Muita gente associa desmatamento a chocolate, café ou óleo de palma quando o assunto aparece. Esses produtos costumam dominar o debate. Só que um novo estudo global indica que uma parte importante do problema pode estar passando despercebida.
Alimentos comuns como milho, arroz e mandioca estão ligados a uma perda de florestas maior do que a de várias culturas voltadas à exportação. São itens do dia a dia, produzidos e consumidos localmente, muitas vezes longe dos holofotes.
A produção de alimentos continua a ser o principal fator de desmatamento no planeta. Até agora, porém, ninguém havia mapeado com clareza quais culturas estão por trás disso - e em que lugares a destruição ocorre.
O que realmente está causando o desmatamento
Uma equipa da Chalmers University of Technology, na Suécia, desenvolveu um modelo que liga a produção agrícola à perda de florestas em escala global.
Eles criaram o modelo Deforestation Driver and Carbon Emissions, conhecido como DeDuCE. Ele combina imagens de satélite com dados agrícolas para acompanhar como culturas específicas afetam as florestas em diferentes países.
“Há muito tempo se estuda a ligação do desmatamento com a produção de alimentos, mas muitas vezes o foco recaiu sobre alguns produtos, como carne bovina, soja e óleo de palma, que são bem conhecidos no contexto do desmatamento”, disse o coautor do estudo Chandrakant Singh.
“No nosso estudo, combinámos dados extensos de satélite sobre uso da terra com estatísticas agrícolas de uma forma que nos dá o retrato mais abrangente e preciso até agora do que está impulsionando o desmatamento no mundo.”
O modelo abrange 179 países e 184 commodities. Os resultados mostram que 122 million hectares (cerca de 301 million acres) de floresta desapareceram entre 2001 e 2022 por causa da agricultura. Mais de 80% dessa perda ocorreu em regiões tropicais.
Alimentos básicos e o novo mapa do desmatamento
As conclusões contrariam algumas ideias comuns. Indústrias de grande escala, como carne bovina e soja, continuam a ter um peso enorme - sobretudo em regiões como a América do Sul. Ainda assim, as culturas alimentares básicas revelam outra dinâmica.
Milho, arroz e mandioca, somados, representam cerca de 11% do desmatamento impulsionado pela agricultura. Já cacau, café e borracha, juntos, respondem por menos de 5%.
Essa diferença é relevante. Esses alimentos básicos são cultivados em muitos países, e não apenas em alguns focos específicos. Assim, o impacto fica distribuído por áreas vastas, o que torna o problema mais difícil de identificar e de gerir.
“O debate sobre desmatamento tem girado muito em torno de como pessoas em países ricos como o nosso causam desmatamento com as importações de commodities, e isso é absolutamente importante de enfrentar”, disse o coautor do estudo Martin Persson.
“Mas não podemos esquecer que uma grande parcela do desmatamento é impulsionada pela produção agrícola para os mercados domésticos. Então, para realmente reduzir o desmatamento, também precisamos agir nos países produtores.”
Isso desloca parte da responsabilidade. Não se trata apenas do que consumidores de países ricos compram. Também envolve como os alimentos são produzidos e consumidos localmente em muitas regiões do mundo.
Emissões de carbono trazem um resultado inesperado
Quando a floresta é derrubada, é comum que depois seja queimada. Esse processo liberta o carbono armazenado para a atmosfera e intensifica a mudança climática. O estudo apresenta uma estimativa detalhada de quanto carbono é libertado dessa forma.
Entre 2001 e 2022, o desmatamento ligado à agricultura e à silvicultura gerou cerca de 41 billion tons de dióxido de carbono. Isso equivale, em média, a perto de 2 billion tons por ano.
O valor é menor do que estimativas anteriores, que apontavam emissões mais de duas vezes superiores. A diferença está no uso de métodos mais precisos para associar o desmatamento às atividades específicas que o provocam.
“Mas mesmo que o número seja menor do que estimativas anteriores, o desmatamento impulsionado pela agricultura ainda causa cerca de cinco por cento das emissões totais de dióxido de carbono do mundo”, afirmou Singh. Mesmo na estimativa mais baixa, o efeito continua a ser expressivo.
O que o modelo pode mudar
Para os pesquisadores, este trabalho é um ponto de partida - não uma resposta definitiva. A ideia é que o modelo possa, em breve, ir além da alimentação e incorporar outras atividades que também pressionam as florestas.
Mineração e produção de energia, por exemplo, contribuem para a perda florestal, de forma direta e indireta. Incluir esses setores ajudaria a construir um retrato mais completo das forças que atuam sobre as florestas.
“Os nossos dados mostram onde estão os riscos e onde as iniciativas são mais necessárias. O objetivo é que o modelo conecte pesquisadores, tomadores de decisão, empresas e a sociedade civil”, disse Singh.
Com dados melhores, as decisões podem melhorar. Governos conseguem direcionar políticas com mais precisão. Empresas podem repensar cadeias de abastecimento. Comunidades passam a enxergar com mais clareza onde a mudança é mais urgente.
O estudo completo foi publicado na revista Nature Food.
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