Sindicatos e coletivos cívicos de professores denunciaram, nesta segunda-feira, dezenas de falhas ligadas ao processo de correção dos exames nacionais, num quadro que classificam como "caos". As organizações pedem explicações à tutela e defendem o apuramento de responsabilidades.
MetaPROF reúne ocorrências sobre os exames nacionais 2026
Por volta das 13 horas, o site criado pelo movimento cívico MetaPROF contabilizava 59 situações comunicadas por docentes. Com o título "Exames 2026: O caos documentado", a plataforma agrega dezenas de falhas registadas durante a realização dos exames e também problemas associados à classificação das provas, além de depoimentos de professores e minutas para reclamações formais junto do Júri Nacional de Exames (JNE), do Ministério da Educação e da Provedoria de Justiça.
Em comunicado, o Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (Stop) afirma que "A realidade demonstra que o sistema educativo português enfrenta hoje uma grave crise organizacional nunca antes vista".
Falhas na convocação e inconsistências nas provas
Para além dos atrasos na disponibilização das credenciais necessárias para aceder às provas - assunto noticiado nos últimos dias -, os professores relatam que foram chamados para esta tarefa docentes de outras disciplinas, bem como professores já aposentados ou, em alguns casos, já falecidos. Entre as ocorrências, mencionam ainda folhas de resposta associadas ao mesmo aluno com caligrafias diferentes e exames com páginas em falta e respostas incompletas.
Explicações não convenceram
Diante das situações divulgadas, o JNE explicou no sábado que a preparação dos exames nacionais para a classificação digital está "em fase de recuperação, após algumas dificuldades técnicas". As justificativas, porém, não foram consideradas suficientes pelos docentes.
Em nota divulgada hoje, a Federação Nacional da Educação (FNE) destaca que "quando estão em causa processos de avaliação com impacto direto na vida académica e profissional de milhares de alunos e docentes, qualquer falha assume uma gravidade acrescida e exige uma resposta proporcional".
A federação cobra esclarecimentos imediatos do Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA) sobre a dimensão e as causas dos problemas identificados e sobre as medidas adotadas para corrigi-los. Também não afasta o apuramento de responsabilidades políticas e de gestão, "incluindo a substituição dos responsáveis pela condução do Instituto".
O Stop, por sua vez, atribui o cenário à "incompetência política e administrativa" e alerta para efeitos tanto no acesso ao ensino superior quanto no planejamento do próximo ano letivo, caso se prolonguem os atrasos na correção das provas.
Efeitos para alunos, notas e acesso ao ensino superior
"Muitos alunos correm o risco de ver o seu trabalho avaliado de forma deficiente por docentes pressionados por prazos impossíveis ou, pior, sem habilitação legal específica para aquela disciplina", sublinha o sindicato, que afirma que a "confusão generalizada" cria "profunda injustiça e desigualdade no processo de avaliação".
O movimento SOS Escola Pública também aponta "falhas graves", tanto na aplicação das provas quanto na etapa de classificação. O grupo atribui parte dos problemas à substituição "à pressa" do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) "apenas para se dizer que se está a reformar".
"Professores e diretores que tentam manter à tona a escola pública no meio do caos que se vive em plena época de exames são acusados de escamotear a incompetência alheia e a falta de noção para brincar às experiências na véspera de um momento tão importante na vida dos alunos", acrescenta.
Diretores rejeitam responsabilidades
A Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (Andaep) afirmou não ter responsabilidade pelas falhas registadas na correção dos exames nacionais e criticou o que entende ser uma tentativa do Ministério da Educação de deslocar responsabilidades.
No comunicado, a Andaep sustenta que "o momento exige comunicação pública rigorosa, capaz de preservar a confiança dos professores classificadores, dos alunos e das suas famílias", e direciona críticas à nota divulgada pelo Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA) no sábado.
Nesse esclarecimento, o EduQA e o Júri Nacional de Exames (JNE) apontam para a responsabilidade das escolas na indicação dos docentes de cada disciplina e frisam que "a qualidade da informação prestada pelas escolas é determinante para a correta elaboração das convocatórias".
Do lado das direções escolares, a Andaep garante que "as escolas cumpriram, dentro dos prazos estabelecidos, todos os procedimentos que lhes foram solicitados pelo JNE" e defende que as ocorrências têm origem "tecnológica e organizacional da entidade responsável pela operacionalização do modelo".
Após a posição do EduQA e do JNE, os diretores consideram inaceitável que a tutela "procure transferir para as escolas responsabilidades que manifestamente não lhes pertencem".
"Mais do que procurar responsabilidades nas escolas, importa reforçar os mecanismos de apoio, comunicação e acompanhamento deste processo, evitando declarações suscetíveis de gerar desnecessária intranquilidade junto das comunidades educativas", defendem.
Os exames nacionais seguem a ser realizados em papel, mas, pela primeira vez, a correção será feita em formato digital, com conclusão prevista até 10 de julho. A 1.ª fase dos exames nacionais ocorreu entre 16 e 26 de junho, seguindo-se a 2.ª fase, entre 16 e 22 de julho. As notas da 1.ª fase devem ser conhecidas a 14 de julho e, uma semana depois, a 20 de julho, começam as candidaturas ao ensino superior para os alunos que pretendem prosseguir estudos.
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