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Escurecimento do oceano: estudo com dados da NASA mostra redução da zona fótica (2003–2022)

Pessoa mergulhadora segura tablet com mapa térmico sob a água clara iluminada pelo sol.

Quase toda a vida no oceano depende das águas superficiais onde a luz do Sol consegue penetrar - a chamada zona fótica. Uma pesquisa recente, porém, indica que essa estreita faixa de luz marinha essencial está diminuindo em mares do planeta inteiro. Nos últimos 20 anos, segundo cientistas marinhos, mais de um quinto dos oceanos vem ficando mais escuro.

Thomas Davies, biólogo marinho da Universidade de Plymouth, e Tim Smyth, biogeoquímico marinho da Universidade de Exeter, perceberam que, apesar de a preocupação com o escurecimento do oceano estar crescendo entre pesquisadores, ainda faltava alguém medir, de fato, qual era a dimensão do fenômeno.

"Há pesquisas mostrando como a superfície do oceano mudou de cor ao longo dos últimos 20 anos, possivelmente como resultado de alterações nas comunidades de plâncton", diz Davies.

"Nossos resultados fornecem evidências de que essas mudanças causam um escurecimento generalizado que reduz a quantidade de oceano disponível para animais que dependem do Sol e da Lua para sua sobrevivência e reprodução."

Combinando dados de satélite da NASA de 2003 a 2022 com modelagem numérica, a dupla identificou um padrão: ao longo do tempo, a profundidade da zona fótica - que, por definição, limita o habitat da maior parte da vida marinha - vem diminuindo.

O que é a zona fótica e por que ela é vital

A zona fótica é a camada mais alta do oceano, na qual a luz do Sol (inclusive a luz refletida pela Lua) atravessa a água. Todos os organismos marinhos que fazem fotossíntese - como capins-marinhos, kelps e, sobretudo, o fitoplâncton - precisam viver nas porções mais rasas dessa camada para captar a energia solar.

Por isso, muitos outros seres que dependem desses produtores primários - como corais, crustáceos, peixes e mamíferos marinhos - também permanecem na zona fótica.

O que os dados revelam sobre o escurecimento do oceano

O estudo constatou que, em quase 10% dos oceanos do mundo, a profundidade da zona fótica diminuiu em mais de 50 metros (164 pés). Na prática, isso significa que o habitat tridimensional encolheu bastante, o que aumenta a competição por recursos. O cenário é ainda mais crítico em 2,6% do oceano, onde a zona fótica foi reduzida em mais de 100 metros.

"O oceano é muito mais dinâmico do que costuma receber crédito. Por exemplo, sabemos que os níveis de luz na coluna d’água variam enormemente ao longo de qualquer período de 24 horas, e animais cujo comportamento é diretamente influenciado pela luz são muito mais sensíveis aos seus processos e às mudanças", diz Smyth.

"Se a zona fótica estiver diminuindo em torno de 50 metros em grandes extensões do oceano, animais que precisam de luz serão forçados a ficar mais próximos da superfície, onde terão de competir por alimento e por outros recursos de que precisam. Isso pode provocar mudanças fundamentais em todo o ecossistema marinho."

Por que a profundidade da zona fótica muda

A profundidade da zona fótica é influenciada por vários fatores. Quando a luz atinge o oceano em um mergulho mais vertical - como os raios próximos ao Equador ao meio-dia - ela consegue penetrar mais fundo na água, com menos fótons sendo refletidos na superfície.

Além disso, quanto menor a resistência encontrada por esses fótons em queda - na forma de sedimentos suspensos e matéria orgânica -, mais fundo eles conseguem descer. É por isso que, em águas tropicais claras, a luz pode alcançar até 80 metros de profundidade.

Quando a luz entra na água em um ângulo, por outro lado, uma parcela maior é refletida na superfície, e os fótons que conseguem atravessá-la precisam percorrer um caminho mais longo até descer. O resultado é uma zona fótica muito mais estreita nas regiões polares - com menos de 10 metros de profundidade em alguns locais.

Isso pode ajudar a explicar por que algumas das mudanças mais marcantes foram observadas nas zonas fóticas do Ártico e da Antártida. Mas sedimentos e outras partículas em suspensão, como florações de algas, também tornam a água mais opaca, interferindo na profundidade que a luz consegue atingir.

É esse o mecanismo que Davies e Smyth suspeitam estar escurecendo as águas do mundo nas últimas décadas.

"Uma combinação de aporte de nutrientes, material orgânico e sedimentos próximo às costas e mudanças na circulação oceânica global são causas prováveis de aumentos na produtividade primária e secundária que reduziram a penetração de luz nas águas superficiais", escrevem os autores no artigo.

Em situações extremas, como as florações de algas recentes ao longo do Grande Recife do Sul da Austrália, a falta de luz pode desencadear eventos de mortalidade em massa.

Onde o escurecimento aparece com mais força

O encolhimento das zonas fóticas do planeta não ocorre apenas perto da costa, onde seria esperado que o excesso de escoamento associado a atividades humanas deixasse a água mais turva - algo evidente no Mar Báltico e nas costas orientais da Inglaterra e da Escócia. O escurecimento também foi expressivo na Corrente do Golfo e nas regiões polares, onde a mudança climática vem alterando rapidamente os sistemas naturais.

"Também dependemos do oceano e de suas zonas fóticas para o ar que respiramos, os peixes que comemos, nossa capacidade de combater a mudança climática e para a saúde e o bem-estar gerais do planeta", diz Davies.

"Considerando tudo isso, nossos achados representam um motivo genuíno de preocupação."

Esta pesquisa foi publicada em Biologia da Mudança Global.

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