As áreas protegidas nos mares da Europa ganham respaldo jurídico a partir de uma lista. As cavernas marinhas submersas entram nessa lista porque se presume que a rocha ao redor funciona como barreira, isolando o que vive lá dentro do oceano aberto. As paredes são espessas e as entradas, estreitas.
Um levantamento em 9 cavernas nas Ilhas Canárias acabou tornando esse quadro mais complexo. Ao mapear as comunidades internas, os cientistas perceberam que o fator mais determinante para definir onde as espécies se estabelecem - e o quanto essas comunidades conseguem se recuperar depois de uma perda - não era algo “de dentro” das cavernas. Era a energia das ondas vinda de fora.
Cavernas sob os penhascos
O estudo foi coordenado pelo ecólogo marinho Yeray Gonzalez-Marrero, da Universidade de La Laguna (ULL), em Tenerife, a maior ilha do arquipélago espanhol das Ilhas Canárias. A equipa analisou 9 cavernas marinhas distribuídas pelo arquipélago, selecionando desde trechos expostos da costa atlântica até enseadas mais abrigadas.
No interior de cada caverna, costuma aparecer uma divisão em três zonas. Perto da boca ainda entra luz do dia, e as ondas empurram pulsos de água do mar para dentro. Mais adiante, a luminosidade cai numa faixa de penumbra; depois, a câmara fica totalmente escura e quase sem movimento.
A maior parte das paredes é ocupada por esponjas. Formas incrustantes e tapetes irregulares recobrem a rocha ao lado de corais moles e outros animais fixos ao substrato. Como não se deslocam, dependem de que o alimento chegue até eles.
Lendo as paredes das cavernas
Para identificar o que cada caverna abrigava, mergulhadores prenderam pequenos quadrados emoldurados nas paredes de cada zona e fizeram fotografias de alta resolução. Foto a foto, registaram tudo o que estava vivo ali.
Ao todo, foram processadas 414 amostras fotográficas e contabilizadas 126 espécies nas 9 cavernas. Em seguida, cada espécie recebeu etiquetas de traços funcionais que descrevem o seu modo de vida - como se alimenta, o seu tipo de crescimento e quão facilmente pode se recuperar após uma perturbação.
Trabalhos anteriores já haviam descrito cavernas no Mediterrâneo como reservatórios de biodiversidade com base na contagem de espécies. Aqui, a pergunta foi outra: quantas “funções” diferentes a comunidade ainda consegue desempenhar caso uma espécie específica desapareça.
Onde a energia das ondas manda
A análise indicou que a força mais importante para decidir quem vive onde foi a energia das ondas. Esse fator explicou mais de um terço das diferenças na composição de espécies e nas estratégias de vida observadas. A profundidade apareceu muito atrás, em segundo lugar.
Esse resultado não era o que os investigadores esperavam. Cavernas parecem ser o trecho do litoral onde o oceano aberto deixa de influenciar, mas a energia das ondas quebrando do lado de fora da entrada continuou surgindo como o sinal dominante lá dentro - inclusive em áreas distantes da boca.
Nas costas norte e oeste, mais expostas, das Ilhas Canárias, as combinações de espécies diferiam fortemente das encontradas nas baías do sul, mais protegidas. Em locais sujeitos à ressaca, formas resistentes e incrustantes conseguiram persistir. Nas cavernas mais calmas, espécies colunares mais delicadas ocuparam mais espaço.
Onde a zona do meio enfraquece
A faixa de penumbra - a zona intermédia - foi a parte mais vulnerável dentro das cavernas. Nesse trecho, 81% dos papéis ecológicos estavam ocupados por apenas uma espécie, o que praticamente elimina alternativas caso alguma delas seja perdida.
As entradas mostraram-se menos frágeis. Por ainda receberem alguma luz e pulsos de renovação de água, mantêm uma mistura mais ampla de espécies por função. Já os interiores escuros são amortecidos por outras condições, com comunidades mais simples e resistentes, adaptadas à escassez.
Os autores suspeitam que o ambiente “aperte” justamente o meio. Falta luz para espécies que dependem dela e, possivelmente, não há escuridão suficiente para as que evoluíram sem qualquer luminosidade. O resultado é um conjunto pequeno de especialistas, quase sem espécies de reserva.
Um padrão que aparece noutros lugares
Considerando as 9 cavernas em conjunto, 57% dos papéis ecológicos identificados pela equipa eram representados por uma única espécie. A diversidade, em números totais, era elevada. Por trás desse total, porém, havia pouca redundância.
É esse o paradoxo de vulnerabilidade que o artigo procura esclarecer. Uma lista longa de espécies pode esconder uma lista curta de funções; assim, a perda de uma única espécie é capaz de apagar um papel inteiro, porque nenhuma outra o desempenha.
Recifes de coral tropicais exibem um desequilíbrio parecido. Um estudo sobre peixes de recife mostrou que funções raras tendem a ficar concentradas numa única espécie, sem substitutas.
O mesmo tipo de padrão é descrito em florestas tropicais, onde especialistas raros frequentemente ocupam funções ecológicas únicas, com poucas opções de reposição se desaparecerem.
O que a proteção não vê
Nas cavernas marinhas do Atlântico, a proteção ocorre por listagem, e não por gestão ativa. A Diretiva Habitats da União Europeia classifica esse ambiente como habitat prioritário, mas a designação apoia-se no que é observável a partir da entrada e assume que a rocha isola o interior.
A nova evidência enfraquece essa premissa. As condições de ondas estão a mudar nas costas atlânticas, e obras costeiras próximas às entradas de cavernas alteram os padrões de ondulação.
Uma revisão sobre áreas marinhas protegidas concluiu que pressões desse tipo atuam para além do que uma designação, por si só, consegue conter.
Para quem gere a conservação, o que muda é a profundidade do acompanhamento. Apenas listar espécies não revela a perda de uma função. A pergunta que a conservação precisa responder é quais papéis ainda têm redundância e quais passaram a depender de uma única espécie.
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