Pular para o conteúdo

Metano e radical hidroxila: como o “detergente” do ar pode mudar com o aquecimento

Cientista com jaleco e tablet observa reação química em frasco na natureza, com cidade ao fundo.

O metano pode permanecer pouco tempo na atmosfera, mas ainda assim aquece o planeta com rapidez. E existe um componente químico minúsculo no ar que ajuda, todos os dias, a eliminá-lo.

Agora, cientistas querem entender o que pode acontecer com esse sistema natural de “limpeza” à medida que a Terra fica mais quente.

O metano é um gás de efeito estufa muito potente. Ele retém calor de forma bem mais intensa do que o dióxido de carbono, mesmo sem permanecer no ar por tanto tempo.

Com o passar dos anos, atividades humanas elevaram as concentrações de metano na atmosfera. Isso preocupa porque, se o metano passar a durar mais tempo no ar, pode intensificar o aquecimento global.

O limpador natural do ar

O radical hidroxila é uma molécula altamente reativa que atua na limpeza do ar. Muitas vezes chamado de “detergente” da atmosfera, ele reage com o metano e o decompõe.

“Radicais hidroxila são importantes para determinar o tempo de vida do metano e de outros gases de efeito estufa reativos, assim como de gases que afetam a saúde pública, incluindo o ozônio e certos outros poluentes do ar”, afirmou a autora principal do estudo, Qindan Zhu.

Mesmo sendo microscópica, essa molécula tem um papel enorme: ela remove a maior parte do metano presente na atmosfera.

Muitos fatores influenciam esse sistema

O processo de limpeza não é direto. Há diversos elementos que controlam quanto radical hidroxila existe no ar.

Temperatura, luz solar e vapor de água influenciam esse equilíbrio. Outros gases atmosféricos podem tanto favorecer sua formação quanto destruí-lo. Além disso, variações naturais nos padrões climáticos e meteorológicos também entram na conta.

Como são muitos os controles ao mesmo tempo, prever o comportamento futuro desse sistema é um desafio para os cientistas.

Para estudar essa dinâmica, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology, da Columbia Climate School e do National Center for Atmospheric Research desenvolveram um modelo.

O modelo, chamado AquaChem, simplifica a Terra para que os cientistas se concentrem apenas na atmosfera. Assim, ele ajuda a esclarecer como diferentes fatores alteram a capacidade do ar de “limpar” o metano.

O que acontece quando a Terra aquece

Quando o planeta esquenta, o ar consegue reter mais vapor de água. Isso favorece a geração de mais radicais hidroxila - o que, em princípio, melhora a remoção do metano.

Por outro lado, o aquecimento também faz com que plantas liberem mais gases naturais para a atmosfera. Esses gases reagem com os radicais hidroxila e diminuem sua quantidade.

Ou seja, o aumento de temperatura ativa simultaneamente dois efeitos opostos.

As plantas emitem gases naturais como parte de sua atividade normal. Com temperaturas mais altas, essa liberação se intensifica.

O resultado é que esses gases consomem os radicais hidroxila mais rapidamente, reduzindo a capacidade do ar de degradar o metano.

Assim, embora o ar mais quente facilite a produção de moléculas “limpadoras”, as emissões das plantas anulam uma parte desse ganho.

O papel das emissões das plantas

Os cientistas analisaram o que ocorreria se a temperatura global aumentasse 2 graus Celsius (3,6°F). Eles observaram que o vapor de água amplia o poder de limpeza da atmosfera.

Ao mesmo tempo, os gases liberados pelas plantas reduzem essa capacidade. No balanço final, a atmosfera pode ficar apenas um pouco mais eficiente para remover metano.

“Para o metano, a reação com OH é considerada a via de perda mais importante”, disse Zhu. “Cerca de 90 por cento do metano que é removido da atmosfera se deve à reação com OH.”

Até mudanças pequenas nesse mecanismo importam. Um aumento ou redução discreta pode alterar por quanto tempo o metano permanece no ar.

Isso torna mais difícil prever mudanças climáticas futuras. Os pesquisadores também concluíram que as emissões naturais das plantas ainda são incertas, o que acrescenta mais complexidade ao problema.

“Há toda uma gama de razões ambientais pelas quais queremos entender o que está acontecendo com essa molécula”, disse a coautora Arlene Fiore, do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

“Queremos garantir que ela esteja presente para remover quimicamente todos esses gases e poluentes.”

O que vem a seguir

Os cientistas planeiam aprimorar os seus modelos e incorporar mais fatores do mundo real. O objetivo é compreender melhor como as plantas e outros sistemas naturais irão reagir ao aquecimento.

“Sabemos que mudanças no OH atmosférico, mesmo de alguns por cento, podem realmente fazer diferença para interpretar como o metano pode se acumular na atmosfera”, afirmou Zhu. “Entender as tendências futuras de OH nos permitirá determinar as tendências futuras de metano.”

No fim, a pesquisa reforça que até moléculas minúsculas podem exercer um efeito grande no clima da Terra.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário