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Água doce subterrânea surpreende sob o Grande Lago Salgado

Homem com equipamento de amostragem de solo em área árida e salina, analisando tubo com líquido transparente.

À primeira vista, o Grande Lago Salgado parece o tipo de lugar onde a água doce simplesmente não deveria existir. A superfície é carregada de sal e, à medida que a linha d’água recua, a preocupação só aumenta para as comunidades do entorno.

Só que, por baixo dessa crosta áspera e salina, algo inesperado vem se delineando. Cientistas encontraram evidências robustas de um grande sistema de água doce enterrado em profundidade sob partes do lago.

Não se trata de uma bolsão pequeno nem de um filete. Esse reservatório desce por milhares de metros e pode ir muito além do que se imaginava inicialmente. A descoberta muda a forma de enxergar o que existe abaixo de um dos lagos mais incomuns da América do Norte.

Ela também abre novas perguntas: de onde vem essa água doce, até onde ela se estende e se poderia ajudar a enfrentar problemas muito reais na superfície.

O que existe sob o sal

Tudo começou com sinais estranhos no leito exposto e ressecado da Baía de Farmington. Com a queda do nível da água, surgiram montículos circulares espalhados pela área descoberta. Cada um tinha cerca de 49 a 101 m de largura e estava tomado por juncos altos.

Essas estruturas não eram aleatórias. Elas indicavam água forçando passagem de baixo para cima.

Para enxergar além da camada superficial, os pesquisadores recorreram a levantamentos eletromagnéticos aerotransportados. Um helicóptero levou equipamentos especializados sobre a região, varrendo o que havia no subsolo.

Os resultados mostraram um padrão nítido: abaixo da camada salina, há água doce ocupando sedimentos até profundidades aproximadas de 3.050 a 3.960 m.

O destaque não foi apenas a profundidade. Aparentemente, a água doce avança para dentro, sob o corpo do lago, em vez de permanecer só nas bordas - onde rios e o escoamento superficial costumam entrar.

Michael Zhdanov, pesquisador líder do estudo na Universidade de Utah, explicou por que mapear esse sistema oculto é tão relevante.

“Conseguimos responder à pergunta de quão profundo é esse potencial reservatório e qual é sua extensão espacial sob a margem leste do lago. Se você sabe a profundidade, sabe a largura, sabe o espaço poroso, consegue calcular o volume potencial de água doce”, afirmou.

Um padrão surpreendente de fluxo de água

O que mais chamou a atenção dos cientistas não foi só a existência de água doce, mas a maneira como ela se comporta no subsolo.

O hidrólogo Bill Johnson, integrante da equipe, ressaltou que o caso foge do que normalmente se espera.

“A parte inesperada disso não foi a lente de sal que vemos perto da superfície em toda a planície salina. É que a água doce abaixo dela se estende tanto em direção ao interior do lago e possivelmente sob o lago inteiro. Não sabemos”, disse Johnson.

“O que normalmente esperaríamos como hidrólogos é que essa salmoura ocupasse todo o volume sob esse lago. Ela é mais densa do que a água doce.”

“Você esperaria que a água doce vinda das montanhas entrasse em algum ponto na periferia. Mas descobrimos que ela está indo em direção ao interior. E há o que parece ser um volume profundo dessa água doce entrando por baixo daquela lente salina.”

Em termos simples, a água salgada - por ser mais pesada - deveria ficar embaixo e empurrar a água doce para fora. Aqui, porém, a água doce está avançando para dentro, passando por baixo da camada salina e se espalhando sob o lago.

Essa mudança de entendimento pode alterar a forma como pesquisadores investigam outros lagos salgados ao redor do mundo.

Uma possível ferramenta contra poeira tóxica

A descoberta chega num momento em que o Grande Lago Salgado enfrenta forte pressão ambiental. Com a redução do nível da água, grandes trechos do leito ficaram secos.

Hoje, cerca de 2.072 km² de solo exposto liberam poeira na atmosfera, e parte desse material pode carregar metais nocivos. Essa poeira alcança cidades e municípios próximos, ampliando preocupações com a saúde.

O reservatório subterrâneo de água doce pode virar uma alternativa prática. Se houver gestão cuidadosa, ele talvez ajude a manter úmidas certas áreas do leito e, assim, diminuir tempestades de poeira.

Johnson vê esse ponto como essencial daqui para a frente: “Há efeitos benéficos dessa água subterrânea que precisamos entender antes de extrair mais dela.”

“Um objetivo de primeira ordem é entender se poderíamos usar essa água doce para umedecer pontos críticos de poeira e abafá-los de maneira significativa, sem perturbar demais o sistema de água doce”, afirmou Johnson.

“Para mim, esse é um objetivo principal porque é muito prático e é improvável que consigamos encher a Baía de Farmington e outras partes da planície salina o suficiente para evitar que algumas áreas de poeira apareçam em altitudes mais altas. Isso seria uma ótima forma de lidar com isso.”

A proposta não é esgotar o sistema, e sim utilizá-lo de modo controlado para ajudar a proteger a saúde pública.

Mapeando a paisagem subterrânea

Para interpretar o que ocorre abaixo da superfície, os pesquisadores combinaram ferramentas diferentes.

Os levantamentos aéreos mediram a resistividade elétrica, uma propriedade que ajuda a separar água salgada de água doce: a salmoura conduz eletricidade com mais facilidade, enquanto a água doce oferece maior resistência.

Zhdanov descreveu como isso aparece nos mapas: “Vermelho significa muito condutivo, azul é resistivo”, disse. “Você vê claramente que perto da superfície é água salina, 10 metros abaixo é água doce resistiva. Você vê claramente que está em toda parte.”

A equipe também analisou dados magnéticos para desenhar estruturas mais profundas. Essas medições indicaram que a camada de “embasamento” subterrâneo começa relativamente rasa e, de repente, despenca milhares de metros.

Esse limite abrupto pode ajudar a explicar por onde a água doce se desloca e onde ela tende a se acumular sob o lago.

Segredos do Grande Lago Salgado

Até agora, o estudo cobre apenas uma parcela do Grande Lago Salgado. O levantamento atravessou cerca de 248 km na Baía de Farmington e em parte da Ilha do Antílope.

Mas o lago, como um todo, tem aproximadamente 3.885 km². Ou seja, ainda há uma enorme área sem investigação.

Zhdanov avalia que um levantamento completo poderia revelar o formato e o tamanho reais desse reservatório oculto. “É por isso que precisamos levantar todo o Grande Lago Salgado. Aí vamos conhecer o topo e o fundo”, disse.

“Para estudar o topo, usamos métodos eletromagnéticos aerotransportados, que nos dão a espessura da camada salina e onde a água doce começa abaixo da camada salina.”

“Para estudar o fundo, usamos dados magnéticos. Usamos técnicas diferentes para estudar a extensão vertical desses sedimentos saturados de água doce, para encontrar a profundidade até o embasamento.”

Um mapeamento mais amplo também pode orientar a gestão de recursos hídricos na região. E pode, ainda, ajudar pesquisadores a procurar sistemas semelhantes escondidos sob outros lagos salgados no mundo.

Por enquanto, um ponto já ficou evidente: sob a superfície salgada do Grande Lago Salgado, há muito mais água doce do que se imaginava, moldando silenciosamente a paisagem a partir de baixo.

O estudo completo foi publicado na revista científica Relatórios Científicos.

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