Um canto de ave não é apenas um som agradável. Para continuar a existir, uma ave precisa transmiti-lo para a próxima.
Alguns cantos “pegam” e acabam se espalhando por um grupo inteiro. Outros chegam perto de desaparecer, e só poucos indivíduos ainda os entoam.
Um estudo recente aponta um motivo inesperado para essa diferença: pode ter a ver com o tipo de terreno e vegetação por onde o som precisa se propagar.
Como aves jovens aprendem cantos
Em muitas espécies de aves canoras, o canto não é algo inato. Em vez disso, os jovens aprendem ao ouvir adultos e imitar o que escutam.
O processo lembra bastante a forma como crianças aprendem a falar: a ave jovem ouve um canto, tenta reproduzi-lo e vai praticando até acertar.
Os cientistas já sabiam que a vida social influencia esse aprendizado. Alguns jovens copiam os melhores reprodutores; outros tendem a imitar machos mais velhos ou mais fortes.
Mas pode existir mais uma influência atuando. O novo trabalho investiga se o local onde a ave vive também ajuda a determinar quais cantos ela consegue aprender.
Um pardal-de-Bachman com muitos cantos
A pesquisa, realizada na Universidade Atlântica da Flórida, analisou o pardal-de-Bachman, uma espécie que habita florestas abertas de pinheiros no sudeste dos Estados Unidos.
Cada macho conhece um repertório grande. Em média, um indivíduo canta 48 músicas diferentes.
Parte desses cantos é compartilhada por muitos indivíduos. Outros são incomuns e aparecem em apenas um número pequeno de machos.
Quando se olha a população como um todo, surge um padrão curioso: poucas músicas são amplamente partilhadas, enquanto a maioria é ouvida só de vez em quando.
A viagem do som pelo ar
A equipa quis entender por que alguns cantos se espalham e outros não. Para que um jovem consiga copiar, antes ele precisa ouvir.
Daí veio a hipótese: talvez os cantos que se mantêm mais longe e com mais nitidez sejam, simplesmente, os que os jovens escutam com maior frequência.
Para testar a ideia, a equipa tocou cantos comuns e raros em ambiente natural no sul da Flórida. Depois, gravou como cada canto era percebido após percorrer uma certa distância.
Os investigadores avaliaram o quanto cada canto enfraquecia e quanto perdia de volume. Também quantificaram o ruído de fundo e analisaram de que maneira árvores, vento e a altura a que o “cantor” estava alteravam a propagação do som.
O que os cantos populares têm em comum
Os cantos mais populares apresentaram características semelhantes: usavam notas mais altas, abrangiam uma faixa mais ampla e eram mais rápidos do que os cantos raros.
Além disso, suportavam melhor o trajeto. Nas medições acústicas, os cantos comuns chegavam ao ponto mais distante com menos deformações no seu formato.
A distância desgastou os dois tipos de canto de forma parecida. Ainda assim, os comuns permaneceram mais nítidos no geral, enquanto os raros chegavam mais “embolados”.
Essa nitidez pode ser crucial. Como uma ave jovem tem uma janela curta para aprender, um canto claro é mais fácil de captar e copiar do que um canto indistinto.
“Os nossos resultados sugerem que os cantos mais frequentemente partilhados dentro de uma população podem ter uma vantagem embutida, porque permanecem mais claros à medida que se propagam pelo ambiente”, afirmou a Dra. Rindy Anderson, autora sénior do estudo.
“Uma das descobertas mais fascinantes foi que até pequenas diferenças na estrutura do canto influenciaram o quanto ele resistiu à degradação em algumas métricas.”
Segundo a Dra. Anderson, isso indica que o ambiente pode estar a moldar, de maneira subtil, as tradições de canto, ao influenciar quais músicas os juvenis conseguem ouvir e aprender com mais eficiência.
O papel do vento e das árvores
O habitat também teve influência, embora nem sempre da forma mais óbvia.
O vento alterou certos aspetos do som, mas deixou outros praticamente inalterados, e cantos emitidos a partir de pontos mais altos conservaram-se melhor.
As árvores, porém, produziram o efeito mais claro. Quanto mais densa era a arborização, mais difícil ficava distinguir os cantos raros.
Isso é uma má notícia para essas melodias pouco comuns: se os jovens não as ouvem bem, a probabilidade de aprendê-las e mantê-las diminui bastante.
Como os cantos se consolidam
Nada disso significa que a acústica explique tudo. Os investigadores fazem questão de destacar que outros fatores provavelmente contam tanto quanto - ou até mais.
A identidade do “professor” ainda é importante. Também pesa quais aves conseguem parceiras e, assim, transmitem os seus cantos.
“Os cantos das aves são produto tanto da cultura quanto do ambiente”, disse o Dr. Hans R. Gonzembach, primeiro autor do estudo.
“Os nossos resultados sugerem que a transmissão ambiental pode ajudar a preparar o terreno para a aprendizagem, mas as interações sociais determinam, em última instância, quais cantos se estabelecem dentro de uma população.”
“Pesquisas futuras vão examinar como aves juvenis equilibram essas influências ambientais e sociais ao desenvolverem os seus repertórios, ajudando-nos a entender melhor como culturas animais evoluem e persistem ao longo do tempo.”
A disseminação dos cantos de aves
O processo parece ocorrer em duas etapas. Primeiro, o ambiente define quais cantos um jovem consegue ouvir com clareza. Depois, a ave escolhe quais desses cantos vai aprender e conservar.
Um canto comum é aquele que passou pelas duas fases: propagou-se bem o suficiente para ser escutado e veio de um indivíduo que valia a pena imitar.
Agora, os investigadores querem descobrir como aves jovens ponderam essas duas forças enquanto crescem. A resposta pode ajudar a explicar como tradições animais surgem e se mantêm ao longo do tempo.
No fim das contas, um canto pode se espalhar não apenas por causa de quem o entoa, mas também porque a paisagem o leva com nitidez até a próxima ave pronta para ouvir.
O trabalho recebeu apoio da Bolsa de Pós-Graduação Courtenay da FAU e do Prémio de Pesquisa Memorial Bergstrom da Associação de Ornitólogos de Campo, concedido a Gonzembach.
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