Pesquisadores descobriram que o jovem planeta gigante PDS 70c emite luz de rádio a partir de gás ionizado - e não de um disco empoeirado, como os astrónomos há muito esperavam encontrar à volta de mundos desse tipo.
O sinal inesperado indica que o planeta ainda está a acumular material de forma activa, revelando um ambiente pequeno e específico onde um gigante gasoso conclui as suas últimas fases de crescimento.
Faixa de rádio ausente
Ao observar o sistema em quatro faixas de rádio, o planeta aparece em três delas e, de repente, deixa de ser visto na frequência mais alta.
A partir desse conjunto de sinais desalinhados, a investigadora Oriana Domínguez-Jamett, da Universidad de Chile, demonstrou que um disco de poeira não conseguiria reproduzir o padrão medido.
Em vez disso, a ausência do brilho em alta frequência encaixou-se melhor num cenário em que gás é aquecido e fica electricamente carregado quando material em queda atinge o disco do planeta.
Com isso, o PDS 70c passa a parecer muito menos poeirento do que se supunha, e o foco desloca-se para a zona estreita onde o crescimento ainda está em curso.
Por que a poeira não explicou
Em geral, a poeira tende a ficar progressivamente mais brilhante em frequências de rádio mais altas; por isso, o enfraquecimento súbito na faixa superior contrariou a expectativa.
Observações anteriores do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) já tinham apontado a existência provável de um disco circumplanetário em torno do PDS 70c.
Esse disco - um anel de gás e poeira à volta de um planeta - tornava difícil ignorar a faixa ausente, porque, se a poeira dominasse, o brilho deveria manter-se estável ou aumentar com a frequência.
O ajuste mais consistente levou a outra explicação: gás ionizado - isto é, gás cujos átomos perderam electrões - numa camada superficial fina e aquecida.
Uma superfície que brilha
À volta de planetas gigantes jovens, o material não cai directamente; um pequeno disco actua como “travão”, distribuindo e desacelerando o fluxo de matéria.
Quando parte desse material embate no disco, o choque aquece o gás ao redor e liberta electrões.
O brilho de rádio produzido nesse processo é conhecido pelos astrónomos como emissão livre-livre, gerada quando electrões passam perto de iões.
“Em vez disso, o sinal aponta para gás ionizado, possivelmente aquecido em choques à medida que o material cai sobre o disco do planeta”, disse Domínguez-Jamett.
Dentro do PDS 70c
A estrela jovem já era bem conhecida porque os astrónomos identificaram dois planetas gigantes ainda em formação no interior do seu disco.
A luz H-alfa, um brilho vermelho do hidrogénio, tinha mostrado que ambos os planetas continuavam a acrecionar material, em vez de apenas permanecerem passivamente na lacuna do disco.
Anos depois, dados mais nítidos do ALMA detectaram uma emissão compacta junto do PDS 70c, reforçando a hipótese de que ele é rodeado por um pequeno disco.
Esse quadro anterior preparou a surpresa actual: o disco parece existir, mas a poeira já não é a principal responsável pelo sinal de rádio.
Por que as luas começam
Um disco circumplanetário não serve apenas para alimentar o planeta - ele também fornece o material de base a partir do qual luas podem formar-se.
Estimativas anteriores indicavam que a poeira em torno do PDS 70c teria apenas uma fração pequena de massa, perto da massa da Lua ou ligeiramente acima.
Esse inventário reduzido já sugeria que a construção de luas em torno de gigantes jovens ocorre num ambiente compacto e de curta duração.
Agora, o novo resultado em rádio impõe uma restrição ainda mais forte, porque uma parte considerável do brilho vem do gás, e não de reservas ocultas de poeira.
O que o ALMA mudou
Ao cobrir quatro bandas de observação num intervalo de cerca de dois meses, o ALMA permitiu à equipa comparar sinais quase simultâneos, em vez de combinar registos antigos feitos em épocas diferentes.
Isso foi crucial porque o PDS 70c já mostrou variabilidade em rádio, e datas desencontradas podem produzir um espectro enganoso.
A nova distribuição de medições revelou uma viragem no comportamento do sinal perto das frequências mais altas, exactamente onde a poeira deveria continuar mais brilhante.
Num sistema tão jovem, uma “impressão digital” desse tipo começa a separar o que está a alimentar o planeta do que apenas permanece nas proximidades.
Poeira quase desaparecida
Uma frase da equipa resumiu a implicação mais directa do resultado, com pouca margem para ambiguidades.
“As nossas observações sugerem que um disco empoeirado padrão não rodeia o PDS 70c”, disse Domínguez-Jamett.
O grupo estimou que o planeta está empobrecido em poeira por, no mínimo, um factor de 1.000 em relação ao que se esperava.
Uma queda tão acentuada não significa que o disco tenha desaparecido; porém, indica que, neste momento, o gás carrega a maior parte da “história” contada no rádio.
Limites da observação
A Banda 9 não forneceu uma detecção limpa; por isso, parte do argumento depende de como a ausência do sinal foi interpretada.
Para lidar com isso, a equipa usou a posição já conhecida do planeta, em vez de tratar a não detecção como se não tivesse valor informativo.
Ainda assim, não se pode excluir completamente uma contribuição mais fraca vinda de poeira, jactos ou outras estruturas gasosas.
Medições melhores nas mesmas frequências deverão determinar quanto do brilho vem apenas da superfície do disco.
Testes para planetas jovens
Observações futuras poderão verificar se o mesmo brilho de gás aparece em torno de outros gigantes jovens ou se o PDS 70c é um caso fora do comum.
Medições semelhantes também podem acompanhar o sinal a subir e a descer à medida que novo material colide com o disco.
Isso transformaria a luz de rádio num indicador directo da alimentação do planeta, e não apenas numa imagem desfocada de detritos remanescentes.
Projectado para distinguir estruturas ténues em material cósmico frio, o ALMA agora parece capaz de seguir as etapas finais do crescimento de planetas gigantes.
Crescimento em foco
Visto em conjunto, o conjunto de evidências descreve um planeta que ainda se alimenta através de um disco minúsculo, cujas camadas externas brilham devido a gás carregado.
Essa perspectiva oferece aos astrónomos uma forma mais precisa de acompanhar como planetas gigantes terminam de se formar - ainda que detecções mais limpas continuem a ser necessárias.
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