A maior parte das florestas da Europa carrega um custo oculto. Séculos de manejo voltado para produção de madeira acabaram moldando muitos desses ambientes em talhões organizados e com árvores de idade semelhante, com poucas árvores muito antigas ou em decomposição e quase nenhuma clareira natural.
À primeira vista, essa “arrumação” pode parecer sinal de vitalidade. Para os animais que vivem entre os troncos, porém, ela costuma significar menos oportunidades de alimentação, abrigo e reprodução.
Um experimento de grande escala na Alemanha decidiu colocar à prova uma ideia direta: será que reintroduzir, de propósito, um pouco de “bagunça” na estrutura dessas florestas faria a vida voltar com mais força?
Um grande teste de “bagunça”
O trabalho foi realizado no âmbito do projeto BETA-FOR, coordenado por pesquisadores da Julius-Maximilians-Universität Würzburg (JMU), na Baviera.
O estudo ocorreu em parceria com as Universidades de Marburg e de Munique e com o Parque Nacional da Floresta da Baviera.
Os especialistas avaliaram 234 parcelas florestais, cada uma com 50 por 50 metros (cerca de 164 por 164 pés), distribuídas por 11 paisagens experimentais em seis regiões da Alemanha.
Em parte dessas parcelas, foram abertas lacunas no dossel, com 25 a 30 metros de diâmetro (aproximadamente 82 a 98 pés). Em outras, a equipe manteve madeira morta no chão - incluindo tocos, toras e árvores mortas em pé (snags).
Para comparação, cada parcela com intervenção foi pareada com uma floresta de produção próxima que permaneceu intacta. Em seguida, os grupos acompanharam como a fauna se alterava ao longo dos quatro a sete anos seguintes.
Ouvindo moradores “invisíveis”
Fazer contagens de morcegos e aves em floresta densa é uma tarefa complicada. Por isso, os pesquisadores recorreram ao som.
Gravadores automáticos registraram chamados e cantos durante um intervalo de três meses, período em que esses animais costumam estar mais ativos.
Como os equipamentos funcionaram sem a presença de pessoas, o comportamento dos animais seguiu sem perturbações.
Depois, um software comparou os registros sonoros com padrões conhecidos para atribuir as gravações às espécies. Considerando todos os locais, a equipe identificou 17 espécies de morcegos e 72 espécies de aves.
Os dois grupos avançaram
A inclusão de elementos estruturais trouxe ganhos para ambos. Na escala da paisagem florestal inteira, morcegos e aves apresentaram maior diversidade nas áreas tratadas.
No caso dos morcegos, as florestas com intervenção abrigaram, em média, cerca de duas espécies a mais. Essa diferença pode parecer pequena até ser colocada em perspectiva diante do tamanho da fauna local.
“Isso parece um número pequeno, mas na verdade é significativo porque existem apenas 25 espécies de morcegos na Alemanha no total”, disse Clara Wild, doutoranda na JMU Würzburg e primeira autora do estudo.
A partir daí, os resultados se separaram de forma clara: o aumento de diversidade ocorreu por mecanismos completamente distintos em morcegos e em aves.
Os morcegos ficaram mais diversos porque diferentes porções da paisagem passaram a sustentar conjuntos distintos de espécies. Já as aves aumentaram a diversidade porque cada parcela, individualmente, passou a comportar mais tipos de espécies.
Morcegos valorizam variedade na paisagem inteira
Morcegos percorrem longas distâncias numa única noite, caçando em vários trechos de uma mesma floresta. Um fragmento pode oferecer um emaranhado escuro e fechado, enquanto outro se abre numa clareira mais iluminada.
Como espécies diferentes preferem condições diferentes, o contraste entre parcelas atraiu um conjunto mais amplo. Caçadores de áreas abertas apareceram onde as clareiras foram criadas, enquanto especialistas de espaços fechados permaneceram em cantos sombreados e ricos em madeira morta.
Assim, para morcegos, a heterogeneidade espalhada pela paisagem contou mais do que a complexidade concentrada em um único ponto.
Aves valorizam complexidade local
A maior parte das aves florestais segue outra lógica. Durante a época de reprodução, elas defendem territórios pequenos e, em geral, não se afastam muito.
Uma ave se beneficia quando a sua própria parcela oferece mais recursos - de cavidades para nidificação a locais de forrageamento. Clareiras e madeira morta aumentaram a qualidade de cada parcela, permitindo que mais espécies se estabelecessem lado a lado.
Muitas das aves que passaram a ocorrer nesses trechos eram bem diferentes dos “moradores” habituais. Pica-paus e outros especialistas associados à madeira morta, com modos de vida próprios, estiveram entre os novos registros.
Mais do que só contar espécies
Diversidade não se resume a somar espécies. A equipe também considerou o quanto as espécies adicionadas diferiam entre si, tanto no modo de vida quanto nas relações ecológicas.
Entre os morcegos, as espécies que entraram eram, em sua maioria, parentes próximas e desempenhavam funções semelhantes. O ganho se expressou principalmente como aumento no número de espécies, e não como ampliação de estratégias ecológicas.
Nas aves, o quadro foi mais complexo. As espécies associadas a clareiras e à madeira morta frequentemente traziam hábitos realmente distintos, elevando a diversidade funcional - e não apenas a contagem.
Quais espécies novas apareceram
Nos dados de morcegos, as áreas tratadas atraíram espécies como o morcego-do-norte e o morcego-de-duas-cores. Ambas tendem a preferir ambientes mais abertos e costumam ser raras em florestas densas e uniformes.
Entre as aves, as clareiras favoreceram espécies típicas de bosques mais abertos e também vários pica-paus ameaçados, ligados a madeira morta e a árvores em declínio. Ao adicionar estrutura, surgiram nichos que esses especialistas puderam ocupar.
Lições para o manejo florestal
A diferença entre morcegos e aves traz um recado objetivo para a silvicultura: uma única estratégia não atende a todos os animais, mesmo dentro de grupos amplos.
“Nossos resultados mostram que podemos promover a biodiversidade mesmo em florestas anteriormente monótonas e pobres em espécies”, afirmou Clara Wild.
“Com pequenas intervenções que aumentam a diversidade estrutural, podemos criar nichos valiosos. Isso torna a floresta mais diversa e atrai controladores de pragas como aves e morcegos.”
As aves reagiram bem a ações pontuais e locais - como uma clareira isolada ou algumas toras deixadas no chão. Já os morcegos dependem de uma variação distribuída de forma ampla, de modo que as parcelas sejam diferentes entre si ao longo de toda a floresta.
O benefício também vai além da fauna. “Uma floresta estruturalmente rica é muito mais resiliente às mudanças climáticas graças à sua diversidade”, disse o professor Jörg Müller, que liderou o estudo.
“Deixar madeira morta na floresta pode reduzir parte do rendimento madeireiro no curto prazo, mas garante a estabilidade de longo prazo de todo o ecossistema”, disse Jörg Müller.
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