Uma nova análise concluiu que cinco propostas de geoengenharia, apresentadas como forma de proteger o gelo polar, têm baixa probabilidade de funcionar e ainda podem provocar danos ambientais graves.
O resultado confronta a noção, cada vez mais difundida, de que intervenções tecnológicas em larga escala conseguiriam blindar o Ártico e a Antártida dos piores efeitos do aquecimento global.
Cinco ideias para o gelo polar colocadas à prova
Em uma única avaliação, os autores submeteram cinco propostas de “resgate” bastante diferentes ao mesmo conjunto de seis critérios, que iam de custos a potenciais impactos ambientais.
Ao analisar esse conjunto de evidências, Martin Siegert, glaciologista da Universidade de Exeter, concluiu que todas as alternativas para preservar o gelo polar esbarravam em obstáculos elementares de viabilidade.
Não foi um defeito isolado que derrubou cada plano. Para Siegert e seus coautores, os mesmos problemas voltavam a aparecer: dificuldade de escalar as ideias, efeitos colaterais, preços elevados e ausência de regras claras.
Isso era relevante porque as propostas variavam enormemente - desde liberar partículas na atmosfera até usar maquinário pesado sobre o gelo e instalar barreiras debaixo d’água.
Luz solar sem inverno
Uma linha de geoengenharia - tentativas deliberadas de alterar o clima em escala gigantesca - apostaria em espalhar partículas em grandes altitudes.
Como o inverno polar é marcado pela escuridão, a estratégia deixaria de operar por meses todos os anos, justamente no período em que as regiões continuariam precisando de proteção.
E, mesmo quando há luz solar, o estudo alerta que essas partículas poderiam interferir na camada de ozônio, no regime de chuvas e nas temperaturas muito além do Ártico e da Antártida.
Uma proposta que resfria um lugar à custa de desorganizar o tempo em outro deixa de parecer “salvamento” e passa a soar como imprudência.
Cortinas sob o gelo polar
Outra ideia sugere suspender paredes flexíveis no fundo do mar para bloquear a água mais quente antes que ela alcance as plataformas de gelo - bordas flutuantes que sustentam geleiras.
Segundo a revisão, nas águas antárticas mais difíceis, até chegar aos locais de instalação pode fracassar, porque o gelo marinho e os icebergs fecham rotas.
Para uma cortina de 80 quilômetros (50 milhas), as projeções de custo já chegam a cerca de US$ 80 bilhões, e os autores consideram que até esse valor provavelmente está subestimado.
Qualquer estrutura que exija décadas de manutenção em mares tão hostis pode trazer novos danos sem, de fato, impedir o derretimento.
Esferas e bombas
No caso do gelo marinho polar, surgiram duas propostas ainda mais incomuns: espalhar esferas claras sobre gelo recente e usar bombas para pulverizar água do mar, de modo que congele.
Um projeto que levou adiante a alternativa das esferas já foi encerrado, após apontar riscos ambientais.
Quanto ao plano das bombas, cobrir apenas 10 percent do Ártico em 10 years ainda demandaria 1 million máquinas por ano.
Com números desse tamanho, uma ação “emergencial” vira uma operação industrial, com chance de travar antes mesmo de provocar mudanças relevantes no gelo polar.
Perfuração sob geleiras
Alguns engenheiros defendem drenar a água que fica sob geleiras rápidas, na esperança de que o aumento do atrito reduza o deslizamento rumo ao mar.
Abaixo do gelo, porém, a situação se complica: a água circula por caminhos que mudam com o tempo - e que os cientistas ainda não conseguiram mapear bem.
Além disso, os furos de perfuração tenderiam a sair do lugar conforme o gelo se desloca, exigindo manutenção constante em condições remotas e severas. Uma solução que precisa “perseguir” um alvo em movimento sob quilômetros de gelo está longe de ser uma ferramenta praticável.
Alimentar as águas polares
A adição de ferro nos mares polares - uma tática conhecida como fertilização oceânica - busca provocar grandes florações de fitoplâncton nas águas superficiais.
O fitoplâncton - organismos minúsculos que flutuam - retira dióxido de carbono da atmosfera durante a fotossíntese e pode armazená-lo em seus corpos. Ainda assim, testes de campo não mostraram que isso seja uma forma bem-sucedida ou confiável de sequestro de carbono.
O artigo também adverte que florações mais intensas podem remodelar cadeias alimentares e agravar a acidificação dos oceanos - quando a água do mar fica mais ácida ao absorver carbono.
Uma abordagem pensada para reter carbono em um oceano pode acabar desviando nutrientes de outro, deslocando o impacto para um lugar menos visível.
Salvar o gelo polar envolve política
Mesmo que alguma dessas ideias parecesse promissora, a política polar ainda imporia barreiras antes de qualquer implantação em grande escala.
Em uma reunião do Tratado da Antártida, um relatório afirmou que métodos de geoengenharia no território antártico não deveriam ser realizados, porque as consequências permanecem desconhecidas.
A governança do Ártico é menos rígida, mas gelo à deriva, águas compartilhadas e fronteiras nacionais transformam ações unilaterais em uma receita para conflito.
As mesmas propostas que dizem contornar a política, na prática, exigiriam mais confiança internacional e mais acordos legais do que os cortes de emissões já demandam.
A falsa esperança se espalha
A crítica mais profunda do estudo é política, não mecânica: essas propostas podem vender esperança enganosa muito antes de alterar o clima.
Em uma declaração sobre o artigo, os autores alertaram que “planos B” especulativos podem reduzir o senso de urgência em relação ao que já se sabe que funciona.
“Essas ideias muitas vezes têm boas intenções, mas são falhas”, disse Siegert.
Quando a linguagem de emergência esbarra em uma logística impossível, fica mais fácil justificar a demora - e, nesse intervalo, o planeta continua aquecendo.
A melhor correção
A alternativa defendida no artigo é menos chamativa e bem mais conhecida: reduzir a poluição por gases de efeito estufa e proteger ecossistemas.
Um resumo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que cortes fortes de carbono poderiam levar as temperaturas globais para perto da estabilidade em 20 to 30 years.
Isso não recupera o gelo já perdido de um dia para o outro, mas diminui os danos futuros ao enfrentar a causa do aquecimento, em vez de apenas encobri-lo.
Áreas protegidas também podem aliviar outras pressões humanas, dando à fauna e aos ecossistemas polares uma chance maior em um mundo mais quente.
A lição real
Nenhuma das cinco propostas fracassou por um motivo único; elas falharam porque natureza, engenharia, dinheiro e política atuaram juntas contra cada uma.
Com isso, sobra uma resposta mais difícil - e, ao mesmo tempo, mais nítida: a melhor proteção para os polos é cortar emissões rapidamente e manter o foco nessa estratégia.
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