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Homem de Vitruve: a razão tetraédrica de Leonardo da Vinci, segundo Rory Mac Sweeney

Jovem estudando mapas antigos com lupa em biblioteca iluminada por luz natural de janela.

Um pequeno elemento desenhado entre as pernas do Homem de Vitruve acaba de ser reexaminado com uma nova abordagem geométrica - e isso pode ajudar a explicar um dos enigmas mais duradouros ligados à obra-prima do grande mestre italiano.

Há criações que atravessam os séculos sem que a sua zona de sombra se dissipe, por mais que especialistas tentem. Entre os artistas italianos de sua época, Leonardo da Vinci se destaca justamente por deixar pistas que parecem convidar à dúvida: sua produção segue sendo uma fonte inesgotável de perguntas e disputas, porque o autor dominava como poucos a arte de ocultar intenções. Basta lembrar A Mona Lisa e o sorriso tão difícil de decifrar (além da paisagem ao fundo); A Dama com Arminho e a hipótese de uma mensagem codificada; Salvator Mundi e o globo de cristal fisicamente improvável; ou ainda A Virgem das Rochas, que parecia subverter convenções sagradas do catolicismo.

O detalhe entre as pernas do Homem de Vitruve e o enigma das proporções

O Homem de Vitruve, um dos desenhos mais conhecidos de Leonardo, costuma ser associado ao Número de Ouro (1,618). Essa leitura, dominante há quase cinco séculos - embora contestada -, sustenta que a razão expressa uma perfeição e uma harmonia ideais. Nessa interpretação, o artista teria usado o 1,618 para organizar as divisões do corpo, em especial na região do umbigo, em busca de uma “perfeição” estética universal.

O problema é que, quando se mede com rigor o traço original, as proporções obtidas não chegam exatamente a 1,618. E, para um gênio que não deixava pontas soltas nem na ciência nem na arte, isso é um sinal importante: se o resultado se afasta do 1,618, então outra regra geométrica pode ter sido adotada.

A hipótese é defendida pelo pesquisador Rory Mac Sweeney, autor de um estudo publicado em junho de 2025 na revista Journal of Mathematics and the Arts dedicado a essa obra. Para ele, a diferença observada nas proporções pode apontar para uma estrutura geométrica tridimensional cujas propriedades matemáticas só seriam formalizadas muitos séculos depois.

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A razão tetraédrica: a verdadeira constante do Homem de Vitruve?

Por muito tempo, o Homem de Vitruve foi analisado como se fosse apenas uma construção bidimensional. Só que Leonardo não era “apenas” pintor: atuava como engenheiro, arquiteto, anatomista, inventor, filósofo e escritor. Para uma mente acostumada a projetar máquinas e edifícios, seria difícil aceitar que o corpo humano se resumisse a um desenho plano. É dessa intuição que nasce a tese de Rory Mac Sweeney: o “segredo” do desenho talvez não esteja no Número de Ouro, e sim na razão tetraédrica (1,633).

Para visualizar o que é a razão tetraédrica, pense em tentar empilhar quatro bolas de tênis do modo mais compacto possível. O arranjo tende a formar uma pequena pirâmide com base triangular: um tetraedro. O 1,633 é a razão matemática associada a essa configuração - um valor que aparece na natureza sempre que a matéria precisa se organizar de forma densa e eficiente.

No diamante, por exemplo, cada átomo de carbono se liga a quatro outros em um ângulo de 109,5°, formando tetraedros “perfeitos”. Cristais de silício, base de toda a informática, também seguem essa organização tetraédrica. Na molécula de água (H2O), as ligações de hidrogênio se dispõem em tetraedro (com dois pares de elétrons livres). Muitos vírus (como o herpes) recorrem a formas geométricas simétricas próximas do tetraedro para proteger seu DNA. Em suma, a razão tetraédrica aparece com grande frequência quando a matéria encontra um modo estável de se estruturar.

Essa seria, nas palavras da proposta, uma espécie de “regra da organização perfeita” que Leonardo da Vinci teria levado para a anatomia humana ao desenhar o Homem de Vitruve, de acordo com Mac Sweeney.

As anotações de Leonardo e a medição do triângulo

Para sustentar o argumento, o pesquisador voltou às instruções manuscritas que acompanham o desenho. Leonardo deixou diversas observações ao redor da figura e, entre elas, aparece a seguinte passagem: “Se você afastar as pernase levantar as mãos ao ponto de seus dedos estendidos tocarem a linha do topo da sua cabeça… o espaço entre suas pernas formará um triângulo equilátero”.

E o que isso teria a ver com a razão tetraédrica? Ao calcular a relação entre a abertura dos pés (a base desse triângulo) e a altura do umbigo, Mac Sweeney chegou a um número entre 1,64 e 1,65. Do ponto de vista matemático, essa diferença é reveladora: o intervalo fica bem mais próximo de 1,633 (razão tetraédrica) do que do Número de Ouro (1,618).

A solução para esse mistério geométrico estava escondida à vista de todos”, afirma Mac Sweeney. Para ele, a presença dessa razão no Homem de Vitruve não seria mero acaso estético; como evidência, ele propõe um paralelo direto com o triângulo de Bonwill (ver imagem abaixo).

Descrito em 1864 pelo dentista William Bonwill, esse triângulo equilátero de 10 cm de lado conecta as duas articulações da mandíbula à ponta dos dentes da frente. É essa geometria que permitiria à nossa mandíbula aplicar pressão máxima com o mínimo de esforço. Em outras palavras, seguindo a tese de Mac Sweeney, a boca seria “projetada” segundo a mesma lógica de eficiência que Leonardo teria identificado: uma estrutura triangular que otimiza força e espaço.

Se essa nova chave de leitura proposta por Mac Sweeney for aceita, ela sugere que, ao desenhar o Homem de Vitruve, Leonardo da Vinci pode ter intuído princípios geométricos fundamentais que governam a matéria, sem dispor dos instrumentos científicos necessários para demonstrá-los. Isso transformaria a obra em uma reflexão surpreendentemente precoce sobre biomecânica, conectando a anatomia humana ao que se observa em outros sistemas naturais. Levando a hipótese adiante, talvez ele já enxergasse o corpo humano não como uma exceção divina - uma ideia que, na época, poderia ter roçado a heresia para a Igreja. É Leonardo: um pé na Renascença, o outro no futuro, sem nem perceber.


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