em formato digital. É uma mudança grande - para muitos, histórica - no mercado de videogames, e não demorou para a indústria e o público reagirem. No campo político, as primeiras manifestações também vieram rapidamente.
A decisão da Sony para o PS5 e o fim dos discos
O primeiro político a se posicionar publicamente foi Jean-Luc Mélenchon. Em uma publicação no X (antigo Twitter) feita em 2 de julho, o líder do partido La France insoumise criticou a estratégia da gigante japonesa, sustentando que jogos comprados digitalmente deixam de “pertencer” ao consumidor. Ele promete, se eleito, “abrir o canteiro de obras” do tema. Na prática, defende uma lei que reconheça o videogame como o bem cultural que ele é e que devolva poder ao consumidor - independentemente de o jogo estar em disco ou ser digital:
"Com GTA 6 sem disco em 2026 e o anúncio da Sony do fim das vendas de discos físicos para jogos em 2028, surge a questão de como consideramos esses produtos.
Amanhã, você vai pagar sem nunca possuir nada. Nada de empréstimo, nada de revenda, nenhuma garantia de manter o que foi pago. O videogame não é uma simples mercadoria, é um bem cultural e o direito vigente deve se aplicar a ele.
Abriremos o canteiro de obras em 2027. Jogadoras e jogadores também têm direitos!"
No mérito, é difícil não concordar com essa leitura. Ao mesmo tempo, o público já se acostumou a ver políticos reagindo - às vezes até exagerando - conforme o noticiário, em uma sequência de promessas que muitas vezes não obriga ninguém a nada, especialmente em ambientes eleitorais como o francês. Ainda assim, é justo reconhecer o fato: por enquanto, Jean-Luc Mélenchon é o único dirigente político francês a se colocar de forma clara sobre o “caso Sony”. Ele também está entre os poucos que citam videogames com frequência. É bem provável que outros partidos tentem aproveitar o embalo.
Um político consegue obrigar a Sony a vender jogos em disco?
Se Jean-Luc Mélenchon - ou qualquer outro - fosse eleito, ele poderia forçar a Sony a comercializar jogos em disco na França? Isso esbarraria na liberdade do comércio e da indústria, prevista na Constituição (da qual deriva a liberdade de empreender, reconhecida como de valor constitucional pelo Conselho Constitucional desde 1982), além das liberdades garantidas pela União Europeia no âmbito do mercado único. Ainda assim, é sabido que, com vontade política, leis podem mudar com rapidez.
Preservação de jogos comprados: um debate já em curso
Também vale lembrar que a defesa do jogo físico não é um tema inédito no ativismo. Um exemplo é o movimento internacional Stop Killing Games, que atua pela preservação dos jogos adquiridos - sejam físicos ou digitais. Algumas semanas atrás, uma petição nessa linha foi apresentada à Comissão Europeia, que admitiu ter pouco poder para garantir que determinados títulos continuem jogáveis:
"A Comissão considera que, neste estágio, não pode propor uma obrigação legal de manter a jogabilidade dos jogos de videogame após o fim de sua comercialização. Isso também se deve aos direitos de propriedade intelectual existentes. De acordo com o direito autoral da UE, os titulares de direitos se beneficiam de direitos exclusivos sobre suas criações."
Na prática, se Mélenchon quiser legislar, terá pela frente um verdadeiro percurso jurídico de alta complexidade para constranger a Sony - que, em resposta, poderia até optar por deixar o mercado.
Mesmo em disco, o jogo físico não garante acesso para sempre
Por fim, é importante destacar que ter o jogo em disco não significa poder jogar eternamente. Se o título tiver um componente online, ele pode se tornar inacessível a qualquer momento, mesmo oferecendo modo solo. The Crew, da Ubisoft, é um exemplo emblemático: o jogo foi encerrado e chegou até a ser removido das bibliotecas dos jogadores. No fim das contas, seja em mídia física ou digital, são poucos os jogos que pertencem plenamente ao consumidor.
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