Elefantes estão longe de ser uma visão comum nas paisagens europeias. Por isso, quando arqueólogos encontraram um osso do pé de um elefante entre os escombros de uma escavação da Idade do Ferro na Espanha, ficou claro que a descoberta poderia ter um valor incomum.
Pela datação do material e pelo local em que apareceu, o achado pode até representar a primeira evidência física dos célebres “elefantes de guerra” do general cartaginês Aníbal.
A imagem desses animais avançando pelo campo de batalha atravessou séculos em obras de arte e relatos literários. Ainda assim, até agora não havia surgido qualquer indício esquelético dessas grandes criaturas.
"O uso de elefantes como 'máquinas de guerra' em solo europeu durante as Guerras Púnicas deixou uma marca profunda na arte, na literatura e na cultura ocidentais – um legado transmitido por relatos clássicos a autores posteriores", explica, no artigo publicado, a equipa liderada pelo arqueólogo Rafael Martínez Sánchez, da Universidade de Córdoba.
Aníbal, Cartago e os “elefantes de guerra”
Segundo os relatos, Aníbal conduziu o seu exército desde Cartago, uma antiga cidade do norte de África, através do sul dos Alpes em 218 a.C. Historiadores afirmam que essa força militar incluía 37 elefantes.
Como general, Aníbal comandou os cartagineses no confronto contra a República Romana ao longo das três Guerras Púnicas, travadas entre 264 e 146 a.C. Os arqueólogos suspeitam que o sítio onde o osso foi encontrado - Colina de los Quemados - possa ter sido, em tempos, um campo de batalha púnico.
"Arqueologicamente, o nível de destruição documentado em Colina de los Quemados encaixa-se bem num padrão emergente de eventos associados à Segunda Guerra Púnica", relatam os investigadores.
O que as escavações de 2020 indicaram sobre o local
Durante as escavações realizadas em 2020, foram encontrados projéteis de artilharia, moedas e peças de cerâmica - materiais que reforçaram a interpretação de que o lugar tem um passado ligado a atividades militares.
Datação e identificação do osso do elefante
No caso do osso de elefante, a datação por radiocarbono confirmou que ele pertenceu a um animal que viveu entre o fim do século IV e o início do século III a.C., exatamente no intervalo temporal próximo ao da Segunda Guerra Púnica.
Ao comparar o osso do carpo de 10 centímetros com o de elefantes modernos e também com o de mamutes-das-estepes, os pesquisadores confirmaram tratar-se de um elefante. No entanto, o material estava degradado demais para permitir a identificação ao nível de espécie, algo que exigiria colágeno preservado contendo proteínas ou ADN.
Outras hipóteses para a presença do osso na Espanha
Existem ainda outras explicações possíveis para que um “nó do dedo” de elefante tenha ficado para trás num local tão improvável. Aliados númidas de Roma podem ter enviado elefantes africanos durante o século II a.C. como parte de campanhas de conquista ou no contexto das guerras civis de César. Outra possibilidade é que esses animais tenham sido usados em jogos de gladiadores no início do período imperial romano.
No entanto, essas três hipóteses não se ajustam tão bem à idade estimada do osso.
"O contexto da Segunda Guerra Púnica associado a esta modesta porção anatómica confere ao achado uma importância excecional, sublinhando a relevância do sítio em futuros estudos arqueológicos", conclui a equipa.
"Embora [o osso] não representasse um dos espécimes míticos que Aníbal levou através dos Alpes, poderia potencialmente encarnar a primeira relíquia conhecida − tão procurada por estudiosos europeus da Idade Moderna − dos animais usados nas guerras púnico-romanas pelo controlo do Mediterrâneo."
A pesquisa foi publicada no Journal of Archaeological Science: Reports.
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