Mamangavas continuam a surpreender quem as investiga. Já se descobriu que elas conseguem contar além de quatro, distinguir rostos humanos e até rolar bolinhas de madeira só por diversão. Um estudo recente, porém, levou o tema do uso de ferramentas por mamangavas para um terreno ainda mais incomum.
Essas habilidades descritas anteriormente, em geral, apareceram depois de treino cuidadoso ou após a abelha observar outra fazendo primeiro. Um grupo de pesquisa na Finlândia quis medir o que as mamangavas conseguem realizar sem nenhuma dessas ajudas. Para isso, os cientistas apresentaram um desafio às abelhas e saíram de cena.
No experimento, cada abelha recebeu uma bola que nunca tinha aprendido a utilizar e, ao mesmo tempo, os pesquisadores posicionaram uma flor com solução açucarada no teto, fora de alcance. Não havia instruções nem “modelo” a ser imitado: apenas a bola, a flor e o problema a resolver.
O teste da flor no teto
Os animais observados eram mamangavas - especificamente a espécie de cauda-bufante, Bombus terrestris, comum em grande parte da Europa. Antes do desafio principal, cada abelha aprendeu um único ponto: uma flor artificial azul indicava uma recompensa açucarada.
Em seguida, a situação foi alterada. A flor foi levada para o teto de uma arena transparente, suspensa de modo que nenhuma abelha pudesse pousar nela. No piso, perto dali, havia somente um objeto disponível: a bola.
Para alcançar o alimento, a abelha precisava criar uma estratégia que nunca lhe tinha sido demonstrada - rolar a bola para baixo da flor e, depois, subir em cima dela para se alimentar. Muitas conseguiram.
Olli Loukola, ecólogo comportamental da Universidade de Oulu, na Finlândia, descreveu o desafio como uma versão “inseto” de um teste clássico de inteligência animal.
O que as abelhas já sabiam
A parte mais estranha é esta: as mamangavas não foram treinadas para empurrar a bola até a flor, nem para escalar a bola, nem para relacionar uma ação à outra. Ninguém as conduziu passo a passo.
O que elas tinham eram dois pedaços de conhecimento que, à primeira vista, não tinham ligação. Primeiro: flores azuis rendem açúcar. Segundo: a bola era um objeto inofensivo que elas podiam empurrar e deslocar. Ninguém havia “conectado” essas ideias para elas.
O verdadeiro salto está em combiná-las na hora. Esse tipo de solução improvisada, construída durante a própria execução, é algo que cientistas perseguem há mais de um século sobretudo em animais com cérebros grandes - não em insetos.
Trabalhos anteriores já mostraram abelhas aprendendo ao copiar soluções de outras, mas copiar não é o mesmo que inventar.
Escondendo a flor
Um cético poderia dizer que as abelhas apenas empurraram a bola em direção a algo azul e apetitoso que já estava à vista. Para afastar essa hipótese, a equipe aumentou a dificuldade: dividiu a arena em duas partes e colocou a flor atrás de uma parede.
Nesse novo arranjo, a abelha não podia se orientar visualmente. Ela precisava lembrar onde a flor estava escondida, buscar a bola e levá-la até aquele ponto exato. Ainda assim, muitas deram conta.
Mais de 70% resolveram o quebra-cabeça. E essa taxa de sucesso se manteve mesmo na versão mais exigente, com a flor oculta - um cenário em que sorte e brincadeira aleatória quase não teriam espaço.
Não foi sorte nem brincadeira
Sabe-se que mamangavas rolam pequenas bolas simplesmente por diversão. Um estudo bastante citado registrou esse comportamento sem qualquer recompensa - o primeiro exemplo claro de brincadeira em um inseto. Por isso, a equipe precisou descartar que o resultado fosse apenas “lúdico”.
Nos testes com a flor escondida, quase não houve rolamento sem objetivo. As abelhas que tiveram sucesso partiram direto para a tarefa: conduziram a bola até o local certo e então subiram nela. Os trajetos pareciam direcionados, não acidentais.
Akshaye Bhambore, doutorando na Universidade de Oulu e autor principal do estudo, analisou como as abelhas bem-sucedidas se deslocavam.
As rotas sugeriam a busca de um objetivo, e cientistas chamam essa combinação de memória com uma ação nova de insight.
“Eles tinham um objetivo em mente, e foram capazes de entender a natureza da tarefa”, disse Bhambore. Havia pouca margem para chegar à resposta por acaso.
Ecos dos chimpanzés
Uma comparação aparece repetidamente - e tem mais de um século. Na década de 1910, o psicólogo Wolfgang Köhler observou chimpanzés empilhando caixas para alcançar bananas penduradas fora do alcance. Esses experimentos viraram o exemplo clássico, em livros-texto, de insight e uso espontâneo de ferramentas.
Loukola afirmou que o experimento com as abelhas é uma versão inseto do famoso problema da “caixa e banana”. O animal precisa perceber que um objeto disponível pode virar um degrau para obter algo desejado, mas inacessível de outro modo.
O que diferencia este resultado de feitos anteriores com abelhas é a falta de treinamento. Um artigo influente já havia mostrado abelhas aprendendo a puxar cordões para ganhar recompensa, porém apenas com orientação passo a passo ou depois de observar um demonstrador treinado.
Aqui, até o instante do teste, nenhuma abelha havia sido encaminhada para a solução.
Repensando as mentes animais
Os pesquisadores são cautelosos no alcance da afirmação. Eles não defendem que abelhas pensem como pessoas nem que tenham um entendimento “humano”. O que propõem é que um cérebro muito menor do que o de qualquer vertebrado consegue criar uma resposta nova para um problema que nunca encontrou.
Até agora, inventar na hora uma solução baseada em ferramenta era visto como algo quase exclusivo de vertebrados - grandes primatas, corvos, golfinhos.
Não se tinha demonstrado uma abelha fazendo isso sem treinamento, e isso muda tanto as perguntas que a área pode fazer quanto os lugares onde procurar respostas.
Se um cérebro tão pequeno consegue, pesquisadores podem começar a investigar como circuitos tão compactos realizam esse feito - e em quais outros grupos, entre milhões de espécies de insetos, a mesma aptidão pode estar escondida.
Ao que tudo indica, mamangavas merecem entrar numa conversa que, por muito tempo, ficou reservada a poucos animais considerados “muito inteligentes”.
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