Pular para o conteúdo

Contação de histórias melhora a memória, aponta estudo da Universidade do Mississippi

Jovem explicando conceitos para mulher, com livro aberto e imagens ilustrativas flutuando perto da mão.

Você já reparou como é fácil guardar na cabeça uma história inteira, mas bem mais difícil memorizar uma lista de factos soltos? Essa sensação comum pode dizer muito sobre o modo como o cérebro humano lida com a informação.

Um estudo recente da Universidade do Mississippi indica que a contação de histórias vai muito além do entretenimento: ela pode estar entre as estratégias mais eficazes para reforçar a memória.

Histórias fazem a memória funcionar melhor

Ao longo de milhares de anos, pessoas de diferentes culturas recorreram a histórias para transmitir saberes. Antes de livros, internet ou telemóveis, narrativas eram a ferramenta principal para levar conhecimento de uma geração à seguinte.

Segundo a pesquisa, esse hábito antigo pode ter influenciado a forma como a memória opera hoje. Foi com essa ideia que Matthew Reysen e Zoe Fischer, da Universidade do Mississippi, decidiram investigar o tema.

Os resultados sugerem que contar histórias ajuda o cérebro a organizar dados e a recuperar lembranças com mais facilidade. Os autores também levantam a hipótese de que isso possa estar relacionado com a evolução da memória humana.

“People have been using stories to communicate information as long as they’ve been passing information from one person to another,” disse Reysen. “But there wasn’t much in the literature about storytelling as a way to improve memory.

Histórias podem salvar vidas em situações de perigo

O artigo traz um exemplo marcante do mundo real. Em 2004, um tsunami devastador atingiu regiões próximas da Indonésia. Houve um enorme número de mortes, mas, na ilha de Simeulue, poucas vidas foram perdidas.

O que explica essa diferença? Os moradores guardavam narrativas transmitidas ao longo de gerações.

Essas histórias ensinavam a reconhecer sinais de risco, como o mar recuar de repente. Quando isso aconteceu, as pessoas deslocaram-se rapidamente para zonas mais altas e permaneceram em segurança.

O episódio ilustra como narrativas conseguem transportar informação crítica - e como podem levar a respostas rápidas quando cada minuto conta.

Testando a memória com listas de palavras

Para medir o impacto da contação de histórias na memória, os investigadores conduziram várias experiências com estudantes. Os participantes recebiam listas de palavras sem ligação aparente entre si, como “diamante”, “cenoura” ou “cadeira”.

Cada grupo precisava memorizar os termos usando um método diferente. Alguns avaliavam se as palavras lhes pareciam agradáveis.

Outros imaginavam de que forma aqueles itens poderiam ajudá-los a sobreviver numa situação difícil. Um terceiro grupo tinha de criar histórias que incluíssem todas as palavras.

Após um pequeno intervalo, cada participante tentou recordar o maior número possível de palavras.

Histórias melhoraram a memória

Os achados chamaram a atenção. Quem criou histórias recuperou mais palavras do que quem aplicou estratégias simples, como apenas julgar se algo era agradável.

Em muitos casos, a contação de histórias foi tão eficiente quanto o chamado processamento de sobrevivência - uma técnica que especialistas já consideram entre as mais fortes para memorizar.

“Our result was that storytelling was just as good as survival processing, and in the cases where people actually wrote out the stories, even better than the popular survival technique,” disse Reysen.

“The overall conclusion is that, just like with survival processing, memory may have an evolutionary tie to storytelling.”

Num dos testes, o grupo que construiu narrativas alcançou a maior quantidade de palavras lembradas quando comparado aos demais.

Por que a contação de histórias funciona tão bem

Uma das razões para a eficácia das histórias é que elas impõem estrutura ao conteúdo. Em vez de guardar elementos aleatórios, o cérebro passa a encadear ideias num percurso com sentido.

Os investigadores descrevem o fenómeno com base em dois processos. Um deles é o processamento relacional, em que a mente cria ligações entre ideias. O outro é o processamento específico do item, quando o cérebro identifica o que torna cada elemento distinto.

Ao mesmo tempo em que conecta informações, uma história também atribui função a cada detalhe. Essa combinação facilita tanto o armazenamento quanto a recuperação posterior.

Histórias como ferramenta natural de memorização

A pesquisa aponta que a contação de histórias pode ser uma técnica mnemónica natural - ou seja, algo que o cérebro tende a usar sem exigir treino especial.

Trabalhos anteriores já indicavam que, com frequência, as pessoas recorrem espontaneamente a narrativas para se lembrar de coisas. Mesmo quando não recebem orientação, alguns participantes acabam transformando listas em pequenas histórias para melhorar a recordação.

Em comparação com truques de memória mais complexos, contar histórias é algo intuitivo e familiar. Por isso, pode ser especialmente útil em situações do dia a dia, como estudar ou ensinar.

Como isso pode ajudar a aprendizagem

A descoberta tem potencial para influenciar a forma de aprender nas escolas. Muitos professores já recorrem a histórias para tornar conceitos difíceis mais acessíveis; agora, há evidências científicas de que essa prática também melhora a retenção.

“This is something that we hear often, right?” disse Fischer. “I presented at a conference recently, and so many professors came up to me after and said, ‘I tell stories during my lectures and I do it because it’s entertaining and more interesting, and people tend to love it.’

“It’s so wonderful that we can see that there’s evidence that this actually helps them remember information even more. Now we know it’s not only entertaining for them, but also helpful.”

Do lado dos alunos, a ideia pode ser aplicada ao estudo: transformar apontamentos em uma narrativa curta pode torná-los mais fáceis de recuperar na hora da prova.

O que acontece quando os métodos são combinados

Os investigadores também avaliaram o que ocorreria ao juntar contação de histórias e pensamento de sobrevivência. À primeira vista, seria razoável esperar um ganho adicional.

No entanto, usar as duas abordagens em conjunto não aumentou ainda mais a memória. Isso sugere que ambas dependem de mecanismos cerebrais semelhantes.

“You would think, if both things work separately, that they would work even better together,” disse Fischer. “But what that tells us is that these two systems, underlyingly, have the same kind of cognitive function.”

Memória moldada por histórias

O estudo também sustenta uma ideia mais ampla: a memória humana pode ter evoluído para reter informação útil - sobretudo quando ela vem embutida numa narrativa.

“Before people began even writing down words, they used stories to communicate information,” disse Reysen.

“So, it makes sense to me, from an evolutionary perspective, that we would be better at retaining stories, that the mind provides a sort of framework or structure within it to include the information which organizes it and makes it easier to retrieve.”

Para humanos ancestrais, histórias poderiam ser determinantes para a sobrevivência, ao partilhar conhecimento sobre perigos, alimentos e segurança.

Mesmo num mundo digital, narrativas continuam a ter força. De aulas a publicações em redes sociais, histórias influenciam como as pessoas comunicam e como fixam ideias na memória.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário