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Ferrari Luce: o primeiro Ferrari elétrico de produção

Carro esportivo vermelho Ferrari Luce EV exposto em showroom moderno com piso branco.

A Ferrari entrou, de forma oficial, na fase totalmente elétrica justamente quando outras marcas optaram por empurrar essa transição para mais tarde. O nome do carro é Luce, e ele inaugura um marco inédito para a fabricante italiana: é o primeiro modelo de produção da marca a dispensar por completo qualquer motor a combustão. Nada de V12, nem V8 - e nem mesmo um V6. Para Maranello, é um capítulo histórico.

E, como era de se esperar, trata-se de um dos lançamentos mais polêmicos dos últimos anos.

Com as primeiras imagens já divulgadas, dá para afirmar sem exagero: nunca existiu um Ferrari como este. Nem o Purosangue tinha rompido de maneira tão contundente com as proporções clássicas que sempre definiram os modelos da marca.

A Ferrari descreve o Luce como parte de um “novo segmento”. Na prática, o modelo combina elementos de crossover, GT e shooting brake em uma carroceria com mais de cinco metros de comprimento, quatro portas e cinco lugares - algo sem precedentes na história da fabricante.

O desenho foi criado em parceria com a LoveFrom, estúdio de Sir Jony Ive, ex-diretor de design da Apple e responsável, entre vários projetos, pelo revolucionário iPhone.

E isso fica evidente. O conjunto revela uma atenção quase industrial por superfícies limpas, volumes contínuos e pouca “poluição” visual. A área envidraçada enorme domina o perfil, enquanto as rodas de 23″ na dianteira e 24″ na traseira ajudam a fazer o Ferrari Luce parecer menor do que ele realmente é.

Este é o primeiro Ferrari 100% elétrico da história e, ao olhar para ele, fica claro que Maranello não quis entregar um elétrico “convencional”. O Luce não tenta ser discreto, lógico ou minimalista (apesar do visual depurado), como tantos rivais elétricos de luxo. É o oposto: grande, dramático e… esquisito.

A cabine, que já era conhecida, acompanha a ousadia do lado de fora - e, de certa forma, já antecipava o que viria na carroceria. Há telas, mas também há botões físicos, comandos metálicos e peças com sensação mecânica - ainda bem.

O volante segue como o centro da experiência, agora com novos controles voltados à gestão de potência e à regeneração. Porque, neste Ferrari, até a frenagem vira parte do espetáculo.

O Ferrari mais eficiente da história

Para entender o desenho externo do Ferrari Luce, é obrigatório falar de aerodinâmica. A influência aparece de imediato na leitura das linhas: tudo foi pensado para derrubar ao máximo o arrasto e elevar a eficiência, algo decisivo em um elétrico com mais de 1000 cv e 530 km de autonomia.

De acordo com a Ferrari, o Luce registra o menor coeficiente aerodinâmico já obtido em um carro de rua da marca (sem revelar o Cx). Para chegar lá, entram em cena soluções inéditas, como grades aerodinâmicas ativas, uma suspensão que baixa automaticamente 10 mm em movimento e rodas desenhadas para reduzir turbulências em cerca de 5%.

Até o que parece pequeno foi levado ao limite. A Ferrari cita mais de 6000 simulações CFD (computational fluid dynamics), 250 horas de túnel de vento e dezenas de horas adicionais de testes com protótipos em escala real. A meta era fazer o Luce atravessar o ar com a máxima eficiência possível, sem abrir mão de presença visual nem de estabilidade em alta velocidade.

Mais de 1000 cv e uma arquitetura inédita

Sob a carroceria, há uma base completamente nova, criada do zero para este projeto. O Ferrari Luce adota quatro motores elétricos independentes - um por roda - alimentados por uma bateria de 122 kWh e arquitetura de 800 V. A potência máxima chega a 772 kW (1050 cv), e o torque máximo é de 990 Nm. Nas rodas, por causa da relação de transmissão, o valor efetivo alcança 11 500 Nm.

Os números são tão extremos quanto se espera de um elétrico com mais de 1000 cv, mesmo com os 2260 kg anunciados (quando equipado com certos opcionais). Ele vai de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos, chega aos 200 km/h em apenas 6,8 segundos e atinge 310 km/h de velocidade máxima. A autonomia declarada fica acima de 530 km.

Talvez isso não cause o mesmo impacto que teria há cinco anos, porque hoje já existem elétricos chineses, americanos e até croatas com números parecidos - e até melhores. A Ferrari, porém, responde que o ponto mais relevante do Luce não são os números isolados, e sim como ela tentou atacar um dos maiores desafios dos elétricos de alta performance: a falta de progressividade e de envolvimento.

O Ferrari Luce estreia um sistema chamado Torque Shift Engagement, que permite graduar a entrega de potência pelas aletas atrás do volante. Ele não imita trocas de marcha; em vez disso, ajusta a forma como a potência aparece, para escapar daquela pancada imediata típica dos elétricos.

A aleta direita aumenta progressivamente os níveis de potência, enquanto a esquerda regula a intensidade da frenagem regenerativa. A intenção é gerar uma sensação de progressão mecânica mais natural e envolvente - mais próxima do que sentiríamos em um Ferrari a gasolina.

Um Ferrari elétrico que quer continuar a soar a Ferrari

E então vem o som - provavelmente o assunto mais sensível de todos. A Ferrari não escolheu o atalho de simplesmente tocar ruídos artificiais por alto-falantes. Em seu lugar, desenvolveu um sistema que amplifica vibrações reais dos motores elétricos e de componentes mecânicos. O princípio lembra o de um amplificador de guitarra elétrica.

O resultado é artificial? Tecnicamente, sim. Mas ele nasce de vibrações autênticas do carro e muda conforme carga, velocidade e modo de condução. O Ferrari Luce não tentou trocar um V12 por uma “cópia” sonora, como a AMG fez com o novo GT 4 portas que imita um V8. Em vez de recriar o que se perdeu, a proposta é buscar uma nova experiência emocional ao dirigir.

Você goste ou não da ideia, uma coisa é fato: Maranello acaba de tomar a decisão mais arriscada de sua história recente.

Quando chega?

O primeiro Ferrari elétrico da história também será um dos mais caros já lançados pela marca: 550 mil euros é o preço avançado pela marca para o Luce. A estreia oficial nas concessionárias acontece no começo do próximo ano.

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