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Curso d’água subterrâneo no Texas revela fósseis surpreendentes da Era do Gelo

Mergulhador tocando tartaruga em caverna subaquática com caderno e lanterna no fundo.

Um curso d’água subterrâneo escondido no Texas revelou uma coleção inesperada de fósseis da Era do Gelo. Entre os restos, há animais que nunca tinham sido registrados no Centro do Texas.

A descoberta foi feita por um paleontólogo da University of Texas at Austin (UT), durante a exploração de trechos submersos da caverna.

Descoberta de fósseis na caverna

John Moretti, da Jackson School of Geosciences da UT, explorou a Bender’s Cave, no Condado de Comal.

O que diferencia esse local da maioria dos sítios fossilíferos é a presença de um riacho subterrâneo que atravessa a caverna.

Ao investigar o ambiente, Moretti encontrou fósseis espalhados pelo leito do curso d’água. Ele identificou fragmentos de uma tartaruga gigante e placas de armadura de um pampatherídeo - um parente grande do tatu.

O fato de esses animais nunca terem sido encontrados antes nessa área tornou a descoberta especialmente relevante.

Fósseis espalhados por toda a caverna

“Estava cheio de fósseis, literalmente por toda parte, de um jeito que eu não tinha visto em nenhuma outra caverna. Eram ossos por todo o chão”, disse Moretti.

Cavernas com água funcionam como corredores naturais. Em eventos de cheia, a água arrasta ossos por sumidouros e os leva para dentro da caverna. Com o passar do tempo, esses fósseis se depositam no piso subterrâneo.

Muitos dos restos foram moldados pelo deslocamento da água: ficaram mais lisos e arredondados, além de manchados por minerais - sinais de que permaneceram sendo transportados por um período prolongado.

Mergulho de snorkel em busca de fósseis

Moretti e o coautor John Young voltaram ao local várias vezes entre 2023 e 2024. Para examinar o leito do riacho, usaram máscara de mergulho e snorkel.

Em vez de escavar a rocha, a equipe coletou fósseis diretamente do fundo do curso d’água.

A caverna guardava vestígios de diversos animais da Era do Gelo, incluindo preguiças-gigantes, gatos-dente-de-sabre, camelos, mastodontes e mamutes.

Os achados não estavam distribuídos de forma uniforme. Muitos apareciam concentrados em determinados pontos ou encobertos por depósitos de argila no interior da caverna.

Novos fósseis no Centro do Texas: tartaruga gigante e Holmesina

Alguns dos animais identificados na Bender’s Cave eram totalmente inéditos para o Centro do Texas. Os cientistas reconheceram uma tartaruga gigante e um pampatherídeo do género Holmesina.

Outros, como mastodontes e preguiças-gigantes, eram considerados extremamente raros na região. Pesquisadores analisam cavernas do Centro do Texas há décadas, e ainda assim essas espécies não tinham sido observadas ali.

Isso indica que a caverna abriga um conjunto singular de fósseis - capaz de alterar o que a ciência entendia sobre o passado local.

Pistas sobre o clima escondidas nos fósseis

Os cientistas avaliam que esses fósseis possam vir de uma fase mais quente da Era do Gelo, conhecida como período interglacial. Nessa etapa, o clima era mais quente e mais húmido do que o habitual.

Os animais encontrados reforçam essa hipótese. Tartarugas gigantes dependem de temperaturas elevadas. Pampatherídeos também tendem a ambientes quentes. Já preguiças e mastodontes viviam em áreas florestadas.

O estudo aponta que esse conjunto sugere um ambiente diferente do cenário frio e seco de campos abertos normalmente associado ao Centro do Texas.

“Este sítio está a mostrar-nos algo diferente, e isso é muito importante por causa de todo o trabalho que já foi feito nesta região”, disse Moretti.

Comparação com outros fósseis do Texas

Para contextualizar o achado, os cientistas compararam a Bender’s Cave com muitos outros sítios fossilíferos do Texas. Eles analisaram padrões de fauna em mais de 40 locais.

Os resultados indicaram que a Bender’s Cave se parece mais com sítios de períodos quentes do que com outros sítios próximos no Centro do Texas.

Isso sugere que os animais da caverna podem ter vivido em uma fase climática diferente daquela representada pela maioria dos fósseis conhecidos na região.

Idade dos fósseis ainda é incerta

Determinar a idade exata desses fósseis não é simples. Os cientistas tentaram a datação por radiocarbono, mas os resultados não ficaram claros.

Em cavernas, a água e os minerais podem interferir nos restos preservados. Isso reduz a confiabilidade da datação, porque os ossos podem absorver materiais novos ao longo do tempo.

Por esse motivo, os pesquisadores precisam recorrer a outros indícios - como as espécies presentes e os ambientes em que elas viviam - para estimar a idade.

Centro do Texas na Era do Gelo

A descoberta muda a forma como os cientistas interpretam o Centro do Texas durante a Era do Gelo. A presença de animais ligados a florestas e de espécies associadas a clima quente indica que a região nem sempre foi um campo seco.

Em determinados períodos, pode ter havido florestas e condições mais quentes. Essa possibilidade ajuda a entender por que animais tão incomuns aparecem juntos no mesmo local.

“Alguns dos fósseis que o John encontrou são espécies que não achávamos que ocorreriam nesta parte do Texas. O facto de ainda estarmos a aprender coisas novas e a descobrir coisas novas é bastante empolgante”, acrescentou David Ledesma, da St. Edward’s University.

Trabalho conjunto para investigar o passado

A Bender’s Cave fica em propriedade privada, o que exigiu autorização para a realização do estudo. Proprietários e espeleólogos locais tiveram papel essencial para que a pesquisa acontecesse.

“Essas ligações e parcerias tornam possível grande parte das ciências naturais feitas no Texas. É preciso a contribuição de todos, não apenas de cientistas em universidades, para compreender o mundo natural em que vivemos e do qual dependemos”, acrescentou Moretti.

A descoberta reforça que, mesmo hoje, lugares ocultos ainda podem revelar novas histórias sobre o passado da Terra.

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