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Astrónomos capturam imagem direta do exoplaneta mais fraco, Beta Pictoris d

Jovem cientista aponta para imagem de galáxia em monitor, sentado em escritório com equipamento astronômico.

Uma das coisas mais empolgantes na ciência é perceber que, muitas vezes, ela acontece por acaso.

De penicilina a Post-its, descobertas inesperadas já mudaram o mundo - e até facilitaram, mais do que nunca, a tarefa de etiquetar aquela travessa de comida que sobrou.

Achados fortuitos com frequência surgem bem debaixo do nariz dos cientistas, aparecendo a partir de caixas esquecidas em reservas técnicas de museus, em vez de - por exemplo - virem das ruínas bolorentas de uma cidade engolida pelo tempo numa selva ancestral.

Na astronomia, a lógica é a mesma: pesquisadores acabam de identificar o planeta mais fraco já obtido por imagem direta a partir da Terra - e sem sequer estarem à procura dele.

Descoberta acidental de Beta Pictoris d

Em órbita da estrela próxima Beta Pictoris, o planeta batizado de Beta Pictoris d foi “descoberto” formalmente em 2025, mas sua confirmação veio de observações que remontam a mais de uma década.

"Foi uma descoberta serendipitosa", explica Ben Sutlieff, astrónomo da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, e co-líder de um novo estudo que descreve a descoberta do planeta, publicado no The Astrophysical Journal Letters.

"No início, queríamos observar mais um planeta já conhecido no sistema, o Beta Pictoris b, para ver como ele mudava ao longo do tempo."

O sistema Beta Pictoris e os seus discos de detritos

Beta Pictoris é a segunda estrela mais brilhante da constelação de Pictor (latim para "pintor"), situada a uma distância cosmicamente “ao alcance do dedo”: apenas 64 anos-luz. Ela tem quase o dobro da massa do Sol, é 50% maior e brilha com quase nove vezes mais intensidade.

Além disso, Beta Pictoris é extremamente jovem - cerca de 23 milhões de anos - e é “roçada” por cometas quase todos os dias.

Tão jovem que, na verdade, ela é envolvida por enormes discos de detritos, onde ocorrem colisões importantes e que se estendem por uma distância cinco vezes maior do que a separação entre o Sol e o nosso distinto planeta anão, Plutão.

Esses discos funcionam como berçários poeirentos dos quais nascem planetas, incluindo dois “bebés” planetários já conhecidos: Beta Pictoris b e Beta Pictoris c, gigantes gasosos com aproximadamente dez vezes a massa de Júpiter, porém com temperaturas escaldantes e ainda mais elevadas.

Agora, com observações novas e antigas do Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul (ESO), e também com dados de arquivo do Telescópio Espacial James Webb (JWST), astrónomos conseguiram extrair a presença do terceiro “bebé” gasoso desse sistema em formação: Beta Pictoris d.

"Ao que parece, o planeta d tem brincado de esconde-esconde connosco há mais de uma década e só agora podemos dizer: 'achei você!'", afirma Jayne Birkby, professora de astrofísica e astrónoma da Universidade de Oxford e coautora do estudo.

Por que este exoplaneta é tão difícil de fotografar - e o que vem a seguir

Diferentemente dos seus irmãos mais “parrudos”, esse planeta mais franzino é menos massivo e mais frio: tem apenas 2,4 vezes a massa de Júpiter e uma temperatura relativamente baixa de 330 °C (620 °F).

A confirmação tardia, segundo os pesquisadores, tem duas causas principais - e uma delas é a separação. Ele fica a mais do que o dobro da distância da estrela em comparação com os planetas irmãos, quase tão longe quanto Netuno está do Sol.

Além disso, obter imagens diretas de planetas - isto é, fotografá-los - é extremamente difícil, porque eles se perdem com facilidade no brilho ofuscante das estrelas-mãe, que podem ser até mil milhões de vezes mais brilhantes.

Por isso, "este novo planeta é 100 vezes mais fraco do que Beta Pictoris b, o famoso planeta no mesmo sistema, o que o torna o exoplaneta mais fraco já obtido por imagem direta a partir da Terra", diz Markus Bonse, astrofísico na sede do ESO em Garching, na Alemanha, e co-líder do estudo.

O resultado é um elogio à persistência (à virtude, não ao robô que tira selfies em Marte - embora o 'Percy' seja muito querido).

O trabalho também reforça que observações repetidas costumam ser indispensáveis para detectar planetas com órbitas amplas, que às vezes ficam perto demais - ou longe demais - das suas estrelas para serem percebidos.

De forma animadora, este achado sugere apenas a ponta de um icebergue universal. Os pesquisadores observam que a obtenção de imagens diretas no infravermelho já revelou dezenas de planetas jovens com várias vezes a massa de Júpiter, permitindo vislumbrar mundos absurdamente alienígenas, com temperaturas efetivas acima de 1.650 °C (3.000 °F).

"Sistemas com múltiplos exoplanetas obtidos por imagem direta são os 'santos graais' das descobertas, porque podem ensinar muito sobre como diferentes exoplanetas se comportam dentro do mesmo ambiente de formação", afirma Sutlieff.

A equipa acrescenta que melhorias recentes e futuras - junto de observatórios revolucionários como o futuro Extremely Large Telescope (ELT), de nome nada misterioso - devem abrir caminho para encontrar mundos que hoje permanecem invisíveis, expondo um aspeto singular do cosmos e um canal essencial na busca por vida e pela evolução planetária.

Uma via de muitos canais, mesmo porque "muitos dos sistemas famosos de exoplanetas obtidos por imagem direta parecem ter múltiplos planetas gigantes no mesmo sistema", conclui Beth Biller, astrónoma da Universidade de Edimburgo.

E, acrescenta Biller, é provável que "existam ainda mais planetas de menor massa escondidos nesses sistemas, que podem ser revelados com instrumentos no ELT".

Esta pesquisa foi publicada no The Astrophysical Journal Letters.

Este artigo teve checagem de factos por Michelle Starr e edição de Rebecca Dyer. Embora nos orgulhemos do nosso processo, somos humanos. Se você identificar algum erro, por favor, avise-nos.


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